Publicado em 06/02/2017 às 15h35.

‘A vida boa tem um preço’, diz Máximo Ravenna

Criador da dieta multidisciplinar que faz sucesso entre políticos e artistas brasileiros fala sobre os fundamentos do método e a importância da mente

Rebeca Bastos
 Foto: Divulgação
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As restrições da dieta Ravenna, que impõe aos seus adeptos a abstenção de massas, açúcares e bebidas alcoólicas, não impediu que o método, criado pelo médico argentino Máximo Ravenna, se convertesse em um sucesso. Famoso entre políticos e artistas, o regime criado há três décadas foi pioneiro em propor tratamento de grupos terapêuticos, até então aplicado apenas para viciados em álcool e narcóticos, para pessoas em tratamento contra a obesidade. O acompanhamento é multidisciplinar, com profissionais de nutrição, psicologia, medicina, entre outros.

Depois do emagrecimento da ex-presidente Dilma Rousseff, que perdeu 17 quilos, e aderiu ao modelo “quando viu que meia Brasília já tinha emagrecido com ele”, a dieta passou a ser conhecida do grande público. Na extensa lista dos políticos que perderam peso com o Ravenna estão os ex-ministros José Eduardo Cardoso e Kátia Abreu. Entre os baianos que apostaram no método estão a comunista Alice Portugal, que deu adeus a 13 quilos ao eliminar os carboidratos refinados da dieta, e o peemedebista Lúcio Vieira Lima, que apesar de ser dono de um famoso restaurante em Salvador conseguiu perder seis quilos apenas com a substituição de vinhos por bebidas diets. Entre outros famosos estão o cantor Durval Lelys, a quituteira Dadá, a apresentadora Adriane Galisteu e o jogador argentino Diego Maradona.

De passagem para participar de palestras para grupos terapêuticos na cidade, o visionário Dr. Ravenna foi um dos primeiros a propor uma dieta baseada em proteínas, hipocalórica e hoje se orgulha de ter clínicas em cinco países e ser referência no assunto. Sobre a queixa de que o seu tratamento é inacessível por causa do custo elevado, ele não cogita ao dizer que “a vida boa tem um preço”, que manter as saúde deve ser a prioridade de todos e que a educação alimentar deveria ser pauta dos governos, por ser uma questão de saúde pública. Aos que não têm condições de fazer o tratamento em uma das clínicas, Dr. Ravenna diz os tipos de alimentos que devem ser evitados e os que não podem faltar.

Confira a entrevista na íntegra:

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Foto: Divulgação

 

bahia.ba –  Como foi a origem do método e por que o senhor acha que é considerado revolucionário até hoje?

Dr. Máximo Ravenna – O método foi criado há 30 anos e foi desenvolvido como parte de outra clínica que eu trabalhava. Mas a forma de trabalho foi se aperfeiçoando dia-a-dia com grupos que participavam de módulos de 15 dias seguidos que permitiam que a pessoa não se distraísse. Então, eu trabalhei seis anos com bons resultados e aprimorando os conhecimentos sobre o vício alimentar e dietas hipocalóricas para favorecer a saciedade e para a o paciente não ter fome. Em 1993 eu me tornei independente e montei a minha pequena clínica, com apenas 100 metros quadrados, mas que depois cresceu e hoje tenho duas unidades em Buenos Aires e mais 13 clínicas espalhadas em países diferentes. Todas as unidades, exceto as de Buenos Aires, foram criadas por iniciativa de ex-pacientes. É o caso da unidade de Salvador, que foi a primeira do Brasil e foi criada por Moema Soares [sócio-diretora], que emagreceu 47 quilos e tomou a iniciativa de trazer a primeira unidade em um país que não falava espanhol. A primeira clínica fora da Argentina foi no Uruguai. Antes de uma nova unidade abrir nós vamos à cidade para realizar um treinamento com toda a equipe de médicos, psicólogos, nutricionistas e terapeutas. O método é considerado revolucionário e sofreu muitas objeções, principalmente no começo, por romper com a nutrição tradicional, e porque eu fui um dos primeiros a negar a pirâmide alimentar e a falar em vício alimentar, quando ninguém dizia que isso era possível. Hoje, todo mundo fala em vício em açúcar e farinha branca. Eu também dizia que a dieta hipocalórica, rica em proteínas e sem carboidratos simples, não fazia mal, coisa que hoje tomo mundo já sabe, além de outros métodos que não eram usuais, como o jejum. O Ravenna fala em uma nutrição cetogênica, onde os elementos mais importantes não são os cereais, mas sim as frutas, legumes, carnes magras e não se tem terror às gorduras naturais, mas sim às processadas. Pois atualmente já se sabe que acúmulo de carboidrato se transforma em gordura de reserva no corpo. Logo, se como muito carboidrato, tenho muita insulina e consequentemente posso desenvolver diabetes e síndromes metabólicas.

“Algumas pessoas tentam resolver seus problemas na comida, ou pela falta ou pelo excesso.”

.ba –  E como é trabalhada a questão da motivação pessoal? Os grupos terapêuticos são importantes nesse sentido?

MR – O caminho é a motivação permanente na pessoa, mas as conversas não são voltadas apenas para temas emocionais, mas com temas funcionais também, que interferem na quantidade de hormônios. Trabalhamos com o desenvolvimento de um coaching interno, que trabalha a motivação da pessoa, e temos a presença de um coaching externo, que é muito importante no processo como uma figura para ajudar nesse entendimento. E os grupos terapêuticos fazem um trabalho de acompanhamento psicológico, para que o paciente emagreça com mais força e possa separar os seus problemas pessoais do ato de comer. Porque algumas pessoas tentam resolver seus problemas na comida, ou pela falta ou pelo excesso. A criação desses grupos teve inspiração em grupos anônimos contra a obesidade, alcoólicos e narcóticos anônimos. Todo o trabalho em grupo é essencial para as patologias sociais ou crônica, mas a diferença é que muitos grupos não escutam quais foram os problemas que motivaram o tratamento. O que fazemos nos nossos grupos é tentar tirar o paciente da repetição, para que ele faça o corte da relação que tem com a comida, embora o que menos falamos nos grupos é de comida mesmo. A comida já não é mais tema central, até porque nós preparamos as refeições dos pacientes em tratamento para que ele faça as quatro refeições diárias, entre 600 e 800 calorias, e não precise manipular mais o alimento.

“Os entendimentos sobre a estratégia de sedução da indústria, com alimentos coloridos, prontos para consumo, com muito açúcar e muito sal, muito saborosos e feitos para viciar, são essenciais para o sucesso do tratamento.”

.ba –  O que o paciente pode esperar da dieta Ravenna?

MR – Ainda sobre a alimentação, os pacientes são conscientizados, desde os fundamentos do método, a uma conscientização alimentar. Eles aprendem sobre o porquê de a proteína estar no centro da dieta, sobre os perigos dos alimentos processados, com aditivos e pobres nutricionalmente, que não dão trabalho para o corpo digerir, são ricas em molhos e gorduras artificiais que são muito piores do que as naturais, além de conterem muitas substâncias tóxicas, inflamatórias. Nós conscientizamos o paciente não apenas sobre a quantidade que ele come, mas sobre a qualidade também, para ele identificar a saciedade e respeitar o corpo. Em resumo, o paciente é orientado a comer de forma mais natural possível, apesar do ambiente ‘engordante’ que se vive. Os entendimentos sobre a estratégia de sedução da indústria, com alimentos coloridos, prontos para consumo, com muito açúcar e muito sal, muito saborosos e feitos para viciar, são essenciais para o sucesso do tratamento.

“Dilma foi uma excelente paciente, muito obediente por isso que perdeu os 17 quilos que perdeu.”

.ba – Há pouco mais de dois anos o senhor foi o responsável pela dieta da ex-presidente Dilma, que perdeu peso rapidamente e conseguiu manter. Como ela chegou até o seu consultório?

MR – O último centro de tratamento que abrimos aqui no Brasil foi o de Brasília. O primeiro foi de Salvador, há 19 anos, depois em São Paulo, e agora em Brasília, onde ‘meio-governo’ se tratou. AÍ Dilma viu que muita gente estava magra e procurou o centro para se tratar também. E ela foi uma excelente paciente, muito obediente, por isso que perdeu os 17 quilos que perdeu e deve continuar sendo, porque continua mantendo o peso, apesar de não ter mais um acompanhamento direto nosso.

.ba – Quanto tempo um paciente fica em tratamento?

MR – Depende muito, mas a alta geralmente só vem quando o paciente compreende o cuidado que ele deve ter com a sua alimentação e que ele está pronto para comer menos sozinho. Os gordos de hoje têm muita fome, mas são malnutridos, apesar de comerem muito. Mas, em média, com o método Ravenna, uma mulher emagrece 7%, 8 % do seu peso por mês, e um homem entre 9% e 12%. Uma  mulher com 70 quilos pode emagrecer entre seis e sete quilos por mês. E isso vai diminuindo mensalmente, primeiro sete, depois cinco. Tem gente que perdeu 100kg em um ano. Às vezes o que pode demorar mais é a autonomia do paciente se sentir confiante para seguir sozinho, sem grupo de apoio. Aí a alta tem que ser gradual. O grande perigo é a autonomia falsa, principalmente para os que têm a obesidade genética, que ao se permitirem, por exemplo, comer um brigadeiro, podem perder o controle da dieta e terem que começar tudo de novo.

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.ba – O senhor acha que a endemia de obesidade é por que as pessoas não têm educação alimentar e por isso engordam?

MR – Eu acho que as pessoas comem o que a sociedade oferece. Pouco a pouco a alimentação de cada área do mundo, a mediterrânea, a oriental, a argentina, a brasileira, está globalizando e você vai poder comer feijoada na Indonésia e sushi em Salvador, por exemplo. Entretanto, a globalização alimentar não apenas abre as fronteiras alimentares, mas também possibilitou episódios de engorda massiva, como o da Alemanha comunista, que foi apresentada a Coca-Cola e McDonald’s e incentivou o consumismo de comida e de medicamentos para curar os males das más comidas, por exemplo. Todo esse movimento acabou prejudicando mais as pessoas que geneticamente têm mais facilidade para engordar. Nos anos 1970 e 1980 quando se perguntava quem era gordo de toda a vida cerca de 90% respondiam assertivamente. Hoje, de um grupo de gordos, apenas entre 30 e 40% respondem que sempre foram gordos. Ou seja, os que estão trabalhando conosco hoje são os novos gordos, que engordam principalmente por causa do estilo de vida engordante que nós temos. E para emagrecer todos têm de vencer o próprio padrão corporal, que vai sempre exigir que o padrão de gordura no corpo esteja próximo do mais alto que já foi atingido, então a pessoa trabalha para engordar e atingir sempre essa marca que ficou na memória do corpo.

.ba – Os pacientes passam por algum tipo de estudo comparativo do antes e depois do método, para saberem o que foi melhorado?

MR – Sim, mas a intenção não é apenas comparativa. É para que o paciente perceba o que o esforço dele resultou. Ficou nove meses sem comer doce, em tomar vinho, sem comer massa, mas ia operar o joelho, não vai operar mais, tomava insulina, não precisa mais, tirou remédio do colesterol… isso alimenta o sujeito, porque quem emagrece tem que ficar forte como sujeito também. Ele tem que entender porque vale a pena não comer. Então, o próprio paciente vê que vale a pena seguir nesse ambiente protegido e se resguardar de não comer o que não está dentro da dieta. Quanto mais certeza ele tem de se manter saudável, mais certeza ele tem que vai continuar saudável e de manter as conquistas do que conseguiu. A comida não é algo mal, é porque o gordo genético não tem essa possibilidade de comer pouco. Esse é o triste destino do gordo, quando ele sai da linha é difícil de voltar.

“O custo da gordura é alto porque é uma enfermidade social, porque são medicamentos que entram nessa conta.”

.ba – Uma das queixas de quem aderiu ou quer aderir ao método Ravenna é o preço. O senhor convence, então, as pessoas a aderirem e ficarem?

MR – A vida boa tem um preço. Mas a gordura também tem um preço muito alto para o indivíduo. E engordar também é muito caro: restaurantes e bebidas não são baratos. E sem falar das pessoas que ficam em um ciclo vicioso masoquista de emagrecer a alto custo em clínicas e depois engordar tudo novamente. O custo da alimentação é alto, contudo, cumprindo o tratamento com garra e energia no Ravenna, em quatro meses você consegue emagrecer e ganhar saúde em quatro meses. O custo da gordura é alto porque é uma enfermidade social, porque são medicamentos que entram nessa conta. Uma vez que você está saudável, não gasta mais nada com essas coisas e vai ter uma saúde em dia. Então, tem que botar na ponta do lápis e ver o que é mais válido.

.ba – O que o senhor indica para uma pessoa que quer e precisa emagrecer?

MR – Que venha para cá (risos)! Ou que vá para Buenos Aires, ou para qualquer uma das nossas unidades!

.ba – E para os que não têm dinheiro para aderir ao tratamento?

MR – Que busquem sair do aprisionamento. Que estejam atentas três vezes mais, comam duas vezes menos e movam-se pelo menos uma vez mais. Com essas três coisas, se inicia o processo. Também é importante ter acompanhamento médico. Mas antes de mais nada é importante parar de pensar que o método é caro, porque o Ravenna devolve a saúde. E talvez você não esteja considerando caro não sair da frente da televisão, gastar uma fortuna com vinho… É mais inteligente e econômico gastar uma vez com um método que já dá resultado há três décadas em cinco países do que tentar coisas de moda. Hoje, você ainda tem que fazer isso individualmente, pois nenhum governo adota isso como política pública, pois os governos gastam muito com a saúde pública por causa do obesidade. É a mesma coisa que o dinheiro que é ganho com o tabagismo. Se gasta três vezes mais para cuidar dos problemas de saúde gerados pelo cigarro. Além do mais, é um método natural e saudável e bem melhor do que se submeter a uma cirurgia bariátrica, que envolve riscos inerentes ao procedimento e impõe um emagrecimento radical e não natural.

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