Publicado em 22/02/2017 às 21h51.

Marchinhas ‘incorretas’: tocar ou não tocar, eis a questão

Apontadas como reforço ao preconceito e à violência, músicas carnavalescas tradicionais são alvo da ditadura do politicamente correto

Jaciara Santos
Baile no Teatro Municipal de São Paulo (1970). Fonte: http://especiais.ig.com.br/zoom/carnavais-de-antigamente/
Baile no Teatro Municipal de São Paulo (1970) Foto: Reprodução /Especiais IG

 

Os muito politicamente corretos que me perdoem, mas leveza no carnaval é fundamental. Está rolando nas redes sociais uma mensagem que se propõe a ser uma brincadeira, mas que merece uma reflexão. O texto, supostamente engraçadinho, traz uma série de marchinhas carnavalescas tradicionais que entraram para uma lista de músicas considerada inadequadas e que, por isso, deveriam ser banidas da folia. Não por acaso, a relação inclui várias das canções recentemente atiradas ao limbo por blocos carnavalescos cariocas e paulistas.

“O teu cabelo não nega” (Lamartine Babo), “Me dá um dinheiro aí” (dos irmãos Ferreira – Ivan Homero e Glauco), “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão” (João Roberto Kelly), “Máscara Negra” (Zé Keti/Pereira Mattos, “Índio quer apito” (Haroldo Lobo/Milton de Oliveira), “A Pipa do Vovô” (Manoel Ferreira/Ruth Amaral) e outras tantas integram a lista maldita. As músicas têm em comum um aspecto: são consideradas politicamente incorretas. As razões variam. Esta por encerrar conteúdo racista, aquela por reforçar a homofobia, aquela outra por incitar a violência…

Uma pesquisa superficial na história da música ensina que a marchinha brasileira é descendente direta das marchas populares portuguesas, “partilhando com elas o compasso binário das marchas militares, embora mais acelerado, melodias simples e vivas, e letras picantes, cheias de duplo sentido” (Wikipédia). Como gênero voltado para o carnaval brasileiro, a marchinha passou a ser composta regularmente no Rio de Janeiro, lá pelos idos de 1920. Ou seja, a produção hoje demonizada refletia a sociedade e os costumes da época.

Como milhares de foliões, gerações afora, já me acabei atrás de bandinhas pulando e cantando os versos “(…) mas como a cor não pega…” sem pensar em racismo ou discriminação. Em parte, por reconhecer o contexto histórico em que a música fora produzida. Mas, hoje, corro o risco de linchamento por admitir que, sim, eu curto a Aurora, a Amélia e até a mulata bossa nova que caiu no hully gully. E, enquanto se discute o que pode ou não ser escutado, fecha-se os olhos ao que é violência, discriminação, preconceito.

Sim, porque mais racista que soem os versos de “O teu cabelo não nega” , violência de verdade é a que o afrodescendente enfrenta no dia a dia, o ano inteiro. E, se o recorte é o carnaval, nem precisa de trilha sonora, o apartheid é claro: “jovens bonitos” dentro da corda do bloco ou empoleirado num camarote, enquanto os PPPs (pretos pobres da periferia) seguram a corda, catam latinhas ou são emparedados naqueles guetos horrendos que se formam à margem dos circuitos carnavalescos.

 

Há que ter mais leveza e menos

radicalismo. Mas, sobretudo, bom senso.

 

Não faço parte do segmento LGBTS, mas tenho amigos (e amigas) gays que nunca se sentiram ofendidos com o “será que ele é transviado” da Cabeleira do Zezé.  E quanto à Maria Sapatão? Em recente entrevista à revista Exame, o cantor Ney Matogrosso, gay assumidíssimo, resumiu: “Estão gastando energia com coisas desnecessárias”. Para ele, a marchinha não desqualifica a lésbica e, de quebra, ainda a enaltece nos versos “O sapatão está na moda, o mundo aplaudiu / É um barato, é um sucesso / dentro e fora do Brasil”, recita o cantor.

A verdade é que o excessivamente politicamente correto tem tornado a vida muito chata. Respeito é bom e todo o mundo gosta. Mas exercer patrulhamento sobre tudo e sobre todos é fogo, irmão, como diria o poetinha. E como veem essa onda brasileiros que residem fora do país? Morando em Paris há quase 20 anos, um ator baiano, cuja identidade prefiro omitir, define o fenômeno como modismo.  “É uma onda nociva para a sociedade, apresentada com o pretexto de servir a uma boa causa, mas servindo na verdade a interesses diversos. Veio com esse relativismo que envenena hoje o sentido das coisas e das relações. Os cínicos são os que mais recorrem ao politicamente correto!”. Detalhe: ele é negro e homossexual.

Não temo ser taxada de alienada. Não preciso provar que ainda sinto no dorso o chicote do colonizador. Mas não vejo como legitimo  um radicalismo que clama por revisão histórica de obras imortalizadas no cancioneiro popular. Da mesma forma que os inquisidores apontam o dedo em riste para os compositores, exerço o direito de não enxergar preconceito onde só existe o lúdico. Até porque, se se levar ao pé da letra – trocadilho à parte – corre-se o risco de passar mais tempo verificando o que pode e o que não pode enquanto a fantasia desparece na fumaça da Quarta-feira de Cinzas.

Mais leveza e menos radicalismo. E, sobretudo, bom senso, que, como caldo de galinha (ops, vão reclamar de crueldade aos animais) não faz mal a ninguém. Então, loirinhas, moreninhas e mulatas, carecas e cabeludos, juntemo-nos a marias sapatões e transviados, saiamos metendo cotovelo e abrindo o caminho, porque as águas vão rolar e garrafa cheia não queremos ver sobrar. Ora, com tanto riso, tanta alegria, Alá, meu bom, Alá, até a pipa do vovô vai acabar dando uma subidinha. Nesta Cidade da Música, no cordão da saideira ou no arrastão do Brown, que dane-se o politicamente correto. E vamos sassaricar. Porque, como diz a antiga marchinha, sem sassaricar, essa vida é um nó!

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