Publicado em 19/03/2017 às 09h00.

Guerreiro minimiza polêmica do Cine Glauber: ‘Delírio da esquerda’

Presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM) critica a dimensão que o assunto tomou e nega que a ideia do Município seja “tomar" região

Evilasio Junior / Rodrigo Daniel Silva / Rodrigo Aguiar
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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

A região onde está localizado o Espaço Itaú de Cinema – Cine Glauber Rocha virou centro de uma polêmica recente entre prefeitura e governo após o Executivo municipal propor a revogação de uma lei de 1973, que concedeu a área para o Estado da Bahia.

A discussão, porém, não passa de “fofoca”, alimentada pelo “segundo escalão”, nas palavras do presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM), Fernando Guerreiro.

O dirigente critica a dimensão que o assunto tomou e nega que a ideia do Município seja “tomar aquilo de volta”. “Começou um certo pânico, não sei o porquê, e em seguida umas fantasias malucas. Primeiro, que [ACM] Neto ia derrubar para fazer um hotel e, depois, que ia derrubar para fazer uma igreja. Quando me diziam essas coisas, eu só fazia dar risada. O delírio persecutório da esquerda é inacreditável”, diz.

Em entrevista ao bahia.ba, Guerreiro se esquiva de opinar sobre a gestão cultural do Estado, por considerar uma questão “delicada, que envolve muitas variáveis”, mas admite a falta de diálogo com o secretário de Cultura da Bahia, Jorge Portugal. “Acho que, em dois anos, conversei com Portugal duas vezes. Enquanto eu falava com Albino [Rubim, ex-secretário] toda semana”, conta.

O presidente da FGM também fala sobre a programação do aniversário da cidade, planos para a festa de 30 anos da Fundação, além de criticar os rumos do teatro baiano. “Começou a se fazer teatro para o próprio umbigo de novo. A peça de fulano tem sempre ali as mesmas pessoas”, opina.

Confira a entrevista na íntegra:

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

bahia.ba – Vamos começar com a polêmica da região do Cine Glauber [a prefeitura pretende revogar a cessão da área ao governo do Estado, feita em 1973]. O projeto foi para a Câmara, depois se falou em um acordo entre prefeitura e governo do Estado, e o prefeito, quando perguntado se havia um acordo, disse para perguntar a você, que estaria em contato direto com a Câmara Municipal. O que está sendo pensado para aquela área?

Fernando Guerreiro – Na verdade, o que existe é uma ausência completa de legalização. Segundo me consta, aquilo está ilegal. O que a gente está tentando fazer é arrumar. Aí começou um processo completamente sem pé nem cabeça. Primeiro, eu não estava no início. Eu só fui saber quase quando esse processo estava na Câmara. Não foi um processo conduzido por mim. Inclusive, não é só o Cine Glauber. É o Glauber e o Belvedere da Sé. São as duas áreas juntas.

“Não entendi porque isso foi parar em Rui Costa. Não tem necessidade de briga. Eu, inclusive, odeio esse clima pré-eleitoral, esse negócio que está aí. Acho isso terrível para a Cultura”.

.ba – E a Fundação Gregório de Mattos também?

FG – Não, não tem nada a ver com aquilo. Eu cheguei a conversar com Cláudio Marques [diretor do espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha] e disse a ele que me interessava porque eu já estou administrando todo aquele entorno, já reformamos o entorno, com os dois teatros. Existe um projeto de instalar a sede da Fundação na Barroquinha. Existe uma Vila Barroquinha sendo desenhada para se transformar em um grande polo cultural. E a ideia é fazer com que o cinema rode cada vez melhor, com mais atividades e tudo. Aí começou um certo pânico, não sei o porquê, e em seguida umas fantasias malucas, porque hoje a gente vive nisso. Primeiro, que [ACM] Neto ia derrubar para fazer um hotel e, depois, que ia derrubar para fazer uma igreja. Quando me diziam essas coisas, eu só fazia dar risada. O delírio persecutório da esquerda é inacreditável. É um negócio surreal. Sempre vai acontecer alguma tragédia, um negócio horroroso. Não se pauta em fatos concretos, e sim em um delírio. A ideia não era tomar aquilo de volta, era legalizar a situação. Mas, como essa história ganhou um contorno muito acima do que mereceria, o prefeito resolveu dar uma esfriada na história e a gente volta a discutir esse assunto mais tarde. Não entendi porque isso foi parar em Rui Costa. Não tem necessidade de briga. Eu, inclusive, odeio esse clima pré-eleitoral, esse negócio que está aí. Acho isso terrível para a Cultura. Vou até tentar uma articulação para conversar sobre isso, porque atrapalha a minha gestão e a de lá [governo] também. A Cultura não pode entrar nessa guerra porque é uma área, por si só, com muita dificuldade. A ideia não é criar confusão. A história é simplesmente tentar uma negociação de gestão, pela questão de já ter uma gestão coletiva ali. Então, eu espero que, já que o governo insistiu tanto, faça melhorias reais ali, já que quer ficar com o espaço. Que ele realmente invista ali, crie programação com as escolas e atividades. Porque só dizer ‘é meu, é meu, é meu’ e não vai mexer? E aí? O que vem de programação? É isso que interessa.

.ba – Você acha que o governo tem dado pouca atenção ao Cine Glauber Rocha?

FG – Nenhuma, na minha cabeça. Até agora não vejo nada.

.ba – Objetivamente se falou em uma intervenção no Belvedere da Sé?

FG – Foi pedido de volta mesmo o Belvedere. A história do Belvedere eu não sei qual é. Sei que está no pacote também.

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

.ba – O prefeito chegou a dizer que anunciaria em breve um conjunto de intervenções integradas, que abrangeria o Museu de História da Cidade, o Arquivo Central…

FG – Não, isso aí é outra coisa. Inclusive, a ideia é que o Arquivo se transforme em um Museu da História da Bahia, e ele vai funcionar onde seria o Hilton. Já tem o Museu da Música e, do lado, você vai ter o Museu da História. É uma urgência, inclusive, resolver a questão da sede do Arquivo, que tem um material fantástico. Precisa sair do prédio da Fundação e ganhar um prédio digno e a ideia é que ele vá lá para baixo [Comércio]. O projeto está lindo, agora só falta sair o dinheiro. No caso do Glauber, é ativar mais. Cláudio já faz um excelente trabalho. É só potencializar. Não tem essa coisa de tomar, de que ‘isso aqui é meu’. Isso é coisa do segundo escalão, que faz fofoca (risos).

.ba – A informação dos bastidores é de que o governo sentaria com a prefeitura para discutir um substitutivo. É isso mesmo?

FG – Isso ainda está em negociação. Tem tanta coisa hoje que está passando na frente que eu não posso te dizer em que momento isso vai ser discutido. Vai haver uma conversa com calma, sem urgência de mexer nisso.

“Existe uma observação clara que o centro de cultura é um elemento irradiador impressionante. Por exemplo, qual é a área mais organizada culturalmente em Salvador? O Subúrbio. De onde veio isso? Do Centro Cultural Plataforma”

.ba – O que tem urgência é o aniversário da cidade. Como tem sido feito nos últimos anos, na semana que antecede o aniversário já existe uma programação. O que já pode ser adiantado?

FG – Quem está à frente é Isaac [Edington], da Saltur. A gente está “parceirizado”. Mas, especificamente como ações da Fundação, teremos o lançamento de toda a política de fomento do primeiro semestre. Finalmente o Viva Cultura vai ser lançado, com edital, com tudo. É a lei de incentivo municipal. Vão ser R$ 3,8 milhões agora.

.ba – Uma espécie de Fazcultura da prefeitura?

FG – Isso. As empresas vão poder investir o ISS e o IPTU em Cultura, tem muita gente interessada e eu acho que vai ser um sucesso. A gente lança agora também uma novidade, que vai ser o Espaço Boca de Brasa. Quando a gente fazia o projeto, percebemos que as comunidades não queriam um evento, e sim ações o ano inteiro. O Boca de Brasa vai ocupar o ano inteiro espaços, que vão virar centros de cultura, nas dez prefeituras-bairro. Vamos começar gradualmente, em duas formas. Alguns vão ser construídos. Já existe um para ser inaugurado em Coutos e outro vai ser planejado para Cajazeiras, em um primeiro momento. E eu vou lançar um edital assim: se um grupo ou uma produtora já tem um espaço cultural funcionando no bairro, a gente entra potencializando com uma verba anual. Serão essas duas formas. Existe uma observação clara que o centro de cultura é um elemento irradiador impressionante. Por exemplo, qual é a área mais organizada culturalmente em Salvador? O Subúrbio. De onde veio isso? Do Centro Cultural Plataforma. Onde existe um polo de cultura diminui drogas, violência, e os artistas se organizam. A gente lança também, em parceria com a Ancine, o Ache na TV, que é um edital de fomento no qual a gente dá um valor e a Ancine dá o dobro, para produções audiovisuais. Também o Selo João Ubaldo 2 e o Arte Todo Dia, que é para pequenos projetos, para aquilo que chega de última hora. Em seguida, lá para abril, a gente lança uma série de ações envolvendo o patrimônio. Depois de 30 anos, hoje a gente já tem um Conselho de Patrimônio trabalhando e um setor específico. Agora, no aniversário da cidade, vamos fazer o tombamento do Cristo, que é Salvador e não Redentor, e também a Pedra de Xangô, que é uma demanda de muito tempo. Vamos participar da programação da Saltur também. Eu tive uma discussão muito grande com Isaac, que é o seguinte: vai ter música, sim, mas não vai ser a prioridade do festival. Vai ter muita ação de teatro, de cinema. É realmente um festival que ocupa a cidade com as mais variadas linguagens. Frank [Menezes] deve fazer O Corrupto na rua. O stand-up comedy na kombi deve voltar, com Pisit [Mota], Alan Miranda, os meninos do Ba-Vi. E vai ter um grande festival nacional de grafite, o Bahia de Todas as Cores. Não gosto desse nome, parece coisa infantil, mas tudo bem (risos). Vão ser três dias de debates e trabalho dos grafiteiros em dez pontos da cidade. Eu fiz questão de apoiar esse festival por causa da maluquice de São Paulo, que é a história de confundir pichador com grafiteiro. Acho importante ressaltar que a prefeitura de Salvador apoia o grafiteiro e tem um projeto nosso que é fantástico, do Comércio. Vamos lançar também um projeto aos domingos, no Teatro Gregório de Mattos. Vai ter o Domingo Trans, o Domingo Caos (risos), o Domingo Tango e o Domingo Valsa. O Gregório tem um potencial enorme para virar um café-teatro. Vamos fazer um grande ponto de encontro.

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

.ba – Para a galera órfã do Bambara…

FG – Ali era fantástico. Fora as tigresas, mas era genial. E também um projeto que a gente deve estar começando, chamado Prata da Casa, para revelar os talentos ocultos da prefeitura. Servidores que cantam, representam, fazem strip, pole dance, cambalhota. Primeiro, só vão os malucos, claro. Daí em diante, você vai ver. No final do ano, vai ter até festival. Vai ter guerra para participar. Um bocado de artista oculto vai se revelar.

.ba – Ainda sobre a região do Glauber, qual a sua proposta para revitalizar o local?

FG – Eu acho que Cláudio é um resistente. Foi ele quem começou aquilo, e é o último cinema de rua de Salvador, tirando o Circuito de Arte, que metade hoje em dia está em shopping. Acho que ali tem uma programação de excelência, as salas são fantásticas tecnicamente, mas o público ainda precisa aumentar. Acredito que é muito importante fazer parcerias com as escolas, ter mais lançamentos e eventos ali, porque acho que atrai um público diferenciado. Mais divulgação. Criar realmente de novo o hábito das pessoas irem ao Centro. Tem um estacionamento do Palace que está para ser inaugurado, atrás da Igreja da Barroquinha, que vai atender também à demanda da praça. Acredito que isso vá aumentar a frequência, porque as pessoas ainda têm muito receio de ir ao Centro da cidade. A gente tenta fazer as pessoas ocuparem, mas tem uma galera que não quer, tem medo de andar na rua. A galera mais jovem se joga mesmo. Mas tem uma galera de mais de 40 anos que quer chegar de carro, então vai haver essa possibilidade de estacionar com segurança.

.ba – Isso tudo tem a ver com o projeto de revitalização da Rua Chile?

FG – Um dos motivos de eu ter ido para a Fundação é a Rua Chile. Eu sou apaixonado pela Rua Chile. Cresci ali e na Avenida Sete, com Mulher de Roxo, tudo que você possa imaginar dali. Acredito que aquilo vai virar uma outra coisa. Já está se transformando, claro que é gradual. O Palace já está em soft opening – eu adoro essa viadagem – as obras do Fasano continuam, há vários locais com tapumes. Acredito que a Rua Chile vai se redesenhar e se transformar de novo em um grande polo atrativo da cidade. Existe também a discussão de a prefeitura fazer um Centro Administrativo por ali, que eu acho ser o ideal.

.ba – Não é incoerente, em um momento de se tentar revitalizar aquela região tradicional da cidade, a prefeitura condenar que o governo faça o Centro de Convenções na área da Marinha?

FG – Acho que ali seria um Centro de Convenções adicional. Porque as pessoas não vão chegar de navio para uma convenção. Imagine um empresário vir de navio para uma convenção, um desocupado, né. Acho que a estrutura e a localização de Centro de Convenções atual criaram uma logística em volta dele, de hotéis e tudo, que quebrou com o fechamento dele. E botar aquilo abaixo, para mim, é um crime. Em Salvador, as coisas vão se deteriorando e ninguém sabe onde começou. Coisas que, gradualmente, vão sendo mal geridas. Sabe qual era a nossa grande discussão dentro da prefeitura hoje? Uma coisa chamada manutenção. Esse é o grande bicho de sete cabeças que a gente tem pela frente. Inaugurar é muito fácil, manter é o problema. Eu tive um problema agora com o ar-condicionado do Gregório e estou há três meses tentando resolver. É uma novela. O pessoal fez uma instalação para exposição, esqueceu que tem um palco em cima, que neguinho pula em cima. No primeiro dia de espetáculo, quebraram todas as lâmpadas. E o Parque de Exposições é a Cidade da Música, pelo amor de Deus. Tem que ser palco para show. Aquele Wet´n Wild é uma vergonha, todo mundo passando no meio da lama, do mato. Aquilo não existe. É impressionante. Salvador não consegue resolver essa questão de espaço para shows.

“Hoje eu tenho realmente um diálogo muito fluido com Zulu [Araújo, da Fundação Pedro Calmon], Moacyr Gramacho [diretor do TCA], mas com [Jorge] Portugal [secretário de Cultura do Estado], zero. Não sei o porquê. Não aconteceu, não fluiu”.

.ba – Como é o diálogo da Fundação com a Secretaria de Cultura do Estado? Há uma crítica muito grande do segmento, que criou até uma secretaria paralela…

FG – É muito complicado para mim fazer um comentário desses. Seria antiético. Não tenho como fazer isso, porque é muito chato. Hoje eu tenho realmente um diálogo muito fluido com Zulu [Araújo, da Fundação Pedro Calmon], Moacyr Gramacho [diretor do TCA], mas com [Jorge] Portugal [secretário de Cultura do Estado], zero. Não sei o porquê. Não aconteceu, não fluiu. Acho que, em dois anos, conversei com Portugal duas vezes. Enquanto eu falava com Albino [Rubim, ex-secretário] toda semana. E a questão da gestão é delicada, porque envolve muitas variáveis. E eu odeio satanizar uma pessoa. Não é brincadeira. E política é um negócio para gente grande. Não é só orçamento curto. Muitas vezes você trabalha com um monte de gente que você não escolheu, que é indicação política. Pode ser que você dê sorte com uma, com duas você não dá.

.ba – Você deu mais sorte ou azar?

FG – Sorte total. O prefeito foi absolutamente generoso comigo. Há grandes técnicos na Fundação, uma equipe maravilhosa. O que não significa que eu não possa absorver uma indicação política de qualidade. O problema é a indicação política incompetente, que não tem nada a ver com aquilo e fica lá atrapalhando o trabalho.

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

.ba – Em que pé está o Museu da Música?

FG – Acho que, com a liberação do Prodetur, o Museu da Música vai começar a correr finalmente e vai sair. É um projeto maravilhoso. Acho que em dois anos, dois anos e meio, ele está pronto.

.ba – E, fora o aniversário da cidade, o que mais teremos neste ano?

FG – Trinta anos da Fundação Gregório de Mattos. Então eu devo fazer uma grande festa em homenagem a Gregório, que provavelmente deve ter uma estátua dele na praça. Vamos escolher o lugar. Aí vão ficar os três malucos juntos: Castro Alves, Glauber Rocha e Gregório (risos).

.ba – O nosso repórter James Martins até comentou que havia uma promessa de recolocar um busto de Glauber Rocha na rua que leva o seu nome, na Baixa de Quintas, e até agora isso não aconteceu…Disseram que era com a fundação.

FG – Diga a ele que me procure que a gente resolve isso. Além disso, tem uma coisa que estou reivindicando há muito tempo. Trazer o acervo desse homem para a Bahia. Esse acervo está no Rio, não sei em que circunstância. Glauber tem muita coisa que não foi publicada e se perdendo. Além de ter sido um grande cineasta, era um grande pensador, né? Escrevia que nem um maluco. Esse negócio de busto é ótimo, mas cadê o acervo? O que é mais importante? Se fosse o busto na porta de uma casa onde estivesse um acervo…O povo adora busto (risos). Quem sabe se esse acervo não poderia vir para o próprio cinema… Acabei de ter essa ideia aqui. Por exemplo, aquele cinema não poderia se transformar em um grande centro de ensino audiovisual? Hoje, só a exibição não basta. Quanto mais você criar ali dentro um centro de criação de cultura, melhor. O Estado podia fazer isso. Dou minha ideia de graça, sem problema nenhum. Por exemplo, quando a Fundação descer lá para a Barroquinha, eu já disse que não quero sede na primeira casa, quero sala de ensaio. Porque eu preciso trabalhar uma coisa que não consigo nos meus dois espaços, que é justamente o espaço da experiência, do ensaio, do curso. Pegar aquela comunidade ali e colocar para fazer aula.

“Hoje o Baiana System tem um público que não cabe mais no Furdunço. O Alavontê está no limite. Mais um ano e explode. […] Qual é a foto da Bahia hoje? É o Baiana System”

.ba – Você é um folião e entusiasta do Furdunço. Mas neste ano muita gente achou um fiasco, o prefeito inclusive admite reconsiderar o modelo. O que tem de novidade?

FG – Eu estive com o prefeito essa semana e ele já deixou claro que está começando agora uma discussão enorme sobre o Carnaval de 2018. Neto é muito atento, deve fazer uma grande reestruturação levando em conta as principais críticas desse ano. Teve muita crítica de moradores da Barra em relação ao tempo e tal, e o Furdunço obviamente vai ser reestudado. É consenso que explodiu. E não só por causa de Léo Santana. Baiana Sytem também. Hoje a Baiana System tem um público que não cabe mais no Furdunço. O Alavontê está no limite. Mais um ano e explode. Mas os coroas do Alavontê não têm perigo, que dançam devagarzinho e cansam (risos). O povo de Léo Santana chega louco e de Baiana System nem se fala. Só falta subir no trio. Tem um fenômeno muito engraçado. Casualmente, eu fui para São Paulo na quinta-feira de Cinzas. Quando eu vi, estava dentro do carnaval. Uma coisa surreal. Porque carnaval e São Paulo não combinavam. Eu olhava e pensava ‘estou louco, estou no lugar errado’. Um dia, eu voltava de um almoço para o hotel, onde eu sempre fico, e o taxista me disse que não podia me deixar, porque tinha carnaval. O que eu fiz? Coloquei minha carteira na frente, escondi o celular, tirei o relógio e saí dançando (risos). O Carnaval de São Paulo está monstruoso. Agora, a engenharia do nosso carnaval é absurda. É uma coisa que ninguém pode questionar: a prefeitura dá um show de organização no carnaval. Outro dia, eu até brinquei, dizendo que queria morar no carnaval, porque tudo funciona. Um carnaval como o de Salvador seria uma tragédia coletiva em qualquer lugar do mundo. O baiano sabe andar no carnaval, tem uma engenharia própria. É uma coisa para ser estudada. A gente ainda é campeão absoluto. Mas começou um movimento grande no Brasil inteiro. E o axé está voltando no Brasil inteiro. O filme de Chico [Kertész] foi uma grande puxada. Era assombroso o que eu vi em São Paulo: um milhão de pessoas atrás de Daniela [Mercury]. Vários artistas voltaram a fazer show. Tem uma entrada de mercado de novo, que eu prefiro mil vezes do que isso que acontece hoje, que é um negócio que nem sei o nome. Outro dia pedi um pendrive de uma amiga com 50 músicas desse movimento. Eu tive uma dor de cabeça tremenda e passei mal. Esse arrocha misturado com sertanejo, não sei o nome disso. Rapaz, as frases não entram na métrica. As músicas são assombrosas.

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

.ba – E sua volta ao teatro, como vai ser?

FG – Eu discuti muito se continuaria na gestão ou não, porque quatro anos é bom demais, né? E uma das negociações que eu fiz nesse processo foi voltar a trabalhar com teatro de novo. Além da questão mercadológica em si, que daqui a pouco neguinho esquece que eu sou diretor teatral, eu também não estou aguentando mais. Eu não sou um cara que me apaixonei pela gestão e vou deixar de ser artista. Não tenho a menor pretensão. Vou começar uma oficina de comédia, porque vou investir mesmo nesse filão. A minha grande marca como diretor teatral sempre foi o humor. A oficina vai ser uma grande provocação sobre o humor nos tempos do politicamente correto, como lidar com essas proibições, e daí eu vou puxar um grupo de trabalho para ir retomando o estudo sobre a comédia. Além disso, eu estreio em maio uma espécie de recital, um ensaio aberto, chamado ‘No meu, no seu, no nosso’, que é uma grande brincadeira sobre o Dicionário de Baianês. E em setembro eu devo ir para o palco pela primeira vez. Todo mundo dizia que eu tinha que fazer um espetáculo contando os meus casos. Eu ainda não defini o que vai ser isso. Não vai ser stand-up, porque eu não sou ator. Na verdade, vai ser muito mais um talk show, metade contando os casos e metade entrevistando um maluco. Tem que ser da mesma enfermaria. De Zéu Britto para baixo. Tem uma coisa muito engraçada que acontece no Roda Baiana. Quando eu convido alguém muito sério, o programa trava. Porque tem pessoas que não entendem o humor. Você faz uma piada e ela fica perdida. Então não posso entrevistar uma pessoa seríssima nesse talk show. Então, a ideia é levar Luis Miranda, Frank Menezes, Geraldinho Júnior, que é doidão, pessoas que têm essa pegada.

“Tenho que fazer uma coisa que eu sei que a plateia quer ver. Casa vazia eu passo mal. Eu quero ver gente que nunca vi na plateia. Não quero ver amigo, não. Para dizer que está ótimo?”

.ba – Como você avalia a situação do teatro baiano hoje?

FG – Foi até bom você perguntar, porque eu tenho conversado com os artistas. Eu sobrevivi a minha vida inteira de ingresso. Claro que eu tinha pequenos patrocínios, mas os meus espetáculos duraram porque tinha público pagante. A Bofetada está aí até hoje para provar isso. Em determinado momento, começou a se fazer muita coisa que não interessa. E isso é muito grave. Porque não é drama ou comédia ou musical. É interessar, chamar a atenção. Começou a se fazer teatro para o próprio umbigo de novo. A peça de fulano tem sempre ali as mesmas pessoas. Toda área tem altos e baixos. Acho que houve uma ressaca. Eu vivi um período de ouro, com artistas talentosíssimos. A prova é que todos estão aí estourados no Brasil e no mundo. Dois dos maiores atores do mundo são João Miguel e Wagner Moura. Vieram dessa leva. Vladimir [Brichta], Frank. Aí vem uma lista interminável. Teve uma baixa. E outra coisa. O teatro precisa de uma política constante realmente, mas também precisa desenvolver uma relação, que as pessoas que não querem mais pagar ingresso. E aí vem o lado negativo da política de editais, que é o espetáculo de edital. O que é o espetáculo de edital? O edital dá R$ 100 mil, eu planejo uma peça para fazer oito apresentações, pago todo mundo e acabou. Aí você não cria mais o produto que vai avançar além do edital. O público fica esquecido. Está se fazendo peça e ensaiando em 15 dias. Isso não existe. Cadê o acabamento, o cuidado? E uma predominância da quantidade. Tem gente fazendo dez peças no ano. O processo teatral é trabalhoso. E precisa provocar, chamar a atenção. Como diretor, eu nunca quis resolver uma tara ou um sonho meu. Nunca tive essa relação com a arte. ‘Ah, vou fazer porque é meu sonho de infância’. Que sonho de infância? Tenho que fazer uma coisa que eu sei que a plateia quer ver. Casa vazia eu passo mal. Eu quero ver gente que nunca vi na plateia. Não quero ver amigo, não. Para dizer que está ótimo? Talentos, tem por aí. Mas é preciso organizar e surgir uma leva nova de diretores, que consigam desenvolver um trabalho. Falta diretor. Com exceção de Gil, Fernanda Júlia, João Sanches, Edvard Neto. Mas eles precisam produzir com mais frequência. Ao mesmo tempo, o cinema está crescendo. O audiovisual ficou capenga por muito tempo e acho que agora começou a crescer. E a música tem uma diversidade encantadora. Muita coisa boa. IFÁ Afrobeat é um absurdo. Baiana System não se fala mais, porque já é do mainstream, não dá para chamar de alternativo.

.ba – Você gosta?

FG – Muito. Às vezes eu acho que repete demais, aí me dá angústia. Fica naquela música meia hora, me dá desespero, entendeu? Mas eu adoro Russo, acho ele um fenômeno. E eu vi aquilo começar. Eu vi Robertinho começando aquele projeto há dez anos. E sei que foi uma construção muito bem feita. Aquilo ali não é maluquice, foi estudado passo a passo. E a ideia genial dele, de juntar o dub com a guitarra baiana, o DJ com Luiz Caldas. Isso é uma construção. Isso é arte. Não foi montado para ganhar dinheiro ou fazer sucesso. Fez porque foi bem administrado e teve uma recepção boa. Qual é a foto da Bahia hoje? É o Baiana System.

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