Publicado em 06/03/2017 às 12h30.

O aplauso é belo, mas a vaia é linda

O aplauso é a véspera da vaia, a boca que canta e encanta é mesma que espanta, a mão que aplaude é a mesma que apedreja

Jorge Melo
Foto: Tiago Caldas/ Ag. Haack
Foto: Tiago Caldas/ Ag. Haack

 

“Todo artista tem de ir aonde o povo está” diz Milton Nascimento na bela canção “Bailes da Vida”, retratando a humildade com que aqueles que atingiram o status de celebridades da música, da TV, do cinema ou do teatro devem tratar o seu público.

Nessa lógica, o carnaval, notadamente o Carnaval de Salvador, por transformar a cidade em um verdadeiro panteão, oportuniza que certas divindades musicais, sem carisma e humildade, mas com faro para transformar polêmicas em tendências, preocupadas apenas em manter uma imagem controversa e contraditória, como estratégia para atrair e manter a atenção midiática, se esqueçam de que nem mesmo os deuses e deusas da música popular brasileira e do axé music, estão imunes às vaias.

Foi o que ocorreu na terça-feira (28), último dia do carnaval, no circuito Osmar, com uma dessas vaidosas divindades que causou grande constrangimento e indignação à comunidade policial militar baiana, quando, além de parar de se apresentar juntamente com o trio elétrico que comandava, ao passar em frente ao camarote da corporação, ainda respondeu às vaias e apupos que lhe foram dirigidos pelos insatisfeitos e irritados foliões, com palavras e gestos obscenos.

Como era de se esperar, em nossa época digital, o assunto tomou conta de sites e redes sociais, inundadas com vídeos sobre o ocorrido, ao ponto de a artista ter sua página bloqueada no Facebook após centenas de usuários utilizarem as suas próprias publicações para criticá-la, por conta da polêmica envolvendo o público presente no camarote da Polícia Militar da Bahia.

Preocupada com a repercussão do ocorrido, a assessoria da cantora logo tratou de negar que o desligamento do trio tivesse sido motivado por qualquer razão relacionada ao camarote da corporação, justificando-o com base em uma suposta orientação dada por um fiscal da prefeitura de Salvador para que o encerramento do show ocorresse naquele ponto, apesar de o circuito se estender até o Campo Grande.

É obvio que a explicação não convenceu aos milhares de policiais e bombeiros militares baianos que consideraram, no mínimo, um ato de desconsideração e desrespeito com a instituição, principalmente, pelo fato de a administração municipal ter negado a existência da alegada determinação de encerramento do desfile do trio que, coincidentemente, depois de passar pelo local onde se encontrava instalado o camarote, retomou a sua apresentação normalmente.

 

Carregamos uma biografia, que,

queiramos ou não, falam por nós

 

Em meio à troca de acusações recíprocas sobre quem teria ofendido quem, o presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), mesmo sem confirmar a suposta ordem de encerramento da apresentação, resolveu dar uma de “bombeiro” e, tomando a defesa da cantora, definiu o episódio, como “um grande mal-entendido”.

Não tenho dúvidas de que ocorreu realmente um mal-entendido. Um mal-entendido que, com certa frequência, infelizmente costuma ocorrer com aqueles para quem a humildade é apenas uma estratégia a ser usada quando lhes é conveniente, esquecendo-se de que, não raro, como nos ensinou o cantor e compositor carioca de nascimento, mas mineiro de Três Pontas de coração: “foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão que muita gente boa pôs o pé na profissão de tocar um instrumento e de cantar, não importando se quem pagou quis ouvir”.

O pior dessa história é que quem custeou, pagando tributos junto com os demais cidadãos, e laborou, prestando a segurança necessária, para que a festa acontecesse, foram justamente aqueles que queriam ter o direito de ver e ouvir a todos os artistas contratados  pelo erário público municipal e estadual e que, com certeza, se não como fãs, mas como contribuintes e profissionais, mereciam, no mínimo, o respeito e a consideração de uma explicação prévia da cantora sobre as razões que a impediriam de continuar a sua apresentação até o final do circuito.

Como a voz desta cidade não é minha e, também, não pertence a quem se jacta de possuí-la, tendo consciência de que sempre existirão, no mínimo, duas versões para um mesmo fato, penso que o melhor é dar o caso por encerrado, principalmente, porque não lhe dou importância e significado para levá-lo a ferro e fogo, em busca de reparação e repúdio. Afinal, todos carregamos uma biografia em nossas histórias de vida que, queiramos ou não, falam por nós.

Mas o que realmente importa é que, no final de tudo, gostem ou não, mais uma vez, graças ao trabalho dos profissionais de segurança pública e de defesa civil, mais um carnaval, na medida do possível, terminou em paz e alegria. E para os verdadeiros amantes da festa, isso basta, embora, para certos artistas, a catarse, o escândalo e a megalomania continuarão devendo vir antes de qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa for a música.

Mesmo que uns não queiram, se o aplauso é belo, a vaia é linda, pois, existe uma simbiose entre a vaia e a democracia que só torna digno dos louvores aqueles que aprendem a lidar com os apupos que um dia poderão receber. Assim, do lamentável “mal-entendido” fica uma inesquecível lição, inspirada nos “Versos Intimos” de Augusto dos Anjos, que a famosa artista e, com certeza, os seus, agora, ex-fãs, aprenderam muito bem: o aplauso, amigo, é a véspera da vaia, a boca que canta e encanta é mesma que espanta, a mão que aplaude é a mesma que apedreja.

Jorge Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.

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