Publicado em 29/10/2016 às 11h00.

Armandinho compara mercado musical a política: ‘Outro lado da corrupção’

Músico critica ‘manipulação’ dos empresários baianos e ‘invasão’ de artistas de fora no carnaval: ‘Deveriam vir como convidados, como sempre foram’

Evilasio Junior / Clara Rellstab / Jaciara Santos
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

Filho do inventor do trio elétrico, Osmar Macêdo, e herdeiro da guitarra baiana de Dodô, Armandinho comparou, em entrevista ao bahia.ba, o mercado musical de Salvador às campanhas políticas. No entendimento do músico, a “manipulação” dos empresários na cena cultural local tem prejudicado tanto a classe artística, quanto os desvios de recursos públicos lesam o país.

“É outro lado que tem corrupção. Existe um período de verão, por exemplo, que você não consegue espaço na mídia porque o espaço está todo comprado. […] Virou uma coisa como uma campanha política: quem mais tem investimento é quem ganha. Por isso que eu digo: tem que acabar com a corrupção em todo canto”, avaliou.

Segundo ele, a prática é antiga nos meios de comunicação para privilegiar artistas cujos produtores pagam o chamado “jabá”. “Em 1988, eu estava fazendo um programa na TV Itapoan e pediram para eu fazer dublagem de alguma música. Aí eu pedi: pega qualquer disco do Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar lá na rádio que eu escolho uma. Depois de um tempo, eles voltaram dizendo: ‘não tem, não tem disco de vocês’. Depois me falaram que a política deles era de tirar tudo da gente [do acervo], tudo de Moraes Moreira, tudo que tinha a guitarra baiana, para não usar nem de vinheta. Tiraram tudo, cara. Porra, isso não se faz”, condenou.

De acordo com Armandinho, a “invasão” de artistas de outros estilos, como sertanejo, forró e funk, é a grande responsável pela falta de espaço na folia soteropolitana para nomes como Luiz Caldas e Gerônimo e até mesmo pelo fim de bandas como Chiclete com Banana e Asa de Águia. “Eu fico muito preocupado com o que vai ser do próximo carnaval, até porque, com todas essas mudanças, manipulações empresariais, essa coisa de trazer artistas que não têm nada a ver para tocar no Carnaval de Salvador, aí detona tudo. […] Eu não gosto de ficar falando nome porque o artista está aí para ser contratado. Contratou, pagou, está lá. E quando fala em trio elétrico todos querem. Deveriam vir como convidados, como sempre foram. Tocavam uma coisa ou outra e só. Com isso, acaba Chiclete, acaba Asa, acaba tudo”, lamentou.

Para ele, até mesmo a iniciativa de “arriar as cordas”, adotada nos últimos anos por estrelas da axé music, não resolve o problema. “Quem está podendo botar os independentes são os consagrados, é o Saulo. Mas independentes históricos não conseguiram se manter. Não tem nem vaga no horário nobre, quando todo o povo e toda a mídia está ligada no carnaval”, alertou, ao pontuar que “até hoje, nós não temos lugar oficial”.

Sobre a política, propriamente dita, o compositor classifica Luiz Inácio Lula da Silva como “um dos melhores presidentes que o Brasil já teve” – “Como ele deu acesso a esses ‘coronéis’, ‘neguinho’ meteu a mão. Aí pronto, o cara está sendo crucificado agora” –, considera que Dilma Rousseff foi vítima de “golpe” – “Foi jogar duro e ‘neguinho’ limou ela” – e demonstra desconfiança em relação ao futuro mandato de vereador de Igor Kannário (PHS): “Não sei que preparo ele tem. Não estou a par de nenhum projeto dele dentro da política”. Confira a entrevista na íntegra!

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

bahia.ba – Em alguns momentos, a música e a política entram em consonância. Houve isso agora na última eleição, com a candidatura de Igor Kannário. Como você avalia o fato de a música baiana ter um representante eleito para a Câmara de Vereadores de Salvador?

Armando Macêdo – Rapaz, eu enquadro [o fato] dentro do que a política brasileira cultiva. É a falta de estrutura, a falta de educação, de ensino, de informação – herança de nossa ditadura também, né? Eu vejo que é um problema histórico do Brasil, que entra político e sai político e não se resolve estruturalmente essa situação. Acho que está tudo ligado à educação mesmo, instrução, o preparo que se dá ao povo, para o povo saber se posicionar, escolher seus políticos, seus governantes. Aí acaba que os artistas, por serem conhecidos, são os mais votados, como se fossem os ‘resolvedores’ da situação e muitas vezes não são tão preparados, né? A gente já teve Gilberto Gil como vereador… não é porque o Igor Kannário é um representante mais popular, é pela falta de preparo político para chegar na política, resolver ou pelo menos contribuir com isso de uma forma eficiente. Então, é isso que a gente está passando e acho que vamos passar por um bom tempo, enquanto não for dado um amparo cultural à população. A gente tem isso em todas as áreas e prejudica tudo, prejudica nossa música inclusive (risos). A nossa música fica restrita a pequenos grupos, não tem uma mídia mais especializada e mais abrangente. A música fácil, a música mais popular, acaba ocupando integralmente os meios de comunicação.

.ba – A gente está em um momento no qual alguns representantes são eleitos por nichos: Marcelle Moraes, a vereadora dos bichos, Hélio Ferreira, o vereador dos rodoviários. Você, enquanto músico, se sente representado por Kannário?

AM – Olhe, é o que eu falei. Não sei que preparo ele tem. Não estou a par de nenhum projeto dele dentro da política. E a gente quer dentro da política quem sabe lidar, quem sabe o caminho para resolver determinados problemas. Não adianta ser um artista famoso, chegar lá dentro e não saber como manipular a máquina que ele vai ter nas mãos. Porque política é um negócio complicado, se você não se engaja naquilo ali. E vê que tem pessoas que poderiam ser, mas não entram também. Sei lá…

.ba – E se você pudesse nomear alguém?

AM – Hoje em dia a gente não tem um representante firme. Um cara que pudesse ser um representante autêntico nem da música, nem do futebol (risos). Teve uma ocasião que o Cristovam Buarque (senador pelo PPS-DF), uma pessoa que fala umas coisas muito interessantes, foi candidato à Presidência e teve 1% de votos… A Marina [Silva, da Rede] tem uns posicionamentos interessantes também, mas não é aquela coisa que bate firme. Aí você vê, essas pessoas que têm boas intenções e não têm acesso… Realmente é quem tem dinheiro, né? Dinheiro para pagar o marqueteiro. A coisa continua ainda nessa esfera.

“Não sei que preparo ele [Kannário] tem. Não estou a par de nenhum projeto dele dentro da política.”

 

.ba – Para você, o impeachment da presidente Dilma foi golpe?

AM – Ah, é golpe! Eu vejo uma situação totalmente dirigida a tirar um governo, o PT. Se a gente for pegar os corruptos, vai sair corrupto de todos os cantos. Eu acho que o Lula foi um dos melhores presidentes que o Brasil já teve. Agora, ele teve que se cercar dos coronéis para governar. A Dilma foi jogar duro e ‘neguinho’ limou ela. Ela não pode nem governar. Lula não. Lula é um cara inteligente: ‘se eu não der um para os caras, não vou conseguir fazer’. Eu vejo assim, de fora. Lula foi um dos maiores representantes, principalmente internacionalmente, para o Brasil. Como ele deu acesso a esses ‘coronéis’, ‘neguinho’ meteu a mão. Aí pronto, o cara está sendo crucificado agora. Como corrige isso? O povo brasileiro já tem esse hábito da corrupção, de comprar, ‘jeitinho brasileiro’. Eu acho que tirar o Lula e a Dilma desse jeito…. Não puderam nem condenar ela! Pera aí, a mulher é direita, não tiveram nem como tirar os direitos dela.

.ba – Mas você não ficou frustrado quando o PT se mostrou tão igual aos demais partidos?

AM – Fiquei, mas quando eu vejo do outro lado o Aécio [Neves, PSDB-MG], eu digo: pera aí, velho. Fica difícil. Como é que sai dessa situação?

.ba – E você votou em quem para prefeito nessas eleições, Armando?

AM – (risos) Ah, o voto é secreto!

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Você, que vem de uma família de músicos, que teve formação musical, se sente incomodado que, hoje, para uma canção fazer sucesso é necessário ter um refrão ‘chiclete’ e conotação sexual?

AM – É outro lado que tem corrupção. Existe um período de verão, por exemplo, que você não consegue espaço na mídia porque o espaço está todo comprado. Às vezes eu vou para uma rádio, vejo o cara criticando corrupção enquanto aguardo e, de repente, não toca a minha música porque o espaço já está comprado. Tudo isso incomoda, você vê que não existe um espaço para todo mundo. Ninguém busca mais uma letra como ‘Chame Gente’, que conta uma história, fala de um sentimento. A única coisa aqui em Salvador que tem sido interessante, dentro dessas coisas que a gente critica musicalmente, é a coisa da percussão. O groove percussivo de Brown, dos pagodeiros…. Eu digo: caramba! Os caras são muito bons e isso eu quero integrar. A gente quer interagir que nem fez com o samba-reggae quando ele chegou e eu comecei a incorporar uns clássicos, Bolero de Ravel, Brasileirinho. E eu estou vendo isso nesse pagode, que é diferente do pagode do Rio, é uma coisa da Bahia. Eu vejo que tem uma história percussiva muito forte que a gente tem que considerar. Eu nunca tinha visto, por exemplo, o show do Harmonia do Samba, até que minha enteada me fez ir a um show deles no Festival de Verão. Eu fiquei impressionado como era bem feito, os arranjos, tudo ensaiado, com coreografia. Nesse lado aí da percussão, a Bahia…. Porra! A Bahia tem muita coisa para dar.

.ba – O Baiana System surgiu unindo isso da percussão e da guitarra baiana e todo mundo ficou: ‘nossa, que original!’ Tem tanta novidade assim?

AM – Eu acho bacana eles levarem o nome da guitarra baiana. O Robertinho Barreto levar a guitarra baiana, eu cobro dele: a guitarra baiana devia aparecer mais ali. Eu acho que mais bandas deveriam usar a guitarra baiana. Eles têm feito uma mistura de pagode, funk, mas prevalecem as coisas cantadas.

.ba – Nos shows eles apresentam várias faixas instrumentais, assim como nos dois álbuns de estúdio…

AM – Eu vi um show deles na Tereza Batista e eles não fizeram nenhuma intervenção instrumental, nem para me homenagear (risos). Eu não escutei…. Eu acho bacana levar a guitarra baiana, tem uns solinhos, umas introduções, umas coisas que o Robertinho faz, que eu acho que deveria ser mais presente, interagir mais. Mas, tudo bem, é a linguagem deles, estão fazendo sucesso, com um público grande, em trio elétrico. Acho bacana, acho legal.

“É outro lado que tem corrupção. Existe um período de verão, por exemplo, que você não consegue espaço na mídia porque o espaço está todo comprado.”

 

.ba – Você falava sobre a questão da percussão, falou de Márcio Victor. Armandinho Dodô e Osmar, a banda, sempre fez parcerias notáveis com nomes como Elba Ramalho, Caetano Veloso, Moraes Moreira, incorporou coisas como o Afoxé Merengue. Vocês topariam fazer uma parceria com Igor Kannário ou Robysão?

AM – Rapaz, poderia. Não sei até que ponto eles se articulariam com a gente, dentro do que a gente faz. Há um tempo aquele menino Guig Guetto [Falcão] me chamou para uma participação e eu achei bacana. E o interessante é que o clique, o cronômetro desse pagode, pode entrar nessa região do nosso, fica no mesmo compasso, aquela coisa binária. O samba não é binário, mas esse pagode baiano acho que dá para moldar… Acho que o trio elétrico contribuiu para isso. Esse pessoal, desde o É O Tchan tocando em trio, foi puxando. Esse menino, Márcio Victor, eu já vi falando nisso: ‘olhe, eu estou aqui no pagode e de repente estou aqui no frevo’. E o cronômetro igual, sabe? Por isso que eu digo, essa coisa vem da Bahia, vem do trio elétrico. É uma levada, é uma puxada, você tem de fazer ali porque você tem que conduzir aquele povão. Não é como o samba carioca, que tem que parar para ter uma evolução. Não! Você vai andando, tem que manter um passo dentro daquele ritmo. Eu acho que só pode ser por aí onde se interligam esses ritmos. O trio elétrico mudou todo o comportamento. O carnaval era outra história de desfile de carros alegóricos, de batucadas. Prevalecia o frevo pernambucano ou o samba carioca. A gente não tinha aqui algo que levasse para o Brasil todo. Através do trio elétrico, a gente passa a ter uma identidade musical em cima do carnaval.

.ba – Todo ano tem aquela briga de patrocínios, de apoio do governo, da dificuldade de conseguir dinheiro e espaço. Quando começou isso?

AM – Os anos negros do Dodô e Osmar em relação ao carnaval foram na década de 1990, quando se deu o carnaval para os empresários de blocos. Foi feita uma fila que deu uma rasteira em todos os trios independentes, que levavam os Novos Baianos, Luiz Caldas… Eles fizeram uma fila que diziam que era só para o circuito do Campo Grande e de repente estava em toda cidade. A partir de 1994, 1995, a gente botava trio na rua e a polícia vinha e falava: ‘você não está aqui’. Como assim? A gente está aqui desde 1950! Ficou uma situação que a gente não tinha lugar no centro da cidade. Nós passávamos uma noite inteira tentando entrar no Campo Grande e eles não deixavam. A rua virou dos blocos. Os vereadores aprovaram e o prefeito, na época Imbassahy, foi lá e sancionou. Como é que ele não viu que a fila que ele autorizou a ser a oficial só tinha bloco, não tinha um independente? Na Barra, a gente conseguiu, depois dessa dificuldade, mais espaço. Mas, até hoje, nós não temos lugar oficial.

.ba – Você acha que estabelecer o Furdunço antes de o carnaval começar oficialmente, para os blocos independentes, sem cordas, é uma maneira de remediar esta decisão?

AM – Eu gosto do Furdunço. Essa ideia de fazer trios pequenos, porque a gente fica mais perto do povo. Nesses trios enormes a gente está de um lado e não sabe o que está do outro, no fundo ou na frente. Nesse pequeno não, a gente tem uma visão panorâmica do povo, tem um contato. Eu adoro dar canja no microtrio de Ivan Huol. Você fica praticamente no asfalto. Eu acho bacana isso, é um contato bacana. Acho legal o resgate dos trios pequenos, dos antigos carnavais.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Como vê o movimento de resgatar os blocos sem corda?

AM – Bloco de corda, desde o começo, nunca foi bem visto. Eu vi, durante um período, que os associados pagavam e sustentavam a estrutura. Hoje em dia, eu acho que o bloco não se sustenta se o cara não tiver um patrocínio forte e pesado. De algum modo, o patrocinador está ‘dando’ o trio para o povão. Tudo está contribuindo, de uma forma, para que os artistas abram – tendo um patrocínio que mantenha aquela estrutura –, já que os associados não estão chegando… A verdade é que tudo está ficando caro demais. A gente aluga o caminhão e é caro pra burro. Se você não tiver um bom patrocínio você não bota o trio na rua. Nesse período que eu chamei dos anos negros do trio Dodô e Osmar, os independentes e sem cordas se acabaram… agora, quem está podendo botar os independentes são os consagrados, é o Saulo. Mas independentes históricos não conseguiram se manter. Não tem nem vaga no horário nobre, quando todo o povo e toda a mídia está ligada no carnaval. Com mudanças de governo, de 2002 para cá, houve um reconhecimento histórico melhor para a gente. Todo carnaval a gente tenta mostrar que nós somos uma continuação de um trabalho importante, o que encaminhou a gente para determinados patrocinadores, que nos deram a estrutura para emparelhar com os grandes trios elétricos do carnaval. Eu fico muito preocupado com o que vai ser do próximo carnaval, até porque, com todas essas mudanças, manipulações empresariais, essa coisa de trazer artistas que não têm nada a ver para tocar no Carnaval de Salvador, aí detona tudo…

.ba – Você é contra o movimento de trazer sertanejo, forró e funk para os trios?

AM – Eu vejo o seguinte: nós temos artistas de trio elétrico de carnaval baiano, que sempre fizeram a história da nossa música. Pernambuco, por exemplo, fechou o carnaval deles: ‘olha, aqui é do frevo dos metais, não do frevo da guitarra baiana, do frevo de maracatu’. O carnaval deles, eles fecharam: ‘é a nossa história e acabou’. Aqui não, entregaram para os empresários. A grande parte da fila de blocos não é de blocos daqui – os blocos tradicionais. A rua é dos empresários. Quem é que vende? Gusttavo Lima, Anitta, artistas que conseguem um grande patrocínio. Fica um negócio empresarial que não manifesta uma coisa baiana.

.ba – Prejudica artistas como Armandinho, Dodô & Osmar?

AM – Prejudica todo mundo. Olhe, um grande artista que é carnavalesco, como Luiz Caldas, não tem espaço no carnaval. Às vezes ele sai um dia só. Ele não quer isso, quer sair dois, três dias. A gente tenta manter quatro dias porque tem que levar o nome, a história. Se a gente deixa de fazer isso em um ano, no outro a gente não consegue mais.

“Quem está podendo botar os independentes são os consagrados, é o Saulo. Mas independentes históricos não conseguiram se manter. Não tem nem vaga no horário nobre, quando todo o povo e toda a mídia está ligada no carnaval.”

 

.ba – Vocês inventaram o carnaval de rua. Vocês saem no início da madrugada, depois da meia-noite; Luiz Caldas toca um dia apenas; Sarajane fora do carnaval… Você que começou essa história com sua família, como vê o espaço nobre ocupado por Aviões do Forró, Wesley Safadão, Simone e Simaria e companhia? Isso não machuca?

AM – Machuca. Começa por uma mídia que já privilegia essa turma e não dá espaço. Engraçado como essa coisa da mídia baiana começou cedo, quando o carnaval começou a ser empresarial. Em 1988, eu estava fazendo um programa na TV Itapoan e pediram para eu fazer dublagem de alguma música. Aí eu pedi: pega qualquer disco do Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar lá na rádio que eu escolho uma. Depois de um tempo, eles voltaram dizendo: ‘não tem, não tem disco de vocês’. Depois me falaram que a política deles era de tirar tudo da gente [do acervo], tudo de Moraes Moreira, tudo que tinha a guitarra baiana, para não usar nem de vinheta. Tiraram tudo, cara. Porra, isso não se faz. E as pessoas que fizeram hoje são representantes, historiadores do carnaval, como se fossem grandes colaboradores do carnaval. A partir daí a gente perde gravadora, perde tudo, porque se não toca no seu centro, onde você começou, onde é sua história… Se a música tem que vir dali e não vem, não vai para lugar nenhum mais. Aí você vê essa capacidade que o pessoal dessa mídia tem de levantar e destruir. O Luiz Caldas sofreu isso também, de certa forma. Ele ficou esquecido e é um grande artista, criativo. O cara faz show em qualquer lugar e movimenta todo mundo. E eu fico vendo: ‘poxa, no carnaval, um cara desses, que tem uma resposta popular, não tem espaço’. É um dos caras que eu mais sinto isso. Tem outros que você vai esquecendo porque não vão atuando, não fazem coisa nova. Mas o Luiz é um cara tão presente… Um cara que veio para ficar. É como um Riachão da Bahia, uma entidade baiana…. Gerônimo é outro que está aí na ativa e não tem espaço. O cara é um representante da Bahia e, porra, está fora. Eu não gosto de ficar falando nome porque o artista está aí para ser contratado. Contratou, pagou, está lá. E quando fala em trio elétrico todos querem. Deveriam vir como convidados, como sempre foram. Tocavam uma coisa ou outra e só. Com isso, acaba Chiclete, acaba Asa, acaba tudo.

.ba – Com essa tendência de carreira solo, será que se Dodô e Osmar estivessem vivos, e na ativa, se separariam e cada um seguiria seu caminho?

AM – (Risos). Engraçado, né? A gente já podia ter se separado há muito tempo. Mas a gente tem uma coisa de família, uma história tão forte na gente que não tem como separar. A gente é aquilo ali. Eu tenho trabalho solo, André faz o forró dele, Aroldo montou a escolinha de guitarra baiana…. Eu tenho [a banda] A Cor do Som, que a gente está tocando pra caramba.

.ba – Voltou, né?

AM – A gente já voltou há muito tempo, mas agora que deu uma engrenada. Estamos preparando músicas novas, coisas novas, porque no próximo ano serão 40 anos d’A Cor do Som. Enfim, trabalho solo, A Cor do Som…. Mas o trio elétrico, cara, é o começo de tudo. A gente brinca de trio elétrico desde menino, desde antes de eu aprender a tocar. Eu queria ser sempre meu pai (risos), o cavaquinho da história. Uma coisa que está no coração, a gente não tem como desvincular. Esses quatro irmãos que vivem essa história desde pequenos dentro de casa. Meu pai, inclusive, queria que fosse o trio de Armandinho só. ‘Tem que ser o seu nome. Eu e Dodô estamos velhos, a gente não toca mais’, dizia ele. Mas eu não queria. Dodô e Osmar não tem como tirar. Nunca abri mão disso, a gente conta uma história importante.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – A música hoje em dia, mesmo as mais tradicionais, é pautada em fusões. Fusão com rap, hip-hop, com alguma influência de funk. As músicas da moda acabam sendo referenciadas até por artistas que não são deste segmento. Há muito tempo você trabalha com o choro, que inclusive é carro-chefe do seu novo concerto. Como é, no momento dessas modas todas, fazer um espetáculo que é justamente uma referência ao primeiro estilo musical brasileiro?

AM – É a minha vivência musical. O chorinho começa do autêntico, do mais original, mas eu toco até Beatles de choro. ‘Something’ vira um chorinho balada. Eu tenho uma sequência de ‘pop choro’, que eu busco adaptar até como se o bandolim fosse uma guitarra. Isso acompanhado de uma base com violão de sete cordas, cavaquinho e pandeiro. É interessante porque é como se você desse uma nova roupagem, uma modernidade à própria modernidade. Embora eu goste de rebuscar o tradicional também. Por exemplo, eu dou uma ‘rebuscadinha’ em ‘Noites Cariocas’, dou uma ‘guitarrada’ no bandolim, mas acabo voltando ao tradicional. Ele está ali, ele é a base. O que muda um pouco é a percussão, que tem que ‘reggear’’, ‘frevear’… Então, a minha coisa de apoio central é buscar o tradicional.

.ba – No carnaval, mesmo que vocês não tenham tanto espaço na rua, a maioria das emissoras televisivas baianas – que transmitem a festa –, faz uma retomada histórica, merecida, a toda a obra de Dodô e Osmar, a Luiz Caldas… Mas a impressão que fica é que eles acreditam que vocês não fazem mais nada no resto do ano. Você acha que isso tem a ver com aquilo da corrupção da mídia que você havia pontuado anteriormente?

AM – Pô, imagine. Totalmente. A gente está inclusive agora mexendo no show do trio elétrico, sete shows no Rubi, onde a gente está lançando a guitarra baiana acústica. Porque todo instrumento antes de ser elétrico foi acústico. A guitarra baiana não, já nasceu elétrica. Aroldo projetou a ‘guibana’ para usar na escolinha. O eletroacústico: a gente está preparando um tipo de show para teatro. Mostrar o trabalho instrumental desse disco novo que a gente fez, que está sendo importante para a escolinha. Às vezes o cara compra uma guitarra baiana e pergunta: ‘onde eu compro discos?’. De um tempo para cá até tem, mas é muito restrito à Bahia.

.ba – Então, de certa forma, há um respeito ao passado, mas uma displicência ao presente?

AM – Total. Não é nem displicência, é um direcionamento pautado por interesses comerciais. Virou uma coisa como uma campanha política: quem mais tem investimento é quem ganha. Por isso que eu digo: tem que acabar com a corrupção em todo canto.

“Virou uma coisa como uma campanha política: quem mais tem investimento é quem ganha. Por isso que eu digo: tem que acabar com a corrupção em todo canto.”

 

.ba – O que você acha dos artistas contemporâneos que são marcados pelo holofote e tão expostos, midiaticamente falando? Você se sente frustrado de não ter alcançado esse auge?

AM – Eu fico vendo. A Cor do Som fez um sucesso danado na época. Mas em uma época em que não existia essa mídia. Hoje em dia, você tem vários programas musicais. Na época, a gente só apareceu uma vez no Fantástico, na Globo, e no Programa do Chacrinha, na Band. Hoje em dia, aquele sucesso que a gente fez, colocaria a gente em outro patamar. A gente ganhava todos os prêmios da música e nossas músicas eram sucessos, alcançavam o primeiro lugar. É época, né? De cada um, das coisas acontecerem…. Através desses 30 anos passados, a gente vai aprendendo a se posicionar naquilo que a gente é, independentemente do sucesso. Eu me sinto gratificado porque, grande parte desses artistas, depois do sucesso, some. Eu tive uma base musical que me manteve.

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