Publicado em 02/09/2017 às 06h00.

Opositores a Maduro criticam Mais Médicos: ‘Doutrinam o paciente’

Em visita ao bahia.ba, líderes de movimentos de rua contra o regime venezuelano falam sobre a situação do país: "O diretor da Inteligência disse que somos terroristas"

Rodrigo Aguiar / João Brandão
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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

Líderes de movimentos de rua venezuelanos contra Nicolás Maduro, Roderick Navarro e Eduardo Bittar são classificados como “terroristas” pelo regime, que chegou a solicitar à Interpol uma ordem de prisão internacional.

Ambos deixaram o país no começo de agosto, pela fronteira próxima à cidade colombiana de Cúcuta, e iniciaram uma excursão por países latino-americanos para falar sobre o governo da Venezuela, classificado por eles como uma “narcoditadura”.

Navarro e Bittar participam neste sábado (2) de um encontro na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e vão à Câmara de Salvador na próxima segunda-feira (4).

Em visita à redação do bahia.ba, eles falaram sobre a situação do país, prisões em protestos, perseguições de familiares e a chamada “venezuelização” – termo amplamente usado nos últimos anos por opositores dos governos do PT.

Ao falar sobre o assunto, Navarro diz que há “doutrinação” nas escolas e critica o programa Mais Médicos. “São médicos integrais comunitários, que não têm o preparo suficiente para tratar um paciente. E não somente isso: doutrinam o paciente e utilizam mecanismos da política para cumprir seu propósito ideológico”, afirma o venezuelano.

Segundo Navarro, o regime de Maduro nada mais é do que uma “consequência natural” das políticas de seu antecessor, Hugo Chávez. “É o trânsito natural de um governo de esquerda. E houve a radicalização da violência”, opina. Confira os principais pontos da entrevista:

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

BRASÍLIA

Navarro: Somos coordenadores nacionais do movimento Rumbo Libertad, que forma parte da resistência venezuelana. Estamos realizando uma excursão pela América Latina, indo aos fóruns políticos importantes da região e buscando apoio dos movimentos que lutam pela liberdade e democracia. Há um grupo organizado na Venezuela lutando contra a ditadura, que não reconhece a Assembleia Nacional Constituinte de Nicolás Maduro, e tampouco vai participar de nenhum processo eleitoral. Por isso estivemos quarta-feira passada em uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa na Câmara, em Brasília, onde expusemos em detalhes a situação venezuelana e solicitamos ao corpo parlamentar sérias medidas contra a narcoditadura de Nicolás Maduro. Medidas políticas, mas também econômicas, para apoiar a causa do povo venezuelano.

RUMBO LIBERTAD

Navarro: Foi fundado em outubro de 2016, como movimento político, formalmente. Mas Eduardo e eu já vínhamos atuando na resistência. São muitos grupos locais lutando pela liberdade da Venezuela. O Rumbo Libertad tem cerca de 300 dirigentes políticos a nível nacional, em 16 estados.

APOIADORES NO BRASIL

Navarro: Um grupo muito amistoso nos recebeu, muito solidário à causa venezuelana, nos recebeu na comissão. Chamo atenção para o apoio importante da deputada Cristiane Brasil, e de um grupo do partido Democratas. E também os deputados Jair e Eduardo Bolsonaro foram muito solidários. E os senadores Medeiros, Caiado, Cássio Cunha Lima. Eles participaram da comissão, perguntaram sobre a situação que estamos vivendo, estavam muito interessados, mas sobretudo muito preocupados de que isso pudesse acontecer no Brasil. Porque encontraram muitas semelhanças entre a ditadura de Nicolás Maduro e o que foram os governo de Lula e Dilma Rousseff. Por outro lado, outro grupo não foi nada amistoso. Um grupo do PT disse que estávamos contando mentiras, que não era uma ditadura o que faz Nicolás Maduro.

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

‘NARCODITADURA’

Navarro: A narcoditadura tem presença de grupos como as Farc controlando nossos portos e aeroportos. Ademais, há a presença de grupos terroristas como o Hezbollah e ETA. O uso do passaporte diplomático pelos membros de terrorismo islâmico é uma preocupação que tem os governos ao Norte, mas que precisam ter também os governos sul-americanos. É uma ameaça para o Brasil, Argentina, Colômbia e demais países da região.

PERSEGUIÇÕES

Navarro: A filha de Eduardo, de quatro anos, já sofreu duas tentativas de sequestro.

Bittar: Ela foi retirada do país e está na Colômbia agora.

Navarro: Minha irmã e minha mãe estão no exílio, em Miami. Meu pai está na Venezuela. Há um cerco não só à família, mas aos amigos próximos e às pessoas que têm relações pessoais conosco. Há casos muito mais graves, como do capitão Caguaripano, por exemplo. Ele é o militar que se levantou contra a narcoditadura no mês de agosto. Isso gerou mais levantes e respostas de militares venezuelanos que se colocaram do lado da luta dos jovens e do povo. Uma polícia local capturou o capitão e o entregou às autoridades de inteligência. Em uma entrevista a um meio de comunicação venezuelano, sua esposa disse que, se ele estiver morto, que pelo menos a entreguem o corpo, para saber se ele está vivo ou não. Assim como ele, há outros atores também, cujas famílias são assediadas. Na Venezuela, narcoditadura utiliza o terrorismo para amedrontar a população e os presos políticos e, dessa maneira, utilizá-los como exemplo de repressão, para aqueles que pretendem protestar. Mas isso não detém a população, pelo contrário. Isso gera níveis maiores de indignação e faz com que mais gente saia a protestar.

SAÍDA DA VENEZUELA

Navarro: Pela fronteira com a Colômbia, por Cúcuta, por via terrestre. Há um fluxo tão grande de pessoas que a vigilância não consegue deter. Saímos no começo de agosto para empreender essa agenda na América Latina, para levar essa mensagem. O general González López, que é o diretor da Inteligência, disse que nós dois somos terroristas e pediu à Interpol que nos capturasse e levasse de volta a Venezuela. Ele solicitou à Interpol que emitisse código vermelho para a nossa captura. Mas a Interpol não interfere em problemas políticos. É irônico que uma narcoditadura chame de terroristas os seus dissidentes políticos.

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

REFÚGIO

Navarro: Não vamos pedir asilo político, não vamos pedir refúgio. Estamos de passagem pelo Brasil, em uma agenda de trabalho. Ao cumprir a nossa missão, vamos voltar à Venezuela e seguir lutando com o nosso povo.

Bittar: Como há uma ordem de captura nossa na Venezuela, devemos nos cuidar para continuar a fazer o trabalho de maneira bem organizada.

PRISÕES

Bittar: Eu já fui detido em várias oportunidades por protestos, mas fui colocado em liberdade posteriormente por causa da pressão das redes sociais, das pessoas. Mas foi algo leve. Fiquei um ou dois dias preso, na última vez. Foi por causa de uns grafites que pintei dizendo “Não mais socialismo”, “Não mais comunismo”. Me golpearam com uma arma de fogo, o que deixou uma cicatriz.

FINANCIAMENTO

Navarro: O financiamento é pela colaboração de venezuelanos que vivem no exílio e querem apoiar nossa luta. Também recebemos a solidariedade de gente do Brasil, da Colômbia, que estão preocupadas com a situação do nosso país. Não temos nenhum laço com partidos políticos ou empresários, ou qualquer outro interesse que não seja pôr fim à ditadura na Venezuela.

Bittar: O dinheiro que conseguimos é bastante limitado, apenas para cumprir essa agenda pontual. Em todo lugar que chegamos há sempre gente solidária

EXCURSÃO

Navarro: O Brasil é o segundo país por onde passamos. O primeiro foi a Colômbia. Queremos seguir viajando: ir à Argentina, Paraguai, Peru. Temos planos de ir aos Estados Unidos e Europa porque, afinal, o que queremos é que toda a comunidade internacional de países livres se alinhe à nossa estratégia política. Nos parece importante a Declaração de Lima, por exemplo, na qual se propõe tomar ações mais contundentes contra a narcoditadura. Além disso, as iniciativas dos Estados Unidos, de sanções políticas e econômicas, nos parecem que podem encurralar a narcoditadura. Anteriormente, se tinha a visão de que, na Venezuela, somente existia um bloco de partidos da oposição oficial, que emitiu um comunicado rechaçando a ingerência estrangeira. Mas nós nos preocupamos que a comunidade internacional acredite que nós não necessitamos de apoio, e a verdade é que necessitamos, sim, desse apoio. E necessitamos de muito mais ajuda da comunidade internacional.

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Foto: Izis Moacyr / bahia.ba

 

CHÁVEZ X MADURO

Navarro: A única diferença é que o governo ditador de Maduro é uma consequência natural de todas as políticas que Chávez levou adiante. É o trânsito natural de um governo de esquerda. E houve a radicalização da violência. Chávez se aproveitou dos dólares do petróleo, o que representou uma entrada de dinheiro muito importante na Venezuela. Uma vez que esse dinheiro deixou de ingressar, com o petróleo abaixo dos 40 dólares, a dinâmica foi modificada. Chávez destruiu o aparato produtivo, destruiu a economia venezuelana. Hoje estamos vivendo uma crise humanitária sem precedentes na América Latina, com 3 milhões de pessoas comendo do lixo, na rua. De 30 milhões de pessoas que temos, cerca de 5 milhões fugiram da Venezuela. É uma diáspora. Já são quase 200 mortos em protestos pela liberdade do nosso país. E mais de 60% dessas pessoas não passam de 25 anos. A maioria é jovem.

‘VENEZUELIZAÇÃO’

Navarro: Os colégios estão sendo tomados pela política, pela doutrinação. É algo que se viu na Venezuela e se diz que está sendo implantado no Brasil. E o sistema dos médicos estrangeiros, por exemplo, para retirar o emprego dos médicos nacionais, com o argumento de que os médicos daqui não tem coração, e os cubanos, sim. Os médicos formados nesse esquema do Foro de São Paulo não são preparados profissionalmente com a destreza que são preparados um médico venezuelano ou brasileiro em uma universidade. São médicos integrais comunitários, que não têm o preparo suficiente para tratar um paciente. E não somente isso: doutrinam o paciente e utilizam mecanismos da política para cumprir seu propósito ideológico. Em segundo lugar, o controle da economia, a promoção da corrupção para clientelismo político, de forma a penetrar as instituições. Todas essas coisas nos geram preocupação e acreditamos que são mecanismos que “venezuelizam” ou “cubanizam” outros países. Na Venezuela, ocorreu dessa forma. Não descartamos que ocorra assim em outros países. Outra coisa que nos preocupa é que temas como a ideologia de gênero, promoção de racismo, das minorias, que são impulsionados para gerar ressentimento onde, de repente, não havia. São utilizados para justificar sua ação política, seu discurso político, e desta forma alcançar seus propósitos.

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