Publicado em 21/10/2017 às 06h00.

‘Melhor chapa seria com Rui nas quatro vagas’, clama Trindade

Líder da oposição na Câmara de Vereadores atacou ACM Neto, mas não descartou aprovar uma eventual aliança do governador com o prefeito: "Em política tudo se conversa"

Alexandre Galvão / Evilasio Junior / João Brandão
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

O vereador José Trindade (PSL) afirmou que chapa ideal em 2018 seria “se o governador Rui Costa (PT) pudesse ocupar as quatro vagas”. Em entrevista ao bahia.ba, o líder da oposição na Câmara Municipal de Salvador, atacou ACM Neto (DEM), disse que as lideranças do prefeito na Casa são “ultrapassadas, com chicote na mão”, mas não descartou aprovar uma eventual composição entre os chefes dos executivos baiano e soteropolitano.

Apesar das críticas à gestão municipal, o edil rasgou elogios ao secretário de Desenvolvimento e Urbanismo de Salvador, um dos mais próximos ao democrata, Guilherme Bellintani. “Costumo dizer que Bellintani é um dos secretários tamanho ‘G’ da prefeitura. Está se perdendo, pois a prefeitura tem tamanho ‘P’. Luiz Carrera também é um bom secretário, mas Bellintani é diferenciado”, opinou.

Em relação ao seu futuro político, Trindade praticamente descartou uma candidatura a deputado no próximo pleito, disse estar “muito satisfeito” no PSL, mas falou estar disponível por ser um “soldado do governador”. “Meu caminho é o de Rui Costa. Marcelo Nilo [presidente estadual da legenda] é companheiro nosso há mais de 20 anos. Tenho consideração por Marcelo, respeito o trabalho dele, mas meu caminho será traçado junto com o governador”, completou.

Confira a entrevista na íntegra:

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

bahia.ba – O senhor pretende se candidatar a algum cargo eletivo próximo ano ou mesmo brigar por uma vaga na chapa de Rui Costa?

José Trindade – São vários aspectos. Primeiro acho que nosso foco tem continuar sendo o trabalho em relação ao nosso mandato. Um mandato que já foi conseguido com dificuldades. A briga na chapa do governador Rui Costa é porque é uma chapa vitoriosa. Já nasce vitoriosa. São sete partidos querendo participar em função do trabalho que o governador vem fazendo em toda a Bahia. Como dizia o deputado Ulysses Guimarães: ‘A politica é como nuvem, cada hora tá uma situação’. Temos foco no trabalho em Salvador, mas nos colocamos sempre à disposição. O projeto hoje é reeleger o governador Jaques Wag… Rui Costa.

.ba – Já que o senhor teve um ato falho, tem vontade de o governador voltar a ser Wagner ou está satisfeito com Rui?

JT – [risos] Se você perceber, desde 2007 a Bahia respira a democracia, com a lição de Wagner, agora com o governador Rui Costa. Nós construímos um momento democrático. Acaba se confundindo. Wagner fez um grande governo. E Rui, com uma situação muito mais difícil econômica e política, está fazendo um governo que surpreende muita gente. Não a mim, que acompanhei o trabalho dele no governo Wagner. Ele tem dado um banho, tanto administrativamente quanto politicamente.

.ba – O senhor acha que a gestão de Rui consegue superar a de Wagner?

JT – Foram momentos distintos. O próprio governador Jaques Wagner, ele coloca em várias oportunidades que pegou um momento em que ele tinha Lula, Dilma, um país crescendo. A dificuldade de Rui tem sido muita. É um momento de recessão no nosso país, um momento complicado. E Rui Costa tem dado provas da competência dele. Hoje é um dos poucos estados que pagam o funcionalismo em dia. Se você pegar, nesses dois anos do governo Rui, segundo o próprio Ministério da Fazenda, foi o estado que mais investiu em valores proporcionais.

“O projeto hoje é reeleger o governador Jaques Wag… Rui Costa.”

.ba – O combate que o senhor faz ao prefeito ACM Neto na Câmara, às vezes o chama de líder de quadrilha, o que já lhe rendeu processos. Reconhece que perde a mão nas críticas?

JT – Entendo que até a bancada de oposição ajuda mais o prefeito ACM Neto. Ajudamos a administrar a cidade. A prefeitura tem como foco a inexperiência e a incapacidade administrativa. No primeiro momento o prefeito quis tomar o Glauber Rocha, propriedade do governo. No segundo momento, a prefeitura entra com projeto para vender parte do Colégio Central e, há 15 a 20 dias, apresenta um reajuste dos servidores da educação que tinha esquecido no projeto anterior.

.ba – Especificamente sobre o caso que o senhor falou de que ele é líder de quadrilha, o prefeito já disse que ia entrar com um processo contra o senhor. Seria o quarto. Já houve alguma consequência jurídica efetivamente?

JT – Não, na realidade o prefeito entrou com processo criminal. Já foi arquivado. O único que ele entrou foi esse. Tudo o que falei está registrado na Câmara, pela TV Câmara. Quem tiver curiosidade é só chegar nas redes da Câmara e assistir. O que eu falei não é novidade. O que é? Falei sobre uma denúncia que um executivo fez, chamado Lucas Cardoso, de que recebeu em nome do prefeito ACM Neto R$ 1,8 milhão a título de propina. Falei de Alexandre Paupério, que tem uma questão do Ministério Público. Falei de Geddel e Gustavo Ferraz, que são de conhecimento público. Qual foi a novidade que falei? Reverberei o que a imprensa nacional vem falando há muito tempo.

.ba – Então, o senhor reafirma a acusação?

JT – Tudo o que falei está registrado na Câmara Municipal. Está lá para quem quiser ver.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – Dentro da bancada de oposição, com partidos mais ligados à esquerda e aos movimentos sociais, o senhor consegue manter unidade?

JT – A bancada, na realidade, entende o nosso papel, cada dia mais claro. A gente trata democraticamente. Os membros da bancada têm autonomia para se posicionar em plenário, fazer projetos, emendas. Apesar de ter um líder, é autônoma. Não tem subserviência a ninguém. Na realidade, eu e meus irmãos fomos criados em uma democracia. Cada um escolheu o que entendesse que era melhor para ele. Meus irmãos optaram uma por uma linha mais ligada ao prefeito.

.ba – Lembro da sua primeira eleição para vereador. Maurício Trindade era deputado federal e o senhor utilizou na campanha a imagem dele como se fosse o mesmo projeto. E, mais recentemente, quando Maurício fez greve contra ACM Neto, o senhor foi visto em um evento com o irmão e falou para a gente que ia tentar atraí-lo para o lado de Rui Costa. Isso avançou?

JT – Na verdade, na minha primeira eleição, Maurício Trindade foi o meu principal cabo eleitoral. É uma das pessoas que mais conhecem da saúde, da área social de Salvador. E naquele momento me ajudou muito. Ele, como médico, visitou uma unidade em Cajazeiras e disse sim. Gostaria que meus irmãos estivessem participando dentro de um projeto vitorioso. Eles ainda não têm essa visão ampla da vitória.

.ba – Qual a avaliação que o senhor faz da liderança do prefeito ACM Neto na Casa?

JT – A liderança do prefeito é exercida com submissão e subserviência dos vereadores. Na hora que você vai votar um projeto, mesmo seja do Executivo, tem que ser melhorado. Semana passada votamos cinco ou seis emendas. Ou seja, melhoramos o projeto. Tem diversos vereadores preparados para contribuir, mas não têm direito de contribuir. A liderança do prefeito é ultrapassada, com chicote na mão. Não se faz mais política assim.

“A liderança do prefeito é exercida com submissão e subserviência dos vereadores. […] Tem diversos vereadores preparados para contribuir, mas não têm direito de contribuir. A liderança do prefeito é ultrapassada, com chicote na mão. Não se faz mais política assim.”

.ba – O senhor falou de subserviência, mas algumas críticas ou denúncias que o senhor faz contra a gestão de ACM Neto vêm do gabinete do governador. O senhor se coloca à disposição parar fazer o papel de atacar o prefeito ACM Neto justamente porque na eleição do próximo ano ele é colocado como principal adversário de Rui Costa? Os textos e conteúdos passam pelo o senhor?

JT – O governador Rui Costa nunca tratou comigo a respeito da sucessão de 2018, nunca mencionou nome do prefeito em nossas conversas. Todas as minhas posições são claras. Sou responsável pelo bônus e pelo ônus.

.ba – Qual seria a chapa dos sonhos de Trindade em 2018?

JT – Você tem grandes nomes à disposição: o governador Rui Costa, Wagner, João Leão, alguém ligado ao senador Otto [Alencar], a Lídice, Félix… a briga é muito grande. A melhor chapa seria se o governador Rui Costa pudesse ocupar as quatro vagas.

.ba – Como vai ficar o PSL com a reforma política que tramita na Câmara dos Deputados. Se a cláusula de barreira for mesmo aprovada, o partido é um dos que podem deixar de existir…

JT – Isso está muito recente. Aprovou-se uma mudança agora. Então, o partido vai sentar e avaliar, comandado pelo presidente Marcelo Nilo. Tudo tem que ser conversado. Se chegar em abril e a gente entender que tem sair para o partido A ou B… mas estou muito satisfeito no PSL hoje.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – O senhor já teve convite de algum partido?

JT – Sempre tem muita gente conversando, mas eu sigo as orientações do governador. Faço parte do grupo de Rui Costa. Meu partido é o governador Rui Costa.

.ba – Em relação ao PSL, muitos deputados se insurgiram contra liderança de Marcelo Nilo. De qual lado está José Trindade internamente?

JT – O meu caminho é do governador Rui Costa. Marcelo é companheiro nosso há mais de 20 anos. Tenho consideração por Marcelo, respeito o trabalho dele, mas o meu caminho será traçado junto com o governador Rui Costa.

.ba – Vai haver uma nova reforma administrativa, provavelmente em março, em função dos secretários que deixarão o governo para concorrer em 2018. Há conversa para o senhor assumir alguma das pastas que ficarão disponíveis?

JT – Eu sou um soldado do governador Rui Costa. Estou à disposição dele para o que ele imaginar. Acho que nesse momento sou importante na Câmara Municipal, até para respaldar as ações do governo e reverberar as ações na Câmara.

“Eu sou um soldado do governador Rui Costa. Estou à disposição dele para o que ele imaginar.”

.ba – Na sua avaliação, Guilherme Bellintani, que o senhor já elogiou algumas vezes, seria um bom secretário para Rui?

JT – Costumo dizer que Bellintani é um dos secretários tamanho ‘G’ na prefeitura. Está se perdendo na prefeitura, pois a prefeitura tem tamanho ‘P’. Luiz Carrera é um bom secretário, mas Bellintani é diferenciado.

.ba – O senhor gostaria, caso ACM Neto fizesse uma composição com Rui Costa?

JT – Em política tudo se conversa [risos]. Como foi dito semana passada, chegou um líder [Carballal] disse que Rui é de direita e ACM Neto de esquerda. São projetos diferentes. Rui tem um projeto sério, de pessoa que quer trabalhar e tem foco no trabalho e na coisa correta. Do outro lado, não. Tem espuma. Pode se juntar amanhã, mas hoje são projetos completamente diferentes.

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