Publicado em 11/08/2017 às 17h30.

‘Seja sua própria heroína’, diz Mônica Souza na Campus Party

A inspiração da Turma da Mônica veio a Salvador para falar sobre o lugar das mulheres no empreendedorismo

João Gabriel Veiga
Foto: João Gabriel Veiga/bahia.ba
Foto: João Gabriel Veiga/bahia.ba

 

Nada pode parar Mônica Sousa e seu poder feminino – nem mesmo a chuva que ameaçava dar as caras durante sua palestra na tarde desta sexta-feira (11), na Campus Party, em Salvador.

O teto da Arena Fonte Nova, que recebe o evento, é aberto e quando os primeiros pingos d’água começaram a cair, alguns membros do staff apareceram, prontamente, com um guarda-chuva para cobrir a executiva. Sua resposta foi digna da personagem que inspirou os quadrinhos: “Ah, deixa para lá. Vou tomar chuva mesmo”.

Mônica não deu para sua persona no gibi apenas o nome, mas também a liderança. “A história era do Cebolinha antes de criarem ela”, explica. “E é por isso que ele briga tanto com ela. Ele estava acostumado a ser o dono da rua e da tirinha”, completou. A Mônica da vida real – que, vale ressaltar, não liga em ser chamada assim – seguiu o mesmo trilho: é ela a diretora-executiva de vendas e do setor internacional da empresa de Maurício de Sousa, seu pai.

Se não é comum uma mulher chegar a tal posição em organizações, a própria “baixinha, gorducha e dentuça” é a primeira a ocupar o cargo na companhia do autor. A moça reconhece e diz repudiar a dificuldade que as mulheres têm em conseguir prestígio na carreira. “Mas na minha vida, não foi assim. Minha família é de artistas, a empresa foi feita por artistas. Eles não veem cor, gênero, orientação sexual. Eu nunca me senti diferente”, conta.

Pouco antes de subir ao palco, ela foi informada de que há mais meninas do que meninos na plateia de sua palestra no evento de tecnologia. “Isso é empolgante. Você sabia que, até os seis anos de idade, as meninas acreditam que não são tão inteligentes? Eu sempre penso nisso, e é porque nenhuma história é sobre elas. Acho que é por isso que a Mônica faz sucesso: ela não é perfeita, ela é capaz”, opina.

“Seja sua própria heroína. Foi isso que a Mônica me ensinou, e é isso que nós queremos continuar ensinando com o Donas Da Rua”, ela diz, ao fazer menção ao projeto da Maurício de Sousa Produções, no qual as leitoras são encorajadas a contar suas histórias, e podem ler sobre mulheres inspiradoras, com a pintora mexicana Frida Kahlo ou a cientista polonesa Marie Curie: “As meninas não sabem se posicionar, não conhecem a própria voz. Hoje, a Mônica não precisa de um balão de falas feito por um desenhista para usar sua voz”.

Em algum lugar do mundo, Joan Jett e sua bad reputation sorriem quando Mônica Souza fala que não liga para estereótipos do feminismo. “Muitos homens acham que é só ‘mimimi’, e acham que feministas querem destruir os homens. Bem, as mulheres são livres para serem o que quiserem, até mesmo para serem ‘duronas’ e mais masculinas”, afirmou, sobre aquelas que também pensam assim, ela apenas suspira e diz que não há mulheres machistas, mas que foram construídas no machismo.

O Donas da Rua, por mais que dê ênfase às meninas, também quer atender aos meninos. “Existe uma demanda muito grande. Os meninos também choram, mas ninguém mostra isso. Não existe coisa de menino ou de menina. Qualquer um pode chorar, ou lutar, ou lavar a louça, ou ser um chefe no trabalho”, diz ela, para a alegria de todos os Cebolinhas que não fazem questão de comandar a “lua”.

Se o discurso parece jovem e diferente, a própria Mônica – ou Inbonha – é uma pessoa jovem e antenada. Ela acha graça dos memes e, sempre que pode, lê as novidades. “As histórias do Maurício são leves, ele quer que todo mundo pense positivo. Nós queremos abordar histórias sérias, como a de pessoas negras, mas de uma forma positiva. Então, é bom saber que o público participa das brincadeiras”, explicou.

Seja com o Donas da Rua, no canal do YouTube da Turma da Mônica (que tem quase quatro milhões de inscritos), ou até mesmo na produção de graphic novels para o público mais velho, a Mônica de verdade encara o desafio de atualizar a marca para o século 21 com a facilidade que seu alterego tem para bater nos valentões. “Quando eu estava na escola, todo mundo fazia piada comigo porque eu era a Mônica, mas eu simplesmente não ligava. Eu aprendi com ela, e ela aprendeu comigo”, finalizou.

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