Publicado em 09/11/2018 às 10h32.

A voz do povo é a voz de Deus? Há controvérsias

O caso de Nilo Peçanha

Levi Vasconcelos

Dizem que a voz do povo é a voz de Deus, e por aí o eleito de amanhã será um ungido pelas urnas com as bençãos divinas. Será? Há controvérsias e um caso ilustra bem a pendenga.

Certa vez uma disputa eleitoral em Nilo Peçanha, no Baixo Sul, virou problema religioso. No povoado de São Francisco, cujo padroeiro é São Francisco, obviamente, reza a tradição que a imagem do santo sai da sede, desce o Rio das Almas e chega ao povoado de barco, onde a população pega e leva em procissão até a igreja.

Era um ano eleitoral, Antonio Galdino Filho disputava a eleição contra Jaime Rosário. Na hora da chegada do santo os partidários dos dois correram para a ponte de madeira que servia de porto, a ponte não aguentou, quebrou, todo mundo caiu na lama do manguezal, a única vítima fatal foi São Francisco, cuja imagem bateu numa pedra.

Impasse

Dia seguinte de manhã cedo chegaram Galdino e Jaime, cada um com um santo novo. E quem vai botar no altar? Chamaram Dom João Nilo, bispo de Amargosa, para resolver o impasse, até que Galdino propôs:

— Dom Nilo, proponho que quem ganhar bota o santo no altar. O senhor sabe que a voz do povo é a voz de Deus.

Dom Nilo falou firme:

— Nã-nã-nã-ninho-nã-não! Vou aceitar porque não tenho outro jeito, mas a voz do povo é a voz do povo e a voz de Deus e a voz de Deus. Lá na Galileia temos um bom exemplo de ouvir o povo, todos sabem no que deu.

Levi Vasconcelos

Levi Vasconcelos é jornalista político, diretor de jornalismo do Bahia.ba e colunista de A Tarde.

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