Publicado em 10/04/2019 às 19h20.

Afoxé Filhos de Gandhy ganhará livro para contar seus 70 anos de história

Em conversa com o bahia.ba, Gilsoney de Oliveira, presidente do bloco, contou quais outras comemorações acontecerão ainda neste ano

Bianca Andrade
Foto: Facebook/ Arquivo Pessoal/ Filhos de Gandhy
Foto: Facebook/ Arquivo Pessoal/ Filhos de Gandhy

 

Os atabaques, agogôs e ijexás anunciam: o tapete branco está chegando para espalhar paz, amor e alfazema pela avenida. “Senhor do Bonfim, faz um favor pra mim, chama o pessoal, manda descer pra ver Filhos de Gandhy”. Se Gilberto Gil convocou, quem somos nós para dizer não?

Completando 70 anos de existência em 2019, o Afoxé Filhos de Gandhy tem muita história para contar, e para não deixar nenhum momento da trajetória do bloco de fora, o icônico tapete branco da Avenida ganhará um livro comemorativo.

A novidade foi revelada pelo presidente do bloco, Gilsoney de Oliveira, em entrevista ao bahia.ba. “Esses 70 anos tem que marcar na história do Afoxé Filhos de Gandhy e ser guardado nos anais. Nós estamos pretendendo fazer um livro para contar toda história, da criação até os dias de hoje, dos filhos de Gandhy, até o final do ano”, contou o administrador que foi eleito em 2017 como representante do bloco por voto dos associados.

Confira na íntegra o bate-papo com Gilsoney de Oliveira, presidente do afoxé Filhos de Gandhy.

– Como é possível manter a tradição ao longo dos anos?

O Afoxé Filhos de Gandhy ele já vem numa linha criada no sincretismo religioso, no candomblé, que foi essa junção, no final da década de 40, quando os estivadores criaram essa marca e esse bloco. De lá pra cá os adeptos da religião ajudaram a manter essa cultura passando por presidentes que também contribuíram muito, por ter esse entendimento de que o Afoxé Filhos de Gandhy tem essa bandeira onde a gente prega a paz, defende a não violência, defendemos os direitos das pessoas e as questões humanitária.


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 Ao longo dos anos as pessoas que aderiram ao bloco foram mantendo essa cultura, preservando, junto com os diretores e adeptos, tanto do candomblé, quando da umbanda. Eu acho que vem do ensinamento, das pessoas que convivem lá dentro, da direção e dos próprios associados, que saem, questionam e defendem essa causa.

– Quais foram as principais conquistas dos Filhos de Gandhy nesses 70 anos de história?

Primeiro é a resistência. Essa é a nossa principal conquista. Nós somos um bloco de negros, afrodescendentes, levando o Afoxé para a avenida. Em segundo é a democracia. Nós temos a possibilidade de escolher o presidente do bloco através da votação. Outra conquista desses 70 anos é ter o Governo, independente de partido, ajudando os Filhos de Gandhy. Até porque nós somos um patrimônio imaterial do estado da Bahia. E os próprios associados fazem parte das nossas conquistas. Eles são o ponto de equilíbrio, economicamente falando, mantem e ajudam, não a custear todo o Carnaval, mas grande parte da nossa verba vem de lá.

– Qual o papel dos Filhos de Gandhy na luta contra a intolerância religiosa?

Eu digo que o Gandhy é um bloco ecumênico. Nós tocamos para orixás, cantamos e dançamos, mas o Gandhy, eu vejo como um estado laico, onde a gente respeita todas as crenças e religiões. Respeitamos o direito de qualquer pessoa, individualmente. Eu vejo que as pessoas podem sair no Gandhy, independente de ser candoblecista ou não. Eu sou uma pessoa que vou na linha da umbanda e respeito. A gente tem que combater sim a intolerância, porque no mundo de hoje, no mundo moderno, a gente precisa respeitar a orientação religiosa de qualquer pessoa. Não só a religião, como a sexualidade. 

 

 

 

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Deus deu o direito a cada um de fazer o que der na cabeça, o livre arbítrio. Mahatma dizia que religiões são caminhos e que só existe um Deus. A própria bíblia fala que existe várias moradias.

O que eu venho combatendo e pregando são bandeiras que o Gandhy defende, como a questão do feminicídio, a agressão e a falta de respeito a mulher, a questão da homofobia também. As pessoas precisam ter respeito aos outros, independente de cor, raça e sexo.

– De certa forma os Filhos de Gandhy se tornaram conhecidos pela “tradição” da troca de colar por beijos, mas a prática se tornou ainda mais polêmica nos dias de hoje, principalmente em um período onde a luta contra o feminicídio e o assédio se intensificaram na sociedade. Qual o posicionamento do bloco?

Essa não é uma cultura do Afoxé Filhos de Gandhy. Isso foi criado de alguns anos para cá. O colar funciona como se fosse um amuleto para a gente, as duas cores representam dois orixás que regem o Gandhy, o branco é Oxalá e o azul é Ogum.

De lá pra cá se criou essa história aí de que precisava de um beijo para dar o colar. Porque na realidade a mulher ela tem que ser conquistada e não é por causa de um colar que ela vai dar o beijo, eu acho que independente de qualquer situação, cabe a pessoa ir até a mulher e conquista-lá, sem ter que oferecer qualquer coisa.

A minha gestão vem combatendo isso, vou fazer agora dois anos como presidente do Filhos de Gandhy e eu venho quebrando e mostrando que isso não é conceito, não é cultura e não é tradição do Afoxé. A gente carrega uma grande marca, mundialmente conhecida, Mahatma Gandhi, um grande humanista. A nossa cultura e a nossa tradição são os cânticos, são as vestes, são os toques, o famoso tapete branco.

Isso para mim é um assédio moral. E hoje nós temos essa questão do feminismo, crescendo a cada dia mais e mostrando que a mulher precisa ser respeitada e não assediada.

– Quais outras ações estão sendo preparadas por vocês para comemorar os 70 anos do bloco, além da exposição feita por Christian Cravo e o livro que deve sair até o final do ano?

Durante o ano teremos o calendário religioso, vamos ter agora a festa de São Jorge, que no sincretismo religioso é Oxum. Temos a festa de Santo Antônio, que a feijoada de Ogum.

Fizemos uma sessão especial em Brasília, dia 26 de abril temos uma sessão especial encaminhada pela deputada Olívia Santana. E provavelmente teremos uma sessão especial na Câmara de Salvador.