Publicado em 09/03/2017 às 18h44.

Amélia, um mito que precisa ser revisto

Ao levar adiante o estereótipo de "supermulher", a mulher comum reforça a desigualdade entre os gêneros

Jaciara Santos
Foto: Carol Garcia/ GOVBA
Foto: Carol Garcia/ GOVBA

 

Em meio à enxurrada de mensagens alusivas ao Dia Internacional da Mulher, neste 8 de março, uma me chamou a atenção em particular. Chegou via aplicativo WhatsApp e – como quase tudo o que rola pelas redes sociais – não precisa ser levada a sério. Mas me levou a pensar. Com a pretensão de mostrar as diferenças entre homem e mulher, o texto fala de uma dona de casa que, no quesito dedicação, perde longe para a Amélia da canção de Mário Lago e Ataulfo Alves.

A história é mais ou menos assim: a certa altura da noite, uma mulher anuncia que vai dormir e deixa o sofá em que estava assistindo TV com o marido. Vai à cozinha e prepara as lancheiras dos filhos, põe roupa na máquina de lavar, repõe um botão que havia se soltado da camisa do marido, deixa a cafeteira no ponto para coar o café pela manhã, molha as plantas, faz outras tantas tarefas domésticas até (ufa!) se deitar.

Pouco depois (ou seria antes) o marido também avisa que vai dormir. Desliga a TV, deita e dorme.

Bom, a intenção do texto, me parece, é mostrar a desigualdade entre os gêneros. Mas discordo em parte da abordagem. Fico me perguntando o porquê de essa senhora se submeter a um regime escravagista em pleno século 21. O texto não menciona em que estado de ânimo ela desempenha as atividades. Irritada? Revoltada? Mortificada? Pelo visto, ela se mostrava resignada e encarava aquela rotina com naturalidade. O autor do texto parecia mais incomodado do que a própria personagem, fictícia, talvez.

É verdade que, historicamente, a mulher é explorada de várias formas. Isso é fato. No mercado de trabalho, ganha menos do que homem, mesmo quando desempenha a mesma função. Se trabalha fora de casa, tem dupla/tripla jornada, pois antes de sair pela manhã e ao retornar à noite, muitas vezes, tem que fazer o que aquela senhorinha da história fez.

Mas, em parte, somos corresponsáveis por esta situação. Ao carregar o mundo familiar nas costas, estamos reforçando e perpetuando a desigualdade para além da porta de casa. Por que, em vez de botar o marmanjo do marido e os folgados dos filhos para lhe ajudarem, aquela dona de casa adiou a hora de dormir e se desdobrou em uma, duas, dez pessoas?

Acredito que, no dia em que a senhorinha da história disser “vou dormir” e for direto para a cama, deixando para trás cafeteira, máquina de lavar, sanduicheiras e o que for, vai se fazer respeitar pelos familiares. Esse respeito – quem sabe? – pode gerar uma onda que extrapole os limites do ambiente doméstico e venha a contribuir para a valorização do trabalho feminino. Dentro e fora de casa.

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