Publicado em 04/05/2017 às 09h00.

‘Quantidade de linhas integradas hoje é muito baixo’, diz presidente da CCR

Diretor da concessionária de modal sobre trilhos, Luiz Valença fala sobre andamento das obras, percalços com a prefeitura e o governo do estado

Evilasio Junior
Foto: Mateus Soares/ bahia.ba
Foto: Mateus Soares/ bahia.ba

 

bahia.ba – Os testes da linha 2 do metrô, entre a Rodoviária e Pituaçu, já foram iniciados, mas uma coisa ainda não está definida, pelo menos publicamente, que é a data inauguração. Já há uma data marcada? O governador disse que seria em maio, mas não havia o dia definido.

Luís Valença – Nós já concluímos a parte principal dos testes de circulação dos trens da Rodoviária até Pituaçu, e desde sábado nós iniciamos a circulação normal, que a gente chama de ‘marcha branca’, um termo técnico para indicar que a operação já está completa, porém, sem a presença dos passageiros, que se dará a partir da inauguração. É a oportunidade que a gente tem de fazer ajustes finais, de tempo de abertura de portas, para calcular direito as distâncias entre cada uma das estações e o tempo de manobra final de cada uma das extremidades. Para a inauguração, faltam alguns ajustes finais e, principalmente, as autorizações de cada um dos órgãos competentes envolvidos, alvarás, licenças etc. Nós temos que organizar o processo de organização formal, que depende da agenda das autoridades. Imagino que até a segunda semana de maio, seguramente, devemos inaugurar.

.ba – O senhor falou de licenças. Tem alguma pendência da parte da prefeitura para esse trecho?

LV – Todo processo de implantação e inauguração de qualquer edificação dentro de uma cidade requer várias autorizações, licenças de órgãos ambientais, operacionais, tem o Habite-se, que aqui em Salvador tem outro nome, que é o alvará de construção de conclusão de obras e plano de incêndio (risos), depois você tem o auto de vistoria do Corpo de Bombeiros e, ao final de tudo isso junto, o governo, efetivamente, tem que autorizar a operação, porque se trata de uma concessão. Portanto, nós não podemos iniciar a operação sem que haja uma aprovação formal do poder concedente, nesse caso, do Governo do Estado da Bahia. Então, está tudo dentro do cronograma. Não tem nenhum problema nesse sentido, mas é um processo burocrático que, geralmente, vai até o último dia. É normal isso, até porque, depois que você consegue essas autorizações, é porque está tudo pronto, não tem porque esperar.

.ba – Parece que havia uma pendência em relação à Estação Pernambués. Isso já foi resolvido com a prefeitura?

LV – Não tenho conhecimento de nenhuma pendência impeditiva. Está tudo caminhando dentro do planejado. Pernambués está completamente pronta. É uma estação mais fácil de enxergar, porque está fora dos tapumes e liga a região do Iguatemi à Paralela.

“O número, a quantidade de linhas integradas, em função da linha 2 do metrô, hoje é muito baixo. Nós temos, mais ou menos, 270 linhas urbanas integradas, a maior parte delas servindo à linha 1.”

.ba – Dentro do projeto, havia a previsão de instalação de um terminal de integração de ônibus em Pituaçu, que seria a maior estação da linha 2 do metrô. Quando o trecho da Rodoviária até Pituaçu for inaugurado, agora em maio, o terminal de ônibus já vai estar em funcionamento? A integração já está resolvida com a prefeitura?

LV – Olha, o terminal de Pituaçu, sem dúvida, é de fundamental importância. É grande, em termos de dimensão vertical, com quatro pavimentos, e está em construção. Ele vai ter o acesso principal por baixo da Paralela, por meio da Avenida Gal Costa, que é um processo viário que está em processo de implantação, uma obra do governo do Estado independente do metrô, e também tem um acesso pela 1ª Avenida do Centro Administrativo, de quem vem do aeroporto, logo depois do viaduto de Pituaçu. Nós estamos construindo um viaduto que vai permitir acessar um estacionamento na parte superior desse terminal. Nós vamos ter estacionamento por baixo, de quem vem da Avenida Gal Costa, em um sentido ou outro, e nós vamos ter estacionamento em cima, para quem vem da Paralela e acessa o CAB. Teremos um pavimento exclusivamente de ônibus e uma integração muito importante ali, mas que só vai funcionar de forma efetiva depois que a Avenida Gal Costa e o próprio terminal estiverem prontos. Mas, além disso, ali tem uma série de pontos de ônibus que, no início da operação da estação do metrô, já será possível fazer uma integração bastante eficaz. Claro que não vai ter o mesmo volume do terminal. O terminal de ônibus, no nosso cronograma de obras, está apontando para [ser inaugurado em] setembro. Nós estamos trabalhando para tentar acelerar porque, com a estação de metrô, é fundamental que o terminal funcione. Mas também é importante que a Avenida Gal Costa também fique pronta. Eu imagino que essas três coisas não vão acontecer exatamente no mesmo momento, então nós vamos ter um processo de ampliação da integração em Pituaçu de forma gradativa.

.ba – Um dos planos para reter os ônibus que chegam da Região Metropolitana à capital e melhorar a mobilidade era o terminal do Acesso Norte, mas ele sempre está muito vazio. Falta algo para haver o pleno funcionamento do terminal, que é administrado pela CCR?

LV – Sem dúvida, aquele foi um terminal construído pela CCR e era uma obrigação que a gente tinha no projeto, de construir um grande terminal na interligação das duas linhas. Aquele terminal também tem uma importância estratégica, porque é o ponto em que você junta a linha 1 com a linha 2. Hoje a gente está utilizando ele de forma preliminar e parcial, com os ônibus metropolitanos, porque a gente ainda não tem o metrô da Paralela funcionando, mas o objetivo das linhas metropolitanas é parar inicialmente em Pituaçu e, posteriormente, não vai demorar muito tempo, ainda esse ano, a gente vai inaugurar a reforma e a ampliação do terminal Mussurunga. É lá que os ônibus vão parar. Depois, em uma terceira etapa, alguns deles vão parar no terminal Aeroporto. Então, o terminal Acesso Norte é eminentemente urbano e aí, nesse sentido, depende basicamente da Secretaria de Mobilidade do Município colocar os ônibus lá dentro do terminal e integrar. Se você observar bem, na frente daquele supermercado da Rótula do Abacaxi [Extra], tem um conjunto de atividades de ônibus do lado de fora do terminal. Aqueles ônibus são todos urbanos. A nossa expectativa é de que, pouco a pouco, a Secretaria de Mobilidade vá colocando os ônibus para dentro do terminal e integrando ao metrô. O número, a quantidade de linhas integradas, em função da linha 2 do metrô, hoje é muito baixo. Nós temos, mais ou menos, 270 linhas urbanas integradas, a maior parte delas servindo à linha 1. Então, hoje, por exemplo, o passageiro que sai de Pirajá e quer ir para a região da Avenida Juracy Magalhães, Pituba, Stiep e Rio Vermelho, ele não é servido de linhas de ônibus integradas. Tem muito passageiro hoje que tem a possibilidade econômica e está pagando duas passagens. O certo seria que ele saltasse no Iguatemi e tivesse o acesso à região com uma passagem apenas. Isso, infelizmente, ainda não está acontecendo, mas está em processo de implantação. Imagino que as autoridades, depois de um investimento deste porte, podendo resolver o problema de mobilidade em Salvador, em algum momento vão tomar a decisão. É questão só de tempo.

Foto: Mateus Soares/ bahia.ba
Foto: Mateus Soares/ bahia.ba

 

.ba – Eu já ouvi críticas dos dois lados. Tanto da CCR, de que o metrô não tem hoje o público que deveria ter, de que o número de passageiros é inferior àquilo que tinha sido projetado, quanto dos passageiros, de que têm que pagar duas passagens e deixam de usar o metrô, muitas vezes, porque não têm o dinheiro para comprar os dois bilhetes. O que falta para a integração plena? O senhor acredita que há uma má-vontade política? O que tem travado a implantação do sistema, que já era para estar em pleno funcionamento?

LV – Na verdade, nós temos duas questões. A primeira delas são os contratos. Nós temos os contratos de concessão, em que foi previsto todo o processo de implantação da integração, com corte de linhas de ônibus, de racionalização do sistema. Não só para não haver concorrência, mas porque não faz sentido ter um transporte de alta capacidade e nas linhas troncais você ter ônibus fazendo o mesmo trajeto. Vai ocupar a cidade e não tem vantagem nenhuma fazer esse tipo de investimento. Então, a ideia é que tivéssemos um sistema troncal com o metrô e um sistema capilar dos ônibus chegando.

.ba – Para alimentar o sistema metroviário…

LV – E vice-versa. O ganho é de todos. Quer dizer, o sistema passa a ser eficiente. Hoje o que nós temos, infelizmente, é uma concorrência predatória entre ônibus e ônibus em Salvador, o que já não é algo aceitável. Então, há trechos aí de ônibus metropolitanos que circulam nas mesmas linhas onde circulam os ônibus urbanos. Isso foi previsto, em algum momento lá atrás, eu não participei disso. Foi anterior ao contrato de concessão. Isso foi previsto lá atrás. A vida muda. A cidade evoluiu, o trânsito mudou. A prefeitura fez um processo de concessão das linhas de ônibus, com o sistema Integra, e isso não ficou completamente casado. Então, o que nós temos hoje é uma coisa diferente daquilo que tinha sido projetado. Portanto, a gente tem que encontrar uma nova equação. A segunda coisa, que é muito relevante, é exatamente a questão econômica que está sendo discutida. Não só aqui nessa região metropolitana, como em todas as regiões metropolitanas do Brasil, que é quem subsidia o quê no transporte público. Não tem um lugar no mundo que tenha um transporte público eficiente sem que haja intervenção do Estado, seja Município, governos estaduais ou União. O que se espera de um sistema de mobilidade é que o passageiro saia da sua origem e chegue ao seu destino no tempo mais curto possível, privilegiando o transporte público, em vez do transporte individual. Isso tem que custar o mínimo possível para o Estado. Então, como equacionar essas contas? Para isso, a sociedade tem que participar de alguma forma. Seja na restrição de veículos particulares, como rodízio e pedágio-sombra, seja com exigências para aquisição de carros. É preciso estabelecer uma política pública que pense na cidade como um todo. A nossa associação de transporte de passageiros sobre trilhos já tem alguns anos que está operando e tenta tratar dessa questão. A nossa principal pauta é a tal autoridade metropolitana, independentemente da polêmica política que sugere tirar poder do prefeito A, do prefeito B, do governador A ou do governador B. É preciso tomar uma providência. A gente monta um sistema desse porte, que envolve não sei quantos municípios da Região Metropolitana de Salvador, e cada um está regulando o seu sistema separadamente. Você imagine agora, Lauro de Freitas, quando o trem chegar ao Aeroporto. É preciso tomar uma providência ali, que não depende mais só do prefeito de Salvador e do governador do Estado. Depende também da prefeita de Lauro de Freitas, e assim vai ser em todos os outros. Essas duas questões não foram fáceis de resolver em lugar nenhum do Brasil e aqui nós estamos apenas no começo. É importante que a população acompanhe, cobre e se manifeste para favorecer essa solução. Tem por exemplo a questão cultural. As pessoas querem pegar apenas um transporte público para sair da sua origem e chegar ao seu destino.

“Qual é a tarifa justa? Eu não sei. É preciso racionalizar primeiro, porque pagar a tarifa cara para andar ônibus vazio, é um preço que a sociedade não pode pagar. […] Você calcular tarifa para um sistema ineficaz e predatório, como tem hoje, é você arrumar dinheiro para pagar a ineficiência.”

.ba – Exatamente. Não querem fazer a baldeação…

LV – Uma coisa que é irreal. É impossível de prover. A gente entende isso para cada um ser humano, mas imagine. O cara está em Itapuã e quer ir para Pirajá, o outro está em Itapuã e quer ir para a Lapa, o outro quer ir para qualquer parte da cidade… Você pega as linhas de ônibus hoje, em Salvador, e é muito engraçado mostrar o mapa das linhas. Parece um emaranhado. A mesma linha passa e volta ao mesmo lugar várias vezes e o passageiro está ali dentro, gastando um tempo precioso, um calor filho da mãe…

.ba – Fora que engarrafa o trânsito e atrapalha a vida de todo mundo. Do cara que está no ônibus ao cara que está no carro de luxo, todos vão sofrer o mesmo impacto…

LV – E aí eles ainda fazem concorrência. Botam dois ônibus que passam no mesmo local e fazem as mesmas distâncias.

.ba – Em horários semelhantes…

LV – Para você ter ideia, durante um teste recente, o trânsito estava todo congestionado na Avenida Paralela e tinha uma fila de ônibus, desde o viaduto de Pituaçu até quase a Grande Bahia, em Pernambués, e a maioria deles estava vazia. Ora, isso tem um custo para a sociedade. Qual é a tarifa justa? Eu não sei. É preciso racionalizar primeiro, porque pagar a tarifa cara para andar ônibus vazio, é um preço que a sociedade não pode pagar. É preciso que o sistema seja eficiente. Então, a tarifa, que eles estão discutindo, e que precisam discutir, ela tem que ser feita com base em um sistema racionalizado. Você calcular tarifa para um sistema ineficaz e predatório, como tem hoje, é você arrumar dinheiro para pagar a ineficiência e, hoje, o país não aguenta.

.ba – O senhor é empresário, representa um grande projeto, e obviamente não pretende entrar em determinadas polêmicas político-partidárias, mas, para citar um exemplo concreto do que já aconteceu, o senhor falou da associação metropolitana, mas nós vimos, na reunião inaugural, que os prefeitos de um lado marcaram presença e os ligados ao outro lado não compareceram. Sem citar nomes, a política partidária da Bahia tem atrapalhado que o projeto de mobilidade avance mais rapidamente?

LV – A gente está estudando, no mundo inteiro, quais foram as iniciativas mais bem sucedidas, para apresentar à sociedade brasileira, seja no Congresso, no Senado ou nos estados. Uma solução, independentemente de qual é a conjuntura político-partidária da região metropolitana. Sempre vai ter conflito de interesse. A responsabilidade do transporte municipal é das prefeituras e, nas regiões metropolitanas, dos estados. Enquanto for assim, você tem a questão que envolve investimentos e você tem a questão que envolve a política tarifária. Portanto, depende do orçamento de cada estado e de cada município. A solução não se dá meramente você botando ou tirando poder de A ou de B, mas de garantir uma equação que funcione. No Brasil, nós não conhecemos nenhuma que tenha dado completamente certo. Eu sei que tem uma iniciativa na Bahia, que tem as suas dificuldades e, no processo democrático, é assim mesmo. Você tem que observar com certa isenção, para saber quem é que está falando a verdade em relação àquilo que interessa para a sociedade. O nosso papel, na ANP Trilhos [Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos], é encontrar uma solução que acabe com esse problema político-partidário. Agora, se a sociedade não quiser adotar, aí é outra história, mas nós vamos propor.

Foto: Mateus Soares/ bahia.ba
Foto: Mateus Soares/ bahia.ba

 

.ba – Durante muito tempo, o metrô foi considerado uma piada em Salvador, chamado de calça-curta, ficou 12 anos sem inaugurar etc e tal. Houve um evento em 2008, na campanha para prefeito, em que João Henrique apresentou as locomotivas que vieram da Coreia. Esses trens ficaram por alguns anos em um depósito no Porto Seco Pirajá. Recentemente houve dois problemas com quebra de trens da linha 1 do metrô. Esses casos têm alguma relação com o fato de os trens serem antigos e ficarem muito tempo em depósito, apesar de terem começado a funcionar há pouco tempo? Já há previsão de aquisição de novas locomotivas?

LV – Vamos por partes. Primeiro, os seis trens que existiam, de quatro carros cada, portanto, 24 carros, eles foram completamente revitalizados. Então, tanto faz o trem novo ou o trem que a gente chama de ‘série A’. A gente divide em duas séries: série A e série B, exatamente para não dizer que é trem velho e trem novo, porque os dois são novos. Nunca foram utilizados. O que nós fizemos foi um processo de revitalização completo e integral. Todas as partes e peças que tinham algum tipo de desgaste, por estarem ao relento, com oxidação, foram completamente substituídas. Então, o que a gente tem é um trem novo nos dois casos, tanto os trens da série A, que são os seis primeiros, quanto os trens da série B. A única diferença que eles têm são em relação à sua arquitetura. O trem da série B tem algumas características diferentes, mais atuais, inclusive com o aporte de tecnologia de outros projetos que a CCR tem, por exemplo, em São Paulo. Eles têm um salão único. Não têm portas entre os carros. Os carros de passageiros hoje são totalmente interligados na série B. Há alguma diferença também na forma que a gente se comunica e de segurança também, porque permite a circulação entre os carros, mas eles são exatamente seguros. Agora, não tem nenhum sistema perfeito. De tempos em tempos, vão acontecer falhas. E aí é importante para a população entender que este sistema que Salvador tem é um dos mais modernos do mundo. Ele é totalmente automático. O condutor está lá para atender a situações de emergência, de algum tipo de anomalia, para tomar algum tipo de providência pontual, mas o operador não conduz o trem. Esse tipo de sistema tem uma coisa chamada ‘falha segura’, de um termo em inglês chamado ‘fail safe’. Significa dizer o seguinte: qualquer indicação de falha, por segurança, o trem para na plataforma até que alguém confirme que não há risco à segurança do passageiro. Recentemente, a gente teve problema com uma das portas e foi exatamente essa a questão: não havia a indicação segura de que a porta estava travada, aí o trem não sai, até que alguém garanta que a porta estava fechada e travada. Na maioria das vezes ela está fechada e travada, mas o sinal seguro não chegou para o centro de controle e isso leva, às vezes, um tempo de cinco a dez minutos, o que, em um sistema de transporte de massa, causa algum tipo de congestionamento. A gente trabalha para que esse número de falha seja o mínimo possível, mas sempre que ele acontecer nós vamos responder muito rapidamente.

.ba – De volta ao cronograma, foi anunciado pelo governo que este mês o metrô chegará a Pituaçu e, depois, as estações serão inauguradas gradativamente até chegar ao aeroporto. Depois de Pituaçu, qual será a próxima?

LV – Até Mussurunga, está tudo pronto. Tudo pronto, pronto…

.ba – Se quisesse inaugurar agora em maio, poderia?

LV – Não. Porque falta um pequeno detalhe, que são os retornos da Paralela. Então, nós estamos construindo ali, entre Pituaçu e Mussurunga, dois viadutos, um na altura da Ferreira Costa e outro na altura do [condomínio] Alphaville. São dois retornos, nos dois sentidos: Centro-Salvador e Salvador-Centro. Eles estão bastante adiantados e, por falta desses dois retornos, nós não conseguimos emendar os trilhos. Na verdade, são três retornos em níveis que têm na Paralela pelo canteiro central. Nós vamos construir dois viadutos e a prefeitura vai fechar esses três retornos, tão logo a gente jogue o tráfego de carros em cima dos novos viadutos. E aí eu consigo emendar. Faltam 20 metros aqui, 20 metros ali… Então, nós temos 60 metros de trilhos, arredondadamente, que a gente precisa concluir os retornos para poder emendar. Emendou, a gente joga o trem lá em Mussurunga. O trecho entre o Bairro da Paz e Mussurunga, inclusive, já está com a rede aérea toda implantada. Todos os sistemas eletrônicos na via permanente do Bairro da Paz, onde não tem os retornos, até Mussurunga, estão prontos. (De acordo com a CCR e a Transalvador, o impasse foi resolvido três dias após essa entrevista ser concedida. Clique aqui)

.ba – E as demais estações?

LV – As estações Bairro da Paz, Flamboyant, Tamburugy e Mussurunga estão prontas e entregues. Entregue significa: nós já assinamos o documento que diz ao governo do Estado que as estações estão concluídas, porque de fato estão. Nós só temos uma estação em construção, que é a estação Aeroporto. A nossa expectativa é concluir esses retornos no mês de julho, mas estamos trabalhando para acelerar, finais de semana, feriadões. Aí a gente precisa de um tempo para poder emendar os trilhos e testar os trens. Os trens não têm como pular esses 20 metros (risos). Nós até apresentamos uma solução para a prefeitura, que permitiria fazer um retorno, com os carros passando por cima dos trilhos, de forma segura, para que a gente pudesse testar os trens durante a noite, para ganhar aí uns dois meses para a população, porque o sistema está pronto. Mas infelizmente, até agora, a gente não conseguiu, junto com a Transalvador e com a prefeitura, a autorização que a gente precisava para fechar esses retornos. Não desistimos, não. Estamos aí pedindo a atenção das autoridades municipais para privilegiar a sociedade baiana, tentando ver se é possível, desde que seja seguro. A gente respeita a autoridade de trânsito, o Fabrizzio Müller, a turma dele lá é muito competente, e espera que se consiga chegar a uma solução. Se não conseguir, paciência. Nós vamos ter que aguardar a conclusão dos viadutos e emendar esses 20 metros de trilhos. A gente está apontando para o mês de setembro inaugurar até Mussurunga. Se a gente conseguir uma solução com a prefeitura e com a Transalvador para antecipar o fechamento desses retornos, espero que seja possível, a gente consegue antecipar alguma coisa. É possível que Mussurunga esteja operando em agosto. Vai depender, evidentemente, dessa questão dos retornos.

.ba – E o último trecho, de Mussurunga até o aeroporto, será entregue ainda em 2017?

LV – A Avenida Carybé está muito avançada, falta pouca coisa até a altura do Salvador Norte Shopping. A estação Aeroporto está bastante avançada, mas temos ainda uma questão ali que envolve um terreno da União, da Base Aérea de Salvador. Nós estamos conversando. O governo do Estado está conversando com o comandante da Base Aérea, que tem se sensibilizado para a necessidade de rapidamente permitir que as obras avancem, porque nós vamos ficar com um trecho de 1,5 quilômetros de trilhos sem poder realizar por conta desse terreno. Algo que envolve a Força Aérea Brasileira, que envolve a Base Aérea de Salvador, que envolve órgãos da União, do governo federal e também do governo estadual, porque implica em fazer acordos formais. Faz parte da vida republicana. Tem uma burocracia complexa aí para resolver, mas estamos aguardando. Tão logo seja liberado, o nosso plano é inaugurar a estação Aeroporto dentro do ano de 2017. Nós precisamos disso. O nosso projeto não é de obra e sim de transporte de passageiros, e eu preciso levar o passageiro até o aeroporto. A nossa remuneração vem do transporte de passageiros, portanto, a obra para a gente é um mero meio. O dinheiro que a gente recebe pela obra não remunera o custo da obra. O que remunera o custo da obra é o passageiro transportado, ao longo de 30 anos. Nós temos uma empresa contratada, especializada nisso, que está lá com tudo pronto. Só falta isso para a gente concluir até o aeroporto.

Foto: Mateus Soares/ bahia.ba
Foto: Mateus Soares/ bahia.ba

 

.ba – E até Cajazeiras?

LV – Cajazeiras é uma extensão da linha 1, de Pirajá, com uma estação intermediária, ali na Brasilgás, que estão chamando de Campinas, e a outra lá em Águas Claras, que vai ser o ponto de integração com o novo terminal rodoviário e também com a 29 de março, essa grande avenida que vai ligar a Orlando Gomes à região de Paripe. Se vai ter o BRT ou não, não sei, mas ali vai ser um grande corredor. Esse trecho não faz parte das nossas obrigações de construção. O governo do Estado está organizando um processo para construir. Depende de uma decisão do governo do Estado. Mas, independentemente de quem vai construir, pode ser nós…

.ba – Vai ser aberta uma nova licitação, então, né?

LV – Eu não sei. A coisa está em discussão.

.ba – Mas está fora do contrato do governo com a CCR?

LV – Por enquanto, está fora do governo na CCR. Ele tem as duas opções. Tanto de fazer uma licitação pública, se for da conveniência do governo do Estado, quanto nos contratar para fazer isso, na mesma velocidade e com a mesma qualidade que a gente construiu até hoje. É do nosso interesse, inclusive, que essa qualidade não seja comprometida, para que a gente tenha um sistema uniforme, que já faz parte das obrigações, dos acertos com o governo do Estado. Mas, independentemente de quem vai construir, quem vai operar é a CCR, porque não faz sentido fazer um trecho de mais cinco quilômetros sem ser. Então, isso já é nossa obrigação. Nós temos que prover equipamentos, sistema, o pessoal e, quem quer que seja que for construir, ainda que não sejamos nós, nós vamos vigiar e vamos fiscalizar, porque nós vamos operar. A população pode ficar tranquila.

.ba – O BRT que foi anunciado pela prefeitura, que vai ligar a Lapa ao Iguatemi, não é predatório com o metrô?

LV – Não. Nenhum sistema é predatório com o metrô. O metrô vai estabelecer uma nova ordem no transporte público. Quem imagina que é possível concorrer com o metrô está completamente equivocado. Vai andar com o ônibus vazio por aí, infelizmente, porque a população vai fazer as suas escolhas. Vai procurar o sistema mais rápido, mais confortável e mais seguro. Então, não vai fazer sentido nenhum um sistema concorrer com o outro. É assim no mundo inteiro. Independentemente da vontade e da lei, a economia cuida do resto. Todo sistema troncal, principalmente os BRTs, tem que ter integração. Esse sistema vai ser um benefício muito grande para a população de Salvador e o metrô faz todo o sentido de estar integrado com o BRT. Por quê? Porque as pessoas pensam, e aí tem um pouco de pimenta que se coloca nessa discussão, porque os dois seguiriam o mesmo trajeto, mas os trajetos são completamente diferentes. Só têm em comum o ponto de saída e o ponto de chegada. Só que um vem pelo Bonocô, pelo Acesso Norte, e o outro pela Vasco da Gama e Juracy Magalhães. Ora, toda aquela população da Chapada do Rio Vermelho, do Nordeste de Amaralina, de Santa Cruz vai poder usar o metrô. Portanto, o BRT é fundamental para o metrô e vice-versa. Quem sai de Pirajá, quem sai do aeroporto, e quer chegar a essa região, vai poder ir de metrô e BRT. Um transporte de alta qualidade, de alta capacidade. Não tem concorrência nenhuma. Muito pelo contrário. Tem todo sentido fazer isso. Espero que seja feito, de fato, né? Saia do projeto e vire realidade rapidamente.

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