Publicado em 27/09/2016 às 18h15.

Escola sem partido, recatada e do lar!

A discussão deveria girar em torno de uma reestruturação da educação no país, mas há quem proponha uma lei para engessar ainda mais o processo de educar

Priscila Almeida
Foto: Site Velho Sábio
Imagem ilustrativa (Foto: Site Velho Sábio)

 

Na contemporaneidade brasileira, o modelo de escola vigente tem sua origem identitária nas escolas do Século XIX dos sistemas públicos europeus. É nesta escola que os professores são convocados a trabalhar de acordo com o modelo construtivista e usar a tecnologia da informática e da comunicação para estimular e desenvolver melhores habilidades ou competências em seu alunado. Dilema confrontado por professores e alunos que diante deste sistema complexo ainda deve ser avaliado de forma positivista.

Certo, só para organizar a conversa, estamos no Século XXI, com escolas em formato do Século XIX e professores que são compelidos a trabalhar com formato positivista do século XIX. Vivemos na era da velocidade e inconstância, nos acostumamos a ver as necessidades mudarem rapidamente, com um clique na tela dos smartphones. E não tem como pensarmos em educação sem pensarmos nas mudanças comportamentais que vivenciamos cotidianamente.

O ato educativo é um ato político, processual, historicizado. A escola contemporânea não deve apenas respeitar as diferenças, elas precisam ser registradas e discutidas. O olhar da escola deve estimular os vínculos sociais, ajudar os sujeitos a relativizarem, refletirem sobre conceitos e temas socioculturais. E como fazer esse trabalho de mobilização dos alunos enquanto sujeitos humanos e cidadãos, não robôs?

Esse é um verdadeiro obstáculo, pois os alunos vão à escola hoje, não para aprender, construir um saber, mas sim, para tirar boas notas. Eles não devem pesquisar, pensar o problema por vários ângulos, ser ativos em seu processo de aprendizagem, devem ser robôs consumindo conteúdo apenas para passar no vestibular, ir à faculdade, alcançar o emprego dos sonhos (o qual desconhece) e ser feliz! Assim, o professor deve ser ativo e passar todo o conteúdo que o aluno precisa, não para ser cidadão, mas para que ele seja feliz.

O estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, avaliou 64 países e revelou que o Brasil está entre os dez piores rendimentos escolares do mundo em 2015. Então, algo não está dando certo na educação brasileira. Seja por essas contradições – ou por outras como a desvalorização do professor– a falta de limites que vivenciamos em todos os âmbitos: escola, família, sociedade, de certo, mudanças precisam ocorrer.

Temos que trabalhar mudanças na escola

sem leis que desempoderam o professor

 

E então, eis que surge o Projeto Escola sem Partido! É realmente chocante perceber que em meio a todo o complexo sistema educacional brasileiro em que a discussão deveria girar em torno de uma reestruturação da educação no país, repensando o papel do Estado, do professor, da família e do aluno neste percurso, para que fosse trabalhada uma melhor relação entre o projeto sociopolíticos, o programa de estudos e uma pedagogia coerente com estes dois primeiros, sempre dialogando com a forma que a sociedade está vivendo o hoje, há quem faça projeto de lei para engessar ainda mais o processo de educar.

O projeto de lei Escola Sem Partido parte do principio de que os professores utilizam a sala de aula para doutrinação ideológica e para que isto não ocorra é preciso estabelecer normas rígidas de como o professor deve transmitir seu saber em sala de aula. Voltaremos à ditadura? Estaremos todos, agora, cerceados do direito de debater conhecimentos diferentes? Ainda existe liberdade de expressão?

Nesta lei há o questionamento da transmissão dos saberes na medida em que diz que conhecimentos que possam contestar os valores da família da pessoa não deveriam ser ensinados. Ora, a escola é um espaço de reflexão, discussão, então não pode haver cerceamento do direito do aluno de aprender.  A escola é um lugar de confronto de conhecimentos, não são pontos de vista que devem ser ensinados em sala de aula. Como não trabalhar o folclore, as religiões, as questões de gênero, a política se fazemos parte de uma república democrática? A família contemporânea tem vários formatos de ser e acontecer, isso também não interfere e não chega à escola?

Perdido e inseguro em meio a tantas mudanças sociais, culturais e de transmissão de saber há quem ache que o conservadorismo extremado administrará o mal-estar social. Continuaremos lidando com as questões da contemporaneidade com soluções de outra época? O sociólogo Bauman revela que a tensão entre tolerância e segurança é grande, sempre estamos pendendo para um lado. Freud também fala desta tensão ao trabalhar o mal-estar da civilização, o qual refere que estará sempre presente, pois civilizar instinto é um ato que sempre gera resto, gera angústia.

Assim, temos que trabalhar mudanças na escola sim, mas não com leis que desempoderam e desautorizam o professor e que excluem temas fundamentais para a sociedade atual. Essa lei propõe uma Escola sem partido, recatada e do lar! Já ouvimos essa proposta em outras áreas, não é mesmo? Tempos difíceis!

Priscila Almeida

Priscila Almeida é psicóloga clínica especialista em saúde mental, psicanálise e em trânsito. Escritora e editora do Blog Papos de Psico.

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