Publicado em 06/01/2017 às 09h32.

Hilariantes histórias da política e dos políticos para você se deliciar

Os casos são sobre o lado divertido dentro do meio político, que não é a atividade mais descarada, é a mais escancarada

Levi Vasconcelos

Frase da vez

“O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo

Charles Chaplin,  ator, diretor, humorista inglês (1889-1997)

Foto: bahia.ba
Foto: bahia.ba

 

É tempo de férias, vamos dar um descanso de alguns dias. Por isso fizemos esse texto, para você se divertir, algo que vale a pena ler e reler.

É sobre o lado divertido da política, que não é a atividade mais descarada, é a mais escancarada. Embora o senso comum preconize isso. Para o bem ou o mal, também no lado do humor.

São histórias e estórias que contam o tempo todo nos quatro cantos do Brasil, das salas de cafezinho nos parlamentos aos barzinhos das pequenas cidades, independentemente de cor ideológica.

Aí vão para você algumas pérolas, a começar por essa que o bom amigo Hamilton Celestino, o Tito, hoje no céu, antigo militante do velho Partidão, nos contava.

Abril de 1964. Os militares deram o golpe, derrubando o presidente João Goulart. Comunistas de todo o Brasil partiram em revoada rumo a Moscou, o refúgio dos marxistas de todo o planeta, entre eles o velho Gregório, de 65 anos, baiano de Góes Calmon, localizado em um povoado de Simões Filho, figura austera, o suprassumo da disciplina, respeitada pela firmeza com que defendia os princípios nos quais acreditava.

Moscou abriu os braços para receber os camaradas brasileiros, mas deu o aviso: todos teriam que se submeter a um completo tratamento contra doenças venéreas, regra padrão para quem chegava do Terceiro Mundo. Na bateria de exames preparatórios, estava o exame de toque. Foi aí que Gregório engrossou:

– Comigo, não! Esse não tem quem faça eu fazer!

Confusão no comando soviético, o Politburo nomeou uma comissão de notáveis brasileiros para tentar fazer Gregório entender que se tratava de um procedimento científico.

– Vá lá e diga aos russos que quem tem de entender alguma coisa aqui são eles. Tenho essa idade, já sou avô, sempre fui homem sério. E se não gostarem me mandem de volta para o Brasil, mas no meu ninguém toca.

Acordo final: Gregório teve que assim declarar um documento se comprometendo a nunca transar enquanto estivesse na Rússia. Mas não cedeu.

Voto sujo

Depois de ter sido prefeito de Boa Nova, Vavá Lomanto, irmão do ex-governador Lomanto Júnior, se candidatou a deputado estadual. Saiu pela região de Jequié pedindo votos.

Em Aiquara encontrou um grupo de amigos. No meio, Jaime Gordo, pai do atual prefeito, Jutahy Cosme, um velho conhecido, todo enfezado, recusou o cumprimento.

— O que houve, Jaiminho?

— Não lembra o que você fez?

— Não, não, não… Nada me ocorre.

— Pois é. Quem dá esquece, quem apanha guarda. Vou lhe lembrar. Logo depois que você se elegeu prefeito fui lá lhe pedir um emprego para um amigo e você mandou que eu socasse o meu voto naquele lugar!

— Oh, Jaiminho! Então tire e bote na urna! Voto sujo ou limpo, tanto faz, conta do mesmo jeito!

O caso do caso

“O caso eu conto como o caso foi”, a bela obra do pernambucano Paulo Cavalcanti, velho militante comunista, narrando o périplo dele pelos porões da ditadura, só foi contestado depois que o autor morreu. E deu rebu. Gilberto Marques, falando sobre o amigo que se foi ao Jornal do Commércio, de Recife, criticou:

– O livro é bom, mas tem um porém: ele foi feito em cima da oralidade e, portanto, é contaminado.

A viúva de João, Ofélia Cavalcanti, mandou carta protestando: “Lamento ver o Sr. Gilberto Marques fazer considerações desfavoráveis aos fatos narrados por Paulo. No dia 14 de junho de 1995, apenas 14 dias após a morte de meu marido, recebi das mãos dele, um poema de sua autoria, sobre forma de cordel, em que dizia: O caso fica contado/Do jeito que ele contou/Não pode ser emendado/Não carece de rasura/Pois trouxe delineados/Os rasgos da ditadura“.

Dias depois aparece outro cordel nas ruas de Recife intitulado como “O caso do caso bem contado que alguém se deu mal por ter dito que foi mau”. Um trecho:

“E quando a ofensa viu
A viúva Ofélia reagiu
Quando João morreu
O que de você saiu
Era puro elogio
Pois agora fique calado
Que o caso fica contado
Como João contou”.

Imagem aérea do município de Paulo Afonso/BA (Foto: Divulgação)
Imagem aérea do município de Paulo Afonso/BA (Foto: Divulgação)

 

Neci de Carequinha

O caso aconteceu durante eleição para a presidência da Câmara de Glória, na região de Paulo Afonso. Apuração consumada, vencedor proclamado, palavra franqueada, o derrotado suspende a mão:

— Eu gostaria de dizer que só perdi a eleição porque a vereadora Neci de Carequinha é uma mulher governada pelos outros.

Neci levanta igual a uma arara:

— Cabra macho nenhum manda em mim! Só quem manda é Carequinha, meu marido, e mesmo assim nem manda tanto porque é manso que nem uma ovelha. Você perdeu a eleição foi porque Índia vendeu o voto. Não foi, Índia?

Índia é quem levanta:

— Vendeu, não… Eu só aceitei o dinheiro porque meu menino estava com febre e estava muito precisada.

O revólver

Vez ou outra o povo se apaixona por um candidato. O agraciado ganha uma espécie de blindagem energética que nada de ruim cola e todo pecado é do bem. Um deles foi Erivaldo Suzart, em Itaquara (região de Jequié), em 1976. Durante uma caminhada no povoado de Barragem, a multidão o seguia de forma eufórica, gritando:

— Erivaldo! Erivaldo! Erivaldo!

De repente, ele ergueu os dois braços:

— Parem! (silêncio total). Perdi o revólver!

E o povo, em coro:

— Perdi o revól-ver! Perdi o revól-ver! Perdi o revól-ver!

Minutos depois Erivaldo torna a erguer os braços. Silêncio.

— Achei o revólver!

E o povo emendou:

— Achei o revól-ver! Achei o revól-ver! Achei o revól-ver!

Na imagem, Octávio Mangabeira, o primeiro governador da Bahia (Foto: Divulgação)
Na imagem, Octávio Mangabeira, o primeiro governador da Bahia (Foto: Divulgação)

 

A banana

Octávio Mangabeira, o primeiro governador baiano após o fim da ditadura Vargas, lá no fim dos anos 40, avô do ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, no meio do mandato recebeu amigos no Palácio Rio Branco para um brinde pelo seu aniversário.

Entre os convidados, um chamado Chico. Octávio se aproximou:

– Chico, meu velho amigo. Eu estava querendo lhe ver mesmo. Para lhe dizer que o meu mandato já está caminhando para o fim e eu nada fiz por você.

– Mas não preciso de nada, Octávio. Sua amizade é tudo.

– Mas quem quer sou eu. Alguma coisa eu posso fazer, quero fazer e vou fazer. Diga lá!

– É… Já que você insiste, eu tenho um menino aí que acaba de se formar em medicina e está desempregado.

– Uma bobagem dessas, Chico! Amanhã mesmo está no Diário Oficial.

No dia seguinte, Chico abre o DO e nada. E no outro dia também, e no outro… A vida seguiu e nada. Certo dia vinha Octávio pela Rua Chile, acenou para Chico do outro lado da rua que cerrou o punho e disparou estrepitosa banana.

No dia seguinte Chico abre o DO, está lá a nomeação do filho. Constrangido foi procurar Octávio, para se desculpar e agradecer. Octávio o recebeu de braços abertos:

– Chico, meu velho amigo! Banana providencial, aquela! Eu tinha esquecido!

Levi Vasconcelos

Levi Vasconcelos é Jornalista político, Diretor de Jornalismo do Bahia.ba, e titular da Coluna Tempo Presente do Jornal A Tarde.

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