Publicado em 01/10/2016 às 00h00.

Frank Menezes: ‘Se Irmã Dulce estivesse viva, estaria na Lava Jato’

Ator segue em cartaz no Teatro Módulo, até 27 de novembro, com o espetáculo "O Corrupto", que transforma "a corrupção nossa de cada dia" em piada, sem deixar de lado a crítica ao comportamento do brasileiro e do soteropolitano

Ivana Braga / Evilasio Junior
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

Com 54 anos, 33 deles dedicados ao teatro, o ator Frank Menezes segue em cartaz até o dia 27 de novembro, no Teatro Módulo, na Pituba, com o espetáculo “O Corrupto”, monólogo que provoca o público a refletir sobre a cultura do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. A peça, primeiro texto escrito por ele, com direção de Marcelo Praddo, transforma “a corrupção nossa de cada dia” em piada, sem deixar de lado a crítica ao comportamento do cidadão brasileiro, sobretudo o de Salvador, onde, para ele, “é quase cafona ser solidário”.

“Quantas vezes você parou em vaga de paraplégico? Quantos atestados médicos falsos você já pegou? Quantas vezes você matou sua avó? O seguro do carro no nome da mãe que não dirige. Carteira de estudante falsa para pagar meia. Salvador é campeã brasileira dessa fraude, sabia disso? A média é 75%”, apontou, durante bate-papo descontraído, na redação do bahia.ba.

Na entrevista, o artista comentou o atual cenário político nacional e constatou que o grande problema do país é a falta de investimento em educação. “Eu fico indignado porque valores no Brasil não são caráter, educação, e sim Corola, Honda Civic. […] O AI-5 [Ato Institucional nº 5] retirou da grade do ensino médio as disciplinas de Filosofia, Psicologia e Sociologia – que hoje o presidente [Michel Temer] quer reintegrar ao ensino médio. Quando você tira isso, você cria gado, você emburrece as pessoas, porque lhes tira o discernimento crítico para questionar. Então, é aquela história do pão e circo. Está ruim? Bota Igor Kannário e vamos adiante”, alfinetou. “Quando se constrói uma nação sem educação, o governo, seja ele presidencialista, parlamentarista ou monarquia, vai fazer misérias com esse povo. Ele não vai entender. Está tudo bem se tem carnaval. Sorria, você está na Bahia”, ironizou.

Ao falar dos escândalos recentes desvendados pela força-tarefa da Operação Lava Jato, o Frank brincou sobre a paranoia em relação às doações feitas por empresas investigadas – “Hoje em dia, se Irmã Dulce estivesse viva, estaria na Lava Jato (risos)” – e disse que o juiz federal Sérgio Moro está “muito longe de ser herói”. “Não precisava esse espetáculo, não precisa divulgar nada. Ele poderia continuar fazendo o trabalho dele quieto, calado, para que a opinião pública não se manifestasse agora, porque ela está indo no embalo das fases. A gente está desenvolvendo nossa opinião com base em cada fase”, opinou.

Sobre as duas inclinações político-partidárias, o ator revelou decepção com o ex-presidente Lula – PSDB, PT, DEM, PMDB, é tudo igual –, admiração ao trabalho de um senador do PPS-DF e “confiança” com os princípios do PSOL: “É o único que ainda não tem o rabo preso”. Para ele, “se gritar, pega ladrão, ficam Cristóvam Buarque e mais uns três assim do lado dele”.

Confira a entrevista na íntegra!

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

bahia.ba – O Brasil é um país de DNA corrupto?

Frank Menezes – Nós somos um país em formação e o grande problema, é uma pesquisa minha, é que a gente não tem consciência. O tempo é determinante em absolutamente tudo. Eu costumo dizer que o tempo é um orixá, porque ele determina, principalmente, o crescimento de uma nação. Vou comparar com o Japão. O Japão tem oito mil anos comprovados. O Oriente tem comprovadamente oito a nove mil anos. Eu já vi uma exposição chinesa, em Amsterdã, na Holanda, de um imperador de 4,7 mil anos atrás. Então, a gente não tem acesso a essa ‘orientalidade’, digamos assim. Voltando à minha pesquisa, o Japão tem oito mil anos em uma ilha que treme todo ano e geograficamente tem a mesma área do Mato Grosso do Sul. O Japão hoje tem, vou arredondar, 170 milhões de pessoas. O Brasil tem 500 anos e, em 1970, tinha 90 milhões de habitantes. Hoje, 46 anos depois, nós vingamos 115 milhões de pessoas. Hoje, nós somos 205 milhões de habitantes. Esses 115 milhões, que é 70% da população do Japão, que tem menos de 46 anos, teve uma educação em que o AI-5 (Ato Institucional nº 5) retirou da grade do ensino médio as disciplinas de Filosofia, Psicologia e Sociologia – que hoje o presidente [Michel Temer] quer reintegrar ao ensino médio. Quando você tira isso, você cria gado, você emburrece as pessoas, porque lhes tira o discernimento crítico para questionar. Então, é aquela história do pão e circo. Está ruim? Bota Igor Kannário e vamos adiante…

.ba – E agora ele é candidato…

FM – Pois é. Ele tem uma ficha limpíssima e é estratégico, não é? Então, veja, são 115 milhões de pessoas sem formação crítica. Eu posso estar muito errado, mas acho que 70% a 80% desses 115 milhões não vão nem alcançar o que a gente está conversando aqui. Não é preconceito, é fato.

.ba – Esse povo vota, decide os rumos do país…

FM – Exato.

.ba – Você está sendo bonzinho ao não incluir o restante…

FM – Muito obrigado. Olha, quem está dizendo isso é ela! Eu faço isso no espetáculo, eu provoco para que as pessoas se manifestem e depois eu brinco: ‘olha, quem vai ser processado é você’. Eu agradeço muito a Deus por ter nascido em uma família culta, que priorizou a educação, que é o que deve ser priorizado. Não é saúde, não é fome: é educação.

.ba – Porque, com educação, você consegue conquistar as outras coisas…

FM – É isso. Com educação você vai saber o que é melhor para você. Não é só uma questão de dinheiro. Eu só estou com 54 anos. Quando eu entrei na escola, com 4 anos de idade, 50 anos atrás, não tinha isso de escola pública e escola particular. Confesso que estudava em uma boa escola, tive uma boa formação. Isso me faz ter a certeza de que, quando se constrói uma nação sem educação, o governo, seja ele presidencialista, parlamentarista ou monarquia, vai fazer misérias com esse povo. Ele não vai entender. Está tudo bem se tem carnaval. Sorria, você está na Bahia. Meu pai, que já tem 22 anos de morto, dizia assim: ninguém se pergunta, se questiona porque a Copa do Mundo acontece sempre em ano de eleição presidencial brasileira. Por que a eleição tem que ser em outubro ou novembro do ano da Copa do Mundo? Porque você está mais preocupado com o cabelo do Neymar do que em quem você vai votar. Você foi educado para isso. Você foi adestrado, regido, para isso.

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Uma coisa que você trata na sua peça é a tese de que as pessoas não têm noção do que elas têm feito, que é essa coisa da ‘corrupção nossa de cada dia’…

FM – O escopo da montagem.

.ba – A ‘corrupção nossa de cada dia’ não está atrelada apenas ao fato de a pessoa pegar a vaga do deficiente no estacionamento ou entrar no ônibus com cartão falso, mas também no próprio sistema eleitoral. As pessoas corroboram a prática de candidatos, em época de eleição, de asfaltar a rua, conseguir uma rede de esgoto, colocar poste de energia elétrica em uma determinada localidade, enfim. A própria população, no jogo eleitoral, mesmo que todo mundo fale da operação Lava Jato, que o sistema está completamente corrompido etc., fortalece esse sistema. Você concorda ou estou equivocado?

FM – Claro, é um círculo vicioso. Cada um vai dependendo do outro. O sistema corruptivo eleitoral se alimenta disso porque tem a certeza que vão ter pessoas fazendo isso e essas pessoas também ficam esperando essa hora. Ah! Vou fazer minha panfletagem porque vou pegar 50 contos, 50 reais.

.ba – Vou virar liderança do bairro, conseguir um monte de obras para o bairro e daqui a pouco vou ser vereador…

FM – Pois é. A empregada lá de casa, que eu digo que vai entrar no meu inventário porque já tem 25 anos comigo, vai ser minha herdeira, ela me contou um caso que me deixou tão indignado na época, que veio justamente do meu outro espetáculo, que era ‘O Indignado’, texto de Cláudio Simões. O Corrupto é meu primeiro texto, a primeira vez que tive coragem. Ideias para escrever eu sempre tive, mas já tinha uns três anos que eu vinha pensando em fazer o outro lado do Indignado, fazer um monólogo. Queria pegar esse filão mesmo de montar um espetáculo comigo só – desculpe é que às vezes eu saio abrindo janelas, daqui a pouco eu volto. Eu era muito cobrado para eventos, mas eu acho que o pior personagem para você subir no palco é você mesmo. Essa é a diferença entre o humorista e o comediante. Eu pensei em criar isso, sem um cenário, mas com um figurino que eu pudesse ser teatral, pudesse passar o recado. Fiquei pensando muito nisso. Aí veio o outro lado de O Indignado, aquele que nunca se indigna. Quem é esse? Comecei a parar para pensar. Aí eu comecei também a testar redes sociais. Eu me intitulo ‘analfainfo’, eu não sei nem baixar as coisas direito. Eu tenho um telefone que eu nem sei usar. Quando eu descobri que poderia fazer certas coisas eu, ‘poxa, posso fazer isso’? Eu não tenho Twitter, Instagram. Fui obrigado a fazer o Facebook porque o diretor da peça ‘Quem Matou Maria Helena’, Celso Júnior, que é um grande amigo, me disse: ‘Frank, cara, você precisa criar uma página no Face. Eu estou administrando uma sua’. Como? ‘Um fã fez uma página sua’. Eu tomei um baque com isso. Foi lá em 2010, 2011. Aí eu disse: ‘não quero não, quero não’. Aí ele foi me convencendo. Fiz em 2012. Eu estava gravando Gabriela na época. Tinha um ator, o José Rubens Chachá, um grande ator de São Paulo, que me disse: ‘quando o Face está saindo de moda é que você vai fazer?’ Eu disse: ‘vou ver como vou me adequar a isso’. Aí comecei a testar textos. Comecei a brincar. Você vai fazendo amigos, além daqueles que são seus amigos mesmo, pessoas mais íntimas, enfim. Eu não digo que é rede social, digo que é rede emocional. Eu comecei a pesquisar na internet comentários de matérias, do UOL, da Folha de S. Paulo, Le Monde, vou lá, testo meu francês (risos), observando. Comecei a pontuar que carência é essa, quem são essas pessoas, quem é essa pessoa que quer dar a sua opinião, quem somos nós? Comecei a brincar com isso e vi o quanto nós somos vulneráveis, o quanto estamos vivendo uma época em que a gente não sabe o que é que estamos fazendo. Acho que daqui a 100 anos vamos ter que estudar essa época como estudamos hoje a Revolução Francesa, a Revolução Industrial. O mundo não está entendendo o que é. Comecei a notar também que, quem comenta, por exemplo, quando você posta uma coisa, uma foto, uma bobagem, uma piada ou um texto interessante, a grande maioria das pessoas que vai comentar, que são seus amigos, 90% vão estar de acordo com você, vão lhe parabenizar, vão curtir, vão brincar. Quem compartilha, aí quem vai comentar são os amigos daquela figura e que não lhe conhecem, detona você.

.ba – É interessante. A gente que trabalha em um veículo, e compartilha muita coisa, nota que boa parte que mete o pau, quando a gente vai apurar, cruzar dados, é gente interessada. Eu faço isso, eu vou atrás para ver quem é a pessoa. Você posta uma notícia, uma denúncia, sei lá, por exemplo, Palocci é preso. Vai ter uma galera que vai descer o pau, que faz parte dos articuladores do PT e aliados. Do mesmo modo, tem uma galera que sai comemorando, mas também é articulada pelos adversários, o DEM, o PMDB, o PSDB. Quando você vai filtrar e ver o que ficou de legítimo é pouca coisa. E o que é pior…

FM – Suprapartidário restaram dois, três…

.ba – E o que é pior, a maioria das pessoas pergunta ou questiona a informação que está na matéria. Ou seja, não leu.

FM – Não leu, isso é brilhante. É isso que me incomoda profundamente. Tem um texto de duas laudas e, tenho certeza, por mais que você faça leitura dinâmica, você já curtiu, já botou coraçãozinho, já botou o diabo a quatro. Você não quer ter informação, você quer viver na superfície. Voltando à minha empregada. Ela mora em um bairro que eu não vou dizer porque eu postei. Quando ela me disse o que estava acontecendo, eu escrevi o texto e coloquei sem nenhum juízo de valor, sem tomar partido, sem julgar, de forma imparcial, apenas relatando um fato. Vou contar o que aconteceu. Aquele programa da prefeitura ‘Degrau Legal’ – tem uns dois, três anos que aconteceu –, quando ele entrou na gestão, o [ACM] Neto, lançou esse programa para recuperar as escadarias, o que era necessário. Ela mora justamente no meio da escadaria, que é assim, tem as escadas e as ‘avenidas’ de um lado e do outro. Pois bem, ela mora no meio do caminho. Aí começaram o serviço de recuperação e nada de terminar. Aí um dia ela chegou lá em casa desabafando e comentou o que acontecia. A prefeitura fazia uma triagem sobre quais seriam as mais urgentes. Pronto. Vamos recuperar essa. Aí vão naquela redondeza saber quem trabalha com construção, quem é mestre de obra, pedreiro, enfim, e está desempregado. Aí contrata as pessoas daquela região para recuperar a própria área em que eles moram. A prefeitura fornece todo o material e coloca só uma pessoa responsável para coordenar os serviços. Pois bem, esse material de trabalho não dá para levar para guardar. É areia, brita, cimento, arenoso. A galera que trabalha se oferece para guardar. A escadaria da minha ‘secretária do lar’ não saía, então ela foi falar com o responsável e ele disse: ‘minha senhora, o que a gente já gastou de material aqui dava para fazer dez escadas’.

.ba – Quer dizer, roubaram o material que iria beneficiar a própria comunidade…

FM – Pois é! O que estava acontecendo. Sem julgamentos. As próprias pessoas que estavam trabalhando se ofereciam para guardar. ‘O cimento pode deixar que eu guardo’. Aí no outro dia chegava e dizia: ‘roubaram o cimento’. Aí chora… Acabou que não só o material foi surrupiado, como também a escadaria foi feita de qualquer maneira. Tem trechos das escadas que ela disse que era preferível que ficasse do jeito que estava. Eu me formei em desenho antes do teatro. Entrei na faculdade muito novinho, com 17 anos. Fiz desenho, me especializei em desenho mecânico, mas tive desenho arquitetônico também. Tem convenções que são mundiais, porque tem um ser humano que é igual em todo o mundo, que fala a mesma língua, tanto árabe, japonês, que é o cego. A bengala do cego tem linguagem universal. Então, tem uma convenção mundial que é piso, espelho, que precisa ter 9cm por 12cm. Lá tem 25cm, 30cm. Então, lá, um pobre de um ceguinho corre o risco de cair. A escada não está possibilitando que as pessoas possam usá-la sem perigo. Quando eu falei dos 115 milhões, eu queria chegar a Salvador. Pois bem, Salvador tem 3 milhões de habitantes, sem a grande Salvador, as ilhas, Lauro de Freitas. Até São Sebastião do Passé, que é região metropolitana, o que soma quase 7 milhões de pessoas. Aí a gente se pergunta por que o Uruguai, que é um país pequeninho, tem o melhor IDH da América do Sul? Porque é um país do tamanho do Rio Grande do Sul e tem apenas 3,8 milhões de habitantes. Tem gente que não tem muita informação e quando você fala isso diz: ‘mas o Uruguai é bem pequenininho’. Aí eu digo, ‘parceiro, eu estou comparando com Salvador, uma ponta de terra que aponta para o mar limitada por água. É uma ponta’. Nós não temos direito nem educação para cobrarmos as filas de lugar nenhum. Por mais que um G. Barbosa da vida bote caixa ele não vai conseguir evitar as filas. Não tem como dar conta da demanda. Nenhum país do mundo tem tanta concentração de gente em um mesmo lugar. A gente vive uma situação única. Agora, imagine em um bairro carente, onde as pessoas parem com 16, 17 anos de idade. E isso estou falando em Salvador. Minha cunhada é administradora do Hospital de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, ela e as colegas fazem uma lista para saber quem é a campeã daquela região pobre em volta da Avenida Brasil. A campeã é uma menina de 18 anos que, no ano passado, pariu o sexto filho. Isso é educação, educação mesmo. Aí você pergunta, mas você tem certeza que as pessoas roubaram cimento, a brita? ‘Frank, o desempregado está com a casa toda reformada, rebocou a casa toda’. E sabe o que é pior? A mãe dele não tem as duas pernas. Então, quem vai carregar ela nas escadarias é ele, com a ajuda dos outros. A rampa não foi feita.

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Então você diria que nós somos um povo desonesto que quer representantes honestos ou a nossa representação é o retrato do povo?

FM – Não, não, não sei. Vou chorar. Na verdade o que eu quis dizer é: com esse excesso de gente nascida em tão pouco tempo é que a gente tem um problema único no mundo. Em lugar nenhum do mundo… Compare com os países da América do Sul em volta. O mais próximo da gente é a Colômbia e tem 47 milhões de habitantes.

.ba – Mas a gente tem uma China que tem uma população muito maior do que a nossa.

FM – Mas tem nove mil anos. É uma questão de cultura. Eles também estão parindo em uma velocidade muito grande. Não só a China, a Índia também. A China tem um bilhão. A fração da China é o Brasil. Só que eles têm nove mil anos, são sete mil a mais do que Cristo. Nós temos uma visão bíblica da vida, muito resumida. Por mais que a gente não tenha uma cultura cristã, a gente tem culpa. A culpa vem de Cristo. Quando eu falo que a China tem nove mil anos, eles têm os problemas deles, que são ancestrais. O nosso é americano. Por exemplo, cai uma árvore, melhor, desabou uma encosta alguns anos atrás: a mulher vai para o BA TV chorar. A casa, a encosta, toda derrubada em um bairro muito humilde, com muita deficiência e tudo. ‘Ai, minha casa, meu marido nem pode tirar o carro da garagem’. Aí você olha, o carro é um Idea Advanced novinho.

.ba – O que você falou sobre educação. Falta na verdade uma base para que a pessoa se informe e saiba qual a prioridade para ela. Naquele caso do Barro Branco, tinha um servidor público que morreu. Não vou dizer o órgão porque não interessa. O cara morava na encosta e tinha um Toyota Corola na porta.

FM – Ah! Eu me lembro disso. Foi no ano passado. Foi matéria nacional. Eu estava gravando I Love Paraisópolis. O cameraman foi quem me mostrou. Ele disse, ‘Frank, veja o que aconteceu na sua cidade. Olha o Corola do homem’. Eu acho que nós temos um problema único. Nós temos uma cultura ‘americanoide’. Nós nos achamos maravilhosos, mas a gente sofre de influências. Eu acho também que esse tipo de comportamento é ancestral. Vem do ‘farinha pouca meu pirão primeiro’. Existe coisa mais feia do que isso? A gente usa isso como uma brincadeira. Outro dia estava dizendo aos meninos, nem vou repetir porque é horroroso, mas a brincadeira que reúne três, quatro homens em uma mesa de bar para falar da menina, não dá para falar. E a gente fala com muita naturalidade, sem culpa, quando a gente descreve o que a gente quer fazer com a moça. Não é verdade? Tem isso porque a gente está brincando entre nós. Tem muito ranço que a gente não percebe. Eu acho que essa coisa do ‘farinha pouca meu pirão primeiro’ vai tirando a culpa de estar sendo escroto, sendo corrupto. Você está sendo esperto, como é o termo carioca. ‘E aí moleque, pilantra, malandro, pivete’. Isso tudo é uma questão cultural, caretices à parte, sem nenhum preconceito, eu tenho me policiado muito. Voltando à questão da escada, eu construí um texto legal, sem ofensas. E eu fui lá, sem falar com ela, porque ela trabalha lá em casa há mais de 20 anos, vou à casa dela e tudo. Aí ela disse para mim: ‘olha, botaram um outdoor de O Corrupto lá na BR, em frente à minha casa. Enquanto o outdoor estiver lá, você não me leve em casa (risos)’. Ela fica com medo. Olha, a filha perdeu a matrícula de um curso na Copamec porque uma funcionária que é vizinha dela disse: ‘você não precisa porque sua mãe trabalha para o ator e ele vai arranjar um emprego para você’. Isso não é corrupção, é? Tem um termo certo, que não me lembro agora. Bom, aí eu postei o texto e uma fã compartilhou. Aí eu vou lá. Toda vez que alguém compartilha eu vou lá. Um rapaz, que está morando em Lisboa, ele me acabou. Começou dizendo que era típico da elite branca – imagina, olha a minha cara (risos). E isso ele nem sabe que meu avô era inglês, aí eu estou lenhado! Se ele sabe que eu tenho um anglo-saxão lá atrás, estou lenhado (muitos risos)! Aí ele disse: ‘é típico da elite branca que não tira o rabo da cadeira e critica o Bolsa Família e blá, blá, blá’. Me deu vontade de dizer: ‘meu filho, você está fazendo o quê em Lisboa? Já que é tão assim, venha para sua comunidade e desenvolva sua defesa do seu povo no seu país. Você foi para a Europa por quê?’ Mas não, eu fiquei quieto. Bloqueei ele, fui no meu amigo que eu não conheço, mas é amigo do Face, aí disse: ‘por favor, eu vou apagar e você apaga’. Você pensa fazer uma coisa com o pensamento altruísta e você se lenha. Hoje em dia, quando você vai fazer uma montagem, a má educação pode te levar a um monte de merda. Hoje em dia, se Irmã Dulce estivesse viva, estaria na Lava Jato (risos).

.ba – É. Recebeu doação da Odebrecht…

FM – Não é? É isso. Hoje em dia é uma maluquice. O comportamento das pessoas. O trânsito, vocês viram a lista da ONU? Salvador é uma das sete cidades com o pior trânsito. Aí a gente pensa que o pior trânsito é por causa dos engarrafamentos. Não, os questionários tratavam da falta de educação, porque se fosse por causa dos engarrafamentos, São Paulo estaria na frente. A quarta pior cidade é o Rio de Janeiro. Salvador é a sétima, Recife nem aparece. Em Recife é capaz de você cair em uma ponte daquelas, porque com tanta ponte…

.ba – Quem dirige em Salvador, dirige em qualquer cidade do mundo.

FM – É verdade, dirige mesmo. Minha mãe já dizia isso, ela já morreu há algum tempo. Ela dirigia na Europa. Minha mãe era danada. Era uma mulher que fez cinco faculdades.

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Em um carnaval desses, Fabrizzio Muller me mostrou, acho que foi no ano passado, uma imagem aérea do trânsito de Salvador. Ele disse que eu ia ver porque o trânsito de Salvador engarrafa tanto. Você olha a imagem aérea, tem vários clarões e ao lado os carros amontoados. Aquilo que você falou da arquitetura das escadarias. O trânsito de Salvador é assim, não tem uma linha reta, mas vários zigue-zagues. Tem uma pessoa que tenta cortar pelo acostamento, outra que quer cortar pela esquerda, na saída de um beco você tem três que querem entrar e dois que querem sair…

FM – E os carros com vidro escuros que você não vê o motorista. Eu vim de uma escola que hoje já não se faz isso. Eu tinha quatro, cinco anos e uma professora que nos levava para aprender a atravessar a rua. Eu fui educado para saber atravessar uma rua! Ela dizia, ‘a primeira coisa que você tem que fazer é parar na calçada, não coloque o pé no asfalto, olhe para um lado e depois para o outro e quando o motorista parar, olhe no olho dele, porque, quando você olha no olho da pessoa, sabe que ela está te olhando, te vendo’. Parece uma besteira, né, mas é primordial. Hoje você vê o motorista? Não. É o vidro escuro ou a placa de propaganda política no vidro. Hoje são três coisas que podem provocar uma tragédia: uso do celular, o fundo com propaganda e a falta de uso da seta…

.ba – Hoje o povo já nem fala mais no celular, fica mesmo é digitando…

FM – Pois é, digitando. Já imaginou o risco que é isso? Ou então, você compra o carro com uma puta tecnologia e não usa. Porque o carro hoje em dia até fala (risos). Qualquer Fiat.

.ba – Eles já estão até andando sozinhos…

FM – Eu faço a linha contrária. Porque a gente tem essa mania de dizer que brasileiro é apaixonado por carros. Eu fico indignado porque valores no Brasil não são caráter, educação, e sim Corola, Honda Civic. Então eu faço uma linha contrária, porque, nessa cidade, você me vê com a cara na tela, fazendo uma novela, a pessoa já deposita em você uma coisa que nem você imagina ser. Então eu, como eu fiz desenho mecânico, não saio de Fiat, não saio. Quanto menos eu chamar a atenção, melhor. Isso é muito engraçado, às vezes. Você percebe que a pessoa lhe reconheceu e depois diz assim: ‘olha o carro!’ É uma maluquice. Isso nas minhas pesquisas.

.ba – Esse cotidiano da vida é uma fonte de criação para você?

FM – Muito. Eu não paro de pesquisar, mesmo que eu não queira (risos).

.ba – E O Corrupto, foi com base neste momento que estamos vivendo?

FM – Não, não. Houve uma coincidência muito grande.

.ba – Não tem nada com a Lava Jato?

FM – Não, mas obviamente eu tive que colocar, está na pauta, aí eu coloquei. Eu queria falar na corrupção nossa de cada dia, das coisas mínimas.

.ba – Daquela máxima da Lei de Gerson?

FM – Isso, exatamente.

.ba – Essa coisa de ter TV por assinatura sem pagar…

FM – Quantas vezes você parou em vaga de paraplégico? Quantos atestados médicos falsos você já pegou? Quantas vezes você matou sua avó? O seguro do carro no nome da mãe que não dirige. Carteira de estudante falsa para pagar meia. Salvador é campeã brasileira dessa fraude, sabia disso? A média é 75%.

.ba – Isso até interferiu no preço dos ingressos…

FM – Eu essa semana estava viajando, estava em Ilhéus. Parei em uma floricultura para comprar umas flores para um amigo. Aquelas floriculturas que acabam sendo barraquinha de tudo. Aí chegou um rapaz e perguntou: ‘você vende uma rosa? Eu quero uma rosa. Você tem carteira de estudante, né?’ O cara responde: ‘Tem, mas a validade é de um ano’. Eu não sabia o que falar, o que fazer. O cara da floricultura já tinha me reconhecido. Aí eu fiquei pensando o que perguntar. Aí o rapaz falou: ‘ah, é de um ano’. O cara respondeu: ‘É. Essa aí é de março. Só vale até março’. Pois foi isso que eu ouvi, meu filho, e não me peça para eu explicar. Você pode comprar uma carteira de estudante que vale um ano em uma barraca. Como é isso? Eu não sei usar essa porra [o celular], senão eu teria feito uma foto. Eu deveria ter botado para gravar. Eu já botei para gravar algumas vezes. Dependendo do lugar, eu já entro com o gravador ligado.

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Nós somos um povo corrupto…

FM – ‘Farinha pouca, meu pirão primeiro’…

.ba – Mas quando se diz lá fora que a corrupção no Brasil é endêmica, ninguém gosta, logo reclama.

FM – Claro que não. Não fale mal do meu filho. Quem pode falar dele sou eu…

.ba – Então, quando você aborda essas questões, você espera reações contrárias da plateia?

FM – Claro. Eu fiz de propósito. Eu sinto que tem risos estranhos, tem gente que não ri…

.ba – Já teve caso de alguém sair da plateia?

FM – Não, porque aí estaria se entregando (risos). Ou então riem mesmo. Aí eu provoco, pergunto quantos aqui pagaram esse curso? Porque a peça é uma aula. Eu instalo a plateia como alunos de um curso de corrupção ativa que estão repetindo pela quinta vez. Dessa forma, eu estou botando panos quentes dizendo: ‘se você está repetindo é porque você não tem talento’…

.ba – Ou então porque você não está fazendo seu trabalho bem feito…(risos)

FM – Ai, você já é uma aluna muito…

.ba – Ou porque não pagou a mensalidade…

FM – A ideia é essa. Dizer que você foi selecionado pelo banco de dados por ter sido flagrado por práticas abusivas, que demonstraram uma corrupção no seu pleno uso, mas você está repetindo pela quinta vez, você não aprende a ser corrupto. Aí quando eu digo isso eu pergunto: ‘será que vocês pagaram esse curso apresentando uma carteira de estudante falsa?’ Tem gente que gargalha, porque sabe. Quer ver outra coisa chata? Quando a gente sorteia um par de ingressos quase sempre a pessoa que ganha vai para a porta do teatro vender.

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Você acha que cabe ao artista se posicionar publicamente, como aconteceu agora no processo de impeachment de Dilma, ou isso dificulta a vida de vocês depois?

FM – Eu acho que dificulta sim. Acho que a gente pode ter vários comportamentos. Acho que o comportamento político é muito pessoal, do cidadão, que acha que fulano deve ser o prefeito por isso, isso e isso. Por outro lado, quando você é um artista, você está à mercê de vários julgamentos, principalmente daqueles que não leem, que vão acabar com você e não leram o que você colocou. Esse procedimento político que está acontecendo hoje, esse comportamento petralha e coxinha, isso é uma discussão parecida com Fla-Flu, Ba-Vi, Palmeiras e Corinthians, sabe, uma coisa assim. Eu fui apresentar ‘O Corrupto’ em Camaçari, aí eu perguntei ao assistente de produção fulano, ‘você já viu a peça?’ Ele responde: ‘Não, só vi quando você falou do PT, mas eu sou petista’. Aí eu disse: ‘Ô meu filho, mas eu sou Vitória’, brincando, porque isso é perigoso, é quase, eu não quero julgar, mas é quase tolo. Eu lhe sendo muito sincero, não sei se quero, se eu vou me abrir para dizer isso, primeiro porque eu não tenho certeza. Eu tenho confiança em alguns que não estão ali. Isso eu tenho certeza. Eu vou falar de um que eu tenho certeza da sua integridade, já conheci e tem um pensamento brilhante. Eu já votei nele para presidente, mas ele perdeu. É o Cristóvam Buarque [senador do PPS-DF]. Eu acho ele um senador brilhante, que defende a educação como base. Ele votou a favor do impeachment de Dilma com uma frase maravilhosa. Ele disse que um dos maiores erros dela foi Temer (risos). Isso é genial. Ele colocou que ela não tinha mais base para governar, não tinha mais base política, e nós íamos ficar nessa ladainha. Foi dele que partiu a ideia de ela se defender para voltar e convocar novas eleições gerais. A ideia foi dele. Depois, de tanto braço a torcer, muitos vieram atrás, mas foi ele quem defendeu que o povo é que precisa definir.

.ba – Mas você acha que o povo tem condições de decidir?

FM – Não, esse é o grande problema, porque a gente vai entrar nesse círculo vicioso. A gente precisa de um tempo de maturação, de amadurecimento social, e é esse o grande desespero. Se a gente for pensar profundamente que uma pessoa que tem uma mãe sem as pernas por causa da diabetes não faz a escada adequada, se existem esses seres humanos… Não estou dizendo que esse homem seja uma pessoa ruim, simplesmente esse tipo de comportamento é atrelado a essa busca social que eu fico, como posso explicar, eu perdi o vocabulário… Ele está fazendo o que na visão dele é certo, ele foi educado para isso.

.ba – Não é aquela história de que o esperto existe porque tem o otário, ou vice e versa?

FM – Também, mas, no caso dele, o otário está dentro da casa dele: é ele mesmo.

.ba – Mas será que ele tem essa percepção?

FM – Não tem e é isso que é complicado, é isso que a gente não encontra palavras para descrever. A gente está vivendo no país em que a gente está fazendo aquilo que é melhor para mim, sem parar para pensar que dentro da nossa casa pode ter gente que vai sofrer as consequências daquilo que estou fazendo. Só que eu não tenho culpa.

.ba – O imediatismo do brasileiro… A gente tem uma bancada ruralista no Congresso que, para defender os interesses de grandes indústrias, libera a venda de agrotóxicos proibidos no mundo, que há 50 anos não são mais utilizados na Europa. Coisas que eles vão consumidor depois, que serão colocadas na água, no alimento, que vão fazer mal para todos. Mas é aquela questão, eu tenho que me dar bem agora…

FM – Ele também está sofrendo dessa má educação. O imediatismo também faz isso. Eu acho, isso me surgiu aqui agora, que essa falta de educação está acabando com todos, não é só com os menos favorecidos não.

.ba – Exato. Eles também estão consumindo alimentos que vão causar câncer. A população brasileira nunca teve tanto câncer na vida. Obviamente, está ligado a isso.

FM – Claro! Tem coisas inacreditáveis nas minhas pesquisas. Botei os óculos escuros, meu boné e parei na emergência do Roberto Santos. Fiquei lá observando. Saí porque Oxum tomou a frente, aí eu desci as lágrimas, não gosto de falar…

.ba – Tudo isso como pesquisa para seus espetáculos?

FM – Sim, não vou abordar agora, mas vou botar depois.

.ba – Quando você aborda essas questões…

FM – Desculpe, só para fechar, o grande problema é transformar isso em comédia.

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Você acha que as pessoas conseguem captar a mensagem que você quer passar?

FM – Quando você ri, você absorve mais. Quando você chora, quando é uma tragédia, você quer esquecer em doses homeopáticas. Eu acho que a gente está dando muita sorte, porque uma cidade com 3 milhões de habitantes, com a total falta de conhecimento, de pensamento no outro, de solidariedade… A solidariedade é algo que, aqui em Salvador, é quase cafona ser solidário. Eu acabei de pegar o ferry boat, que já tinha uns três anos que eu não pegava. Uma tragédia. Eu entrei no Ivete Sangalo quando era mais novo, aí eu pensei: ‘nossa que coisa maravilhosa’. Embaixo de cada cadeira tinha um salva-vidas. Nesse dia, eu fui treinar, fui ver se era fácil de tirar, como funcionava, eu sou meio maluco, mas sou um maluco direitinho. Eu entro no avião e já vou ver logo se está tudo funcionando. Quando é a Globo quem compra, eu coloco mais um pouquinho para ir naquela cadeira conforto. Na porta de emergência eu sei funcionar tudinho, só nunca abri, mas já sofri despressurização, já usei máscara. Meu anjo da guarda desmaiou, mas eu sobrevivi (risos). No ferry, meti logo a mão para ver como tirava o colete salva-vidas, se era prático, se era fácil. Tinha uma lata de Skol. Tinha o colete, ele estava lá, mas a lata estava na frente

.ba – Não era Schin, não?

FM – Não, era Skol. Devia ser Schin, né, porque era no Ivete, né (risos). Estava na frente da lingueta. Resultado, eu vim nele agora e não tinha mais colete. Sabe por que? Porque tinham levado. As pessoas levam. Para quê? Na cabeça dele, não passa que vai acontecer, que ele pode precisar. É aquilo que você fala sobre o agrotóxico. O fazendeiro acha que não vai morrer de câncer, até que descubra. Não vai acontecer. Até que acontece.

.ba – Aí ele quer responsabilizar alguém, quer tirar dinheiro de alguém.

FM – Exatamente. Quer matar alguém, quer prender alguém. A Fonte Nova, que abriu aquele buraco, ninguém foi preso. Sete mortos. Graças a Deus foram só sete. A tragédia podia ser bem maior, podia ser 50 mil.

.ba – Sérgio Moro é um herói ou um simples caçador de corruptos?

FM – Herói não, está muito longe de ser herói. Não precisava esse espetáculo, não precisa divulgar nada. Ele poderia continuar fazendo o trabalho dele quieto, calado, para que a opinião pública não se manifestasse agora, porque ela está indo no embalo das fases. A gente está desenvolvendo nossa opinião com base em cada fase.

.ba – Mas isso não é um escudo, uma forma de ele se proteger para dar continuidade ao trabalho, sem correr o risco de os políticos estancarem a operação?

FM – Ah! Não tinha pensado nisso. Pode ser também.

.ba – Porque quando você bota a boca no trombone fica mais difícil dar visibilidade…

FM – Eu acho que está todo mundo junto. Quando eu vislumbro uma coisa muito pior, não há diferença nenhuma de um partido para outro.

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – É aquela coisa de ‘se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão’?

FM – É isso. Se gritar, ficam Cristóvam Buarque e mais uns três assim do lado dele. E olhe lá, que eu não vou botar minha mão no fogo. Porque, se você está ali, você vai ter que se adequar ao seu partido. Eu não vou falar de político, porque eu tenho amigos íntimos que são políticos. Eu acho que é tudo igual. O comportamento é tudo igual. PSDB, PT, DEM, PMDB, é tudo igual. O único que eu ainda tenho confiança porque ainda não tem nenhuma bancada é o PSOL. Eu não vou abrir a boca para dizer que faz isso ou aquilo. É o único que ainda não tem o rabo preso. Eu já vi o PSOL fazer coisas muito dignas, boas. Por exemplo, o PSOL foi criado quando o PT chegou ao poder, por causa de um fato específico, que eu digo que foi o soco que Lula deu na boca do meu estômago, quando a gente conseguiu botar ele na presidência, que foi ele colocar Sarney como presidente do Senado. Isso foi um absurdo… O PSOL se construiu em cima disso, naquele radicalismo que eu precisava ter culhão suficiente para poder fazer isso. Mas não quero me filiar a partido nenhum. Eu sou um artista, sou um ator, quero trabalhar com isso.

.ba – Sarney não era apenas um adversário político, era um inimigo pessoal …

FM – Não foi só isso não, meu bem. Sarney foi um governador biônico, no AI 5. O presidente do Brasil era Costa e Silva, eu tinha seis anos e via minha mãe e meu pai preocupados com o que ia acontecer com o país, com as questões culturais. Governador biônico, para quem não sabe, era escolhido pelos generais. Se você é escolhido por um general em uma época em que se tirou todos os direitos e garantias da população… É muito bom as pessoas lembrarem o que aconteceu, porque foi ali atrás e todo mundo acha que isso é besteira. Existem ditaduras e ditaduras. A ditadura religiosa, que está se formando no país, é tão perigosa quanto. Está todo mundo defendendo e eu fico com medo. Se continuar assim, o que pode acontecer, especialmente com as mulheres, que podem sofrer terrivelmente?

.ba – Você acha que é o senso de humor que faz com que nós brasileiros consigamos sobreviver?

FM – Acho, perfeitamente. Eu me perco muito. Eu estava falando na questão de Sarney, que é importante todo mundo saber isso. Ele foi governador biônico e ACM também foi prefeito biônico nessa época, também indicado pelos militares. Essa cidade, o Nordeste inteiro, foi construído em cima disso. Eu começo a falar em política e começo a me empolgar, mas isso é muito terrível. Meu Deus!

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Você falou na questão religiosa. Essa coisa do politicamente correto em tudo, como comediante, você não tem problema com isso?

FM – Isso é chatíssimo. O maior problema que eu sofro com isso é comigo mesmo. Eu me exijo muito. Eu faço uma força brechtiniana para me distanciar e me ver. Às vezes, eu fico me coçando todo porque eu escrevi o espetáculo propositadamente para eu falar o que eu quero e abrir brechas para que eu possa improvisar em cima desse meu humor e provocar e tal. E aí eu fico me controlando porque pode sair uma pedrada, pode sair algo… Sábado agora eu larguei uma que Marcelo Praddo [diretor da peça] falou: ‘Frank, pelo amor de Deus’. Quando eu falo do PMDB, meu discurso é porque eu sou o corrupto-mor, eu quero falar mal de uma forma inversa. Tudo é inversão de valores. Então, elogiar o corrupto, falar da ONG que tem sede no Palácio do Jaburu, aí eu fico brincando que está no poder um partido que até hoje ninguém ouviu falar nada contra o PMDB. Imagina, que partido brilhante? Aí eu solto: ‘cadê o corpo de Ulysses [Guimarães]? E quando eu falei isso, Marcelo Praddo pirou. Porque Ulysses foi um homem que brilhou, bateu pé firme para a elaboração da Constituição nova, porque a vida está evoluindo. Para o bem ou para o mal, a gente tem que se adequar, como o nosso Código Penal de 1942 tem que mudar. Hoje, com 205 milhões de pessoas, o que é crime? Uma menina de 2 anos com um senhor dentro de um carro. Aqueles pagodeiros dentro do ônibus com as meninas, que tiveram que sair da cidade onde moravam porque foram moralmente culpadas… porque a culpa é delas, na cabeça delas. Para quê entraram no ônibus? Isso é um crime. A última pesquisa, vocês viram, para cada três brasileiros, um acha que a culpa é da mulher.

.ba – E pior, as próprias mulheres…

FM – Pois é. Essa que condena tem inveja por não ser tão gostosa, não poder colocar a mesma roupa que a outra veste, não tem mais idade. Você tem uma série de questões, tem que abrir o leque. Só para fechar essa coisa do Código Penal, Jean Wyllys que está sofrendo pressão do próprio movimento LGBT, porque a criminalização não pode ser feita assim. Tudo não pode virar crime de uma hora para outra. Imagine aquele senhorzinho sertanejo que foi criado dentro dessa cultura, chega na cidade e aí e diz: ‘sai daqui baitola, sai viado’. Você vai prender esse homem?

.ba – O patrulhamento do politicamente correto não virou um tipo de censura?

FM – Também. Claro. Estou me autocensurando. A filha de uma amiga minha, de 17 anos, gatinha, bonitinha, o cara foi elogiar o vestido dela e ela disse que era assédio. Quer dizer, até um elogio vira assédio. Virou uma paranoia. Eu fico me policiando contra essa minha ‘ranzinzisse’, esse meu mau humor natural da idade, de todos nós que estamos caminhando para a velhice, porque você com 54 anos, meio século e quatro anos, não tem novidade para a gente que já viu de tudo. As coisas naturalmente se repetem. Existem comportamentos, essa coisa de não esperar que o elevador fique vazio para você poder entrar, eu fico me policiando para que um não tome tanta raiva do outro. Aí eu peço a Deus para não me tirar esse meu humor e vou me adequando. Tem um funcionário no Módulo que é daqueles evangélicos ferrenhos, que vira e mexe vem com a palavra da Bíblia. Aí todo dia eu venho com uma piada de candomblé com ele, só para brincar. Na hora que ele me vê já diz: ‘lá vem seu Frank. Tá amarrado, em nome de Jesus’ (risos).

Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Ízis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – O Corrupto fica em cartaz até quando?

FM – Se depender de mim, fica até o ano 2050.

.ba – Como está o planejamento aqui e fora do estado?

FM – Fica em cartaz até 27 de novembro, no Teatro Módulo. Não gosto muito de divulgar isso porque o público baiano adora ficar naquela de ‘depois eu vou, depois eu vou’. Fora eu ainda não fechei, porque depende muito de apoio e da adequação entre São Paulo e Rio. Mas eu quero levar para São Paulo. Eu tenho pauta no Teatro Itália, que é um teatro muito legal que um baiano está tomando conta. Como é um monólogo, é muito mais fácil. Se não tiver apoio, lá vai eu investir novamente. Eu faço a minha aposentadoria privada, aí o teatro leva tudo. Lá vai o meu dinheiro (risos). Mas eu vou para São Paulo, quero fazer lá no verão. O Rio de Janeiro queria me levar agora, tem um teatro lá que se chama ‘Casa dos Grandes Atores’, na Barra da Tijuca, que quer que eu faça janeiro e fevereiro, mas eu preferia ir para São Paulo antes. São Paulo é a terceira cidade do mundo, é a maior cidade do país. Lá tem um público que frequenta teatro.

.ba – Era uma das coisas que eu queria perguntar. Essa coisa de a Bahia ser considerada o berço da cultura, mas aqui a gente quase não tem cultura, equipamentos.

FM – Não tem. O berço já quebrou há muito tempo. A Bahia como berço da cultura não era só em relação a teatro e música. Era berço em todas as áreas. O museu mais importante de arte sacra da América Latina é o daqui, o terceiro maior do mundo. Ele fecha aos sábados e domingos porque não tem quem frequente, que é o Museu de Arte Sacra. Tem muita gente que não sabe nem onde fica. Salvador foi a primeira capital do país, por isso ela era uma fonte, um celeiro muito grande. Falei de museu porque meus amigos artistas plásticos sofrem muito mais. Uma exposição aqui é uma coisa inacreditável você conseguir um espaço. Divulgar é uma loucura. O que acontece que, quando digo São Paulo, é que o público de São Paulo é o único do país que consome cultura sem precisar que a divulgação chegue até ele. É hábito. Uma amiga minha vem com a conversa: ‘Frank, você está em cartaz? Eu não sabia’. Mas também não tem divulgação. O hábito de ir ao teatro, não precisa o teatro ir para a televisão, nem que o jornal caia na sua cara para você ver o que está em cartaz. O paulistano não espera a divulgação cultural, vai atrás do que quer consumir. Tem até guia. Salvador foi perdendo completamente. Foi virando uma bobagem de axé somente, de uma música – não tenho nada contra, acho até alegre, feliz, ótima – mas a gente não tem só isso. A gente chega até a esquecer que Rosa Passos é baiana.

.ba – A questão financeira não interfere?

FM – Em que sentido?

.ba – No sentido de o preço do ingresso ser proibitivo. As pessoas não terem dinheiro.

FM – Não porque minha peça é mais barata do que o Ba-Vi. Fonte Nova é muito mais cara, o Wet N’ Wild é o dobro. O youtuber – porque hoje em dia a cultura está aqui, você não quer mais a vida, a vida está aqui no [celular] – quando vem para cá faz duas sessões que lotam 15 dias antes, com ingresso o dobro do preço do meu, às vezes mais. Então, é tudo uma questão de informação, de saber. A minha carreira foi construída no teatro e teatro é uma coisa que foi passada para muita gente como chata, sempre a mesma coisa. E aí ele nunca foi. Eu não gosto de pão de queijo, mas nunca comi. É a mesma coisa. Eu tenho 33 anos de carreira. Quando fiz dez, eu já tinha um nome. Meu pai dizia: ‘meu filho, seu nome virou uma Gestalt’ (risos). Eu botava ‘Frank Menezes encena Maria Helena’, enchia, o público sabia quem era Frank Menezes. A população foi crescendo tanto, aí você vai fazendo uma coisa na TV, uma coisa no cinema. A população foi tomando uma grande proporção, mas não vai ao teatro. Então, hoje, eu não passo batido mais em nenhum lugar, mas as pessoas não sabem meu nome. Eu já fui chamado de o garçom da loura (risos). Não sabe nem o nome da pobre da Letícia Spiller – é a loura. Eu já fui chamado de tudo, Renato Piaba, Ricardo Castro. Que maravilha você me chamar de Ricardo Casto, mas eu sou Frank Menezes. Pois é.

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