Publicado em 03/05/2017 às 09h05.

Picolé Falcão é o novo Capelinha

Mesmo em tempos de crise generalizada, uma nova tradição se espalha pelas ruas de Salvador e reúne ambulantes e clientes em torno a uma nova confraria

James Martins
Foto: James Martins / bahia.ba
Nudson de Jesus e Renê Paixão se abastecem para ganhar ruas e buzus (Foto: James Martins / bahia.ba).

 

“Picolé Falcão! Só paga um real! É Falcão! Falcão! Não é esses picolés aguados que vocês compram por aí não. Aqui é Falcão, verdadeiro sabor da fruta! Se não gostar não paga! Um real, venha”, o orgulho do vendedor ao anunciar seu produto no ponto de ônibus da Rótula do Abacaxi chama atenção. Orgulho assim não se via desde os tempos do Capelinha – cuja marca virou um verdadeiro sinônimo de picolé popular, chegando mesmo a ser falsificada, ou citada indevidamente nos anos 1980. Pois o novo Capelinha é o picolé Falcão, a marca que agora vale por um certificado de qualidade em seu segmento. “O melhor picolé de um real da cidade é esse aqui, não tem nem comparação”, garante Jacsom Bastos, eletrotécnico, saboreando um de amendoim.

Novo ícone a se espraiar por toda Salvador, Simões Filho e Lauro de Freitas, na verdade, o Falcão não é bem uma novidade, mas uma nova marca para um produto já tradicional, criando uma nova tradição. A história, aliás, demonstra bem a importância do marketing e deveria ser usada nas faculdades como ilustração. “Na verdade já existimos há 40 anos, mas se chamava JM. Apenas há cinco anos mudamos para Falcão, que é meu sobrenome. Inclusive, muitas vezes o pessoal anunciava como Capelinha e era o picolé daqui”, garante Luciano Falcão, dono da sorveteria, localizada na Avenida Argos (Pau Miúdo), verdadeiro QG de soldados do sabor, devidamente equipados com caixas de isopor a tiracolo que dali sairão para batalhas em ruas, ônibus, praças e praias.

Questionado pela reportagem do bahia.ba, Luciano explica melhor a história das marcas. “Veja bem, os picolés eram iguais, quadrados, não tinha embalagem identificando. O nosso era mais barato e melhor, então os vendedores pegavam aqui e vendiam como Capelinha, por ser uma marca conhecida na época. Mas agora a nossa própria marca, Falcão, está na boca do povo”, diz. Fábio Lúcio, que comercializa o produto há 12 anos, confirma: “É só gritar Falcão que a galera coça logo o bolso”. E Nudson de Jesus, bem mais jovem, explica o sucesso: “O amendoim é cremoso. A tapioca você sente o gosto do leite. É tudo da fruta mesmo, não tem caô. O sabor é bem melhor que os outros. Aqui é preço e qualidade. Falcão é o sucesso, todo mundo quer!”.

A difícil equação preço e qualidade é mérito da visão empresarial de Luciano, que fez questão de manter ambos. “Isso que ele faz por nós é coisa de irmão. Esse preço não existe, é para incentivar mesmo”, elogia o ambulante Renê Paixão, que prefere comercializar nos ônibus. “A disputa é preço. E os outros, em geral, não pensam muito na qualidade. Então, barateia, mas a qualidade cai”, explica Luciano Falcão, ao garantir que criou uma linha de produção para atender à demanda de R$ 1 sem tornar o picolé aguado. “Se você gosta de chupar picolé bom por um real, agradeça a esse homem”, completa Renê. Outro diferencial é o uso de frutas naturais (não essência), no caso dos sabores de fruta, e a não adição de conservantes artificiais. Toda produção é acompanhada pela nutricionista Lucídia Contreiras.

Amendoim é o sabor que mais vende (Foto: James Martins / bahia.ba).
Amendoim é o sabor que mais vende (Foto: James Martins / bahia.ba).

 

“O picolé daqui é tão bom que o de açaí, por exemplo, o pessoal que faz academia, como eu, chupa como complemento. A gente usa açaí puro e granola Tia Sônia. Chupa dois e garante aquela energia”, diz ela. E o metalúrgico Homerson Miranda lembra como tomou conhecimento do picolé Falcão, há quatro meses. “Eu tava no ponto de ônibus, em Plataforma, o cara chegou fazendo uma agonia da zorra, gritando ‘Falcão, Falcão’, e dizendo que não tinha como não gostar do picolé. Eu experimentei e gostei mesmo. Agora só quero saber deste”, diz. E Maria Souza, estudante, é categórica: “Quando chega o vendedor falando ‘picolé embalado’ eu nem tchun. Porra de picolé embalado… Todo picolé hoje em dia é embalado. Eu só me movo quando ouço Falcão”.

O sucesso crescente tem feito inclusive com que alguns picolés sejam anunciados como Falcão, sem ser. “Já comprei falsificado. Falsificado não… não sei… Mas não era Falcão e foi vendido como se fosse. Eu até liguei para a fábrica pra reclamar”, diz Gilvan Sicupira, motorista. Luciano explica que às vezes o vendedor continua usando a caixa de isopor plotada com a marca, mas passa a comprar em outro lugar, por diversas questões, e anuncia Falcão para vender mais rápido. Um ponto fraco é que as embalagens dos picolés de um real não vêm com o nome escrito. “Mas se você me der um de outra marca dizendo que é Falcão, eu reconheço na mesma hora”, garante Nudson. Do mesmo segmento, de um real, a única marca apontada pelos vendedores como capaz de “dar testa, às vezes” ao Falcão, é justamente a Real.

No verão, a Sorveteria Falcão chega a vender 25 mil picolés por dia. Já na baixa estação as vendas caem para 8 mil unidades, em média. O maior mérito da marca, contudo, é manter acesa a tradição de orgulho pela produção popular, incorporando em sua marca signos que superam os aspectos comerciais e atingem as esferas familiar e lendária – assim como fizeram, em suas épocas, o refrigerante Fratelli Vita e o próprio picolé Capelinha. “É capaz de, no futuro, Falcão ser um jeito de dizer picolé em Salvador. É assim que as coisas começam”, reflete a socióloga Jaiana Menezes. Como quer que seja, essa soma de som e sabor vem tornando ônibus, pontos de ônibus, balcões, filas, repartições públicas, ruas e demais lugares/situações cotidianos em espaços encantados como em uma obra de Nelson Rodrigues. E por apenas um real. Você já chupou o seu?

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