Publicado em 08/02/2016 às 19h00.

Carnaval sem cordas: quem concorda?

Salvador vivencia um processo de adequação entre o público e o privado em uma festa que, ao longo do tempo, ganhou um aspecto 'antropofágico' e mercantil

Jorge Melo

 

Foto: Arilson Gois/Ag Haack
Foto: Arilson Gois/Ag Haack

 

O Carnaval de Salvador, ao longo do tempo, sofreu profundas transformações tanto no campo cultural quanto na maneira como é planejado, organizado e realizado. Nesse sentido, inegavelmente, o trio elétrico trouxe para o Carnaval da Bahia muitas inovações e profundas transformações, introduzindo na festa uma nova estrutura organizacional.

Se, com o trio elétrico, o carnaval assumiu um caráter participativo, com pessoas brincando ao som eletrizado, tendo como espaço a rua, sem, inicialmente, nenhuma divisão de hierarquia e de território, com o tempo e o crescimento da festa, apesar de o evento ainda ser considerado um carnaval de rua, o que se assistiu foi a privatização do espaço público, através dos camarotes e blocos de trio, com uma clara hierarquização social na ocupação do espaço público.

Com os trios elétricos dentro das cordas que, do seu inicial papel de preservação identitária, evoluíram para uma dimensão protetiva e excludente, coerente com a lógica das operações mercadológicas próprias do capitalismo, o caráter do espaço público na festa passou a ser modificado e até os esquemas de policiamento passaram a ser pensados para além da proteção do folião.

Coerentemente com a lógica mercadológica que passou a gerir a festa, o planejamento e o emprego da polícia passou a ser pensado para promover a sua adequação à criação e reforço de espaços segregados e excludentes, onde a sensação de segurança tem fundamento maior na distância social do que na ausência de crimes.

 

Cresce o número de foliões ‘sem cordas’, ‘sem abadás’ e ‘sem camarotes’

 

Não é sem sentido que, hoje, durante o carnaval, a estrutura governamental, como um todo, especialmente as polícias e, particularmente, a Polícia Militar, preocupe-se em avaliar cuidadosamente a realidade, mais ainda, em atender às demandas do ambiente, criando níveis de diferenciação e integração adequados a essas demandas, inclusive, estabelecendo redes com atores do setor privado no gerenciamento e controle das multidões.

Nesse sentido, abstraídas as disputas políticas entre o governador e o prefeito da nossa capital que, na busca pelos faróis midiáticos, estão acelerando e potencializando uma tendência de ampliação da participação dos foliões “sem cordas”, “sem abadás” e “sem camarotes” nos circuitos da folia, há muitos aspectos a serem examinados, com relação às novas tendências na organização e realização da festa carnavalesca que não se limitam apenas aos aspectos econômicos e culturais da questão.

Assim, o aumento considerável de atendimentos nos módulos assistenciais à saúde instalados nos circuitos da festa, por traumas na face e por ferimentos decorrentes do uso de instrumentos perfurocortantes, acende uma luz amarela em termos do planejamento das operações policiais, pois, apesar desse incremento nos casos de agressão física poder estar relacionado apenas ao fato de que, este ano, tivemos o acréscimo de mais um dia aos festejos, não se pode descartar a hipótese de se tratar de um efeito colateral da maior presença de deuses e deusas do carnaval desfilando em trios sem cordas nos circuitos.

Dado o exposto, percebe-se que nada acontece por acaso. Assim, antes de demonizarmos qualquer alteração introduzida no formato da festa, devemos ter em mente que a única coisa permanente é a mudança, principalmente em se tratando de uma festa em que as mudanças, historicamente, ocasionaram mais efeitos positivos do que negativos na sua organização e na atração turística.

Sobre este aspecto, é interessante ressaltar que podemos estar vivenciando um processo de adequação entre o público e o privado em uma festa que, ao longo do tempo, ganhou um aspecto “antropofágico” e mercantil.

Acorda, cidade! Não podemos esquecer que, com cordas ou sem cordas, mesmo com as mutações introduzidas no seu formato atual, destinadas a resgatar as expressões antigas que ainda subsistem e que representam a referência memorial e os fragmentos identitários de uma festa que nasceu popular, é forçoso entender que para o Reino de Momo sobreviver, em um mundo globalizado, a Bahia e a nossa capital precisam mostrar-se possuidoras de um aparato de segurança à altura dos desafios de garantir a integridade física e patrimonial dos que visitam Salvador nos dias em que ela se transforma na “cidade do carnaval”.

 

jorge melo 2Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.

 

 

 

Jorge Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.

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