Publicado em 26/12/2016 às 11h45.

Coronel sobre Nilo: ‘Se é candidato a deputado, não precisa da AL-BA’

Deputado do PSD e candidato à presidência da Assembleia Legislativa da Bahia, Ângelo Coronel promete acabar com reeleição

Evilasio Junior / Rodrigo Aguiar / Fernando Valverde
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

Em entrevista concedida ao bahia.ba, o deputado estadual Ângelo Coronel, candidato a presidente da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), defendeu a urgência de se oxigenar o comando e a estrutura da Casa. Ele planeja, inclusive, em caso de vitória, extinguir o direito à reeleição. “Nós iremos ser um dos grandes incentivadores de encerrar a estrutura da reeleição. Acho que em uma casa de 63 deputados, todos podem pleitear ser presidente. Ali não tem um melhor que o outro. Então, no momento em que você acaba com a reeleição dentro da Mesa do Legislativo, você dá oportunidade para outros”, afirmou.

O parlamentar criticou também a função da Mesa Diretora, a qual, na sua visão, serve para “aspectos decorativos”, já que todas as decisões seriam tomadas em caráter “monocrático” pelo presidente. Para o postulante, os demais cargos devem ter autonomia para adotar medidas de forma consensual. “Tudo que é feito na Casa é por decisão do presidente. […] Quando é uma coisa boa, é o presidente que aprova e faz tudo. Quando é algo que pode haver conflito com a mídia, aí o presidente leva para a Mesa Diretora. […] Não devemos ter uma Mesa Diretora para simplesmente chegar lá no dia das sessões e ficar sem definir nada, sem participar da gestão da Casa”, asseverou.

Sobre a desistência de Nilo em disputar o Senado em 2018, Coronel avaliou que o oponente não tem mais necessidade política de permanecer no cargo. “Marcelo dizia que para se viabilizar para o Senado ele teria que renovar o seu mandato na Assembleia. Então, já que ele lutou desde o início para ser de novo presidente, porque ele aspirava uma vaga no Senado, eu quero até questioná-lo: já que ele declinou da vaga do Senado e é candidato a deputado federal, ele não precisa mais da Assembleia para se viabilizar a disputar vaga no Senado. Eu espero até que o presidente retire a sua candidatura e venha a nos apoiar, visto que já apoiei ele quatro vezes, é meu amigo pessoal. Eu acho que o Sol é para todos e a Casa não pode se perpetuar com um presidente só no seu comando”, sentenciou.

Quanto às especulações de que o seu partido, que hoje integra a base do governador Rui Costa, poderia migrar de lado durante a próxima disputa pelo governo do Estado, o deputado foi assertivo ao dizer que não vê problema em uma mudança, desde que haja uma orientação de consenso da legenda. “Temos 83 prefeitos na Bahia, quinhentos e tantos vereadores, cinco deputados federais, sete deputados estaduais. Ou seja, vamos sair com uma decisão colegiada. […] Se o partido definir isso, não serei eu a ovelha negra que ficará contra a decisão partidária. […] Temos um tratamento muito bom com o governador Rui Costa e vamos ver o que vai acontecer até 2018. Ainda tem muita água para rolar debaixo dessa ponte”, definiu.

Confira a entrevista na íntegra:

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

bahia.ba – A sua candidatura é para valer ou o senhor é uma espécie de “boi de piranha” para que outro candidato, como Adolfo Menezes (PSD), apareça e o senhor entregue a candidatura?

Ângelo Coronel – Em hipótese alguma. Nossa candidatura nasceu há quatro semanas. Inclusive, antes de alguns amigos terem me chamado para assumir essa candidatura, eu era um dos defensores de Adolfo Menezes para ser o candidato de consenso da oposição com a situação. Mas, naquela oportunidade, Adolfo me relatou que procurou Marcelo, que disse que não haveria como abrir mão da candidatura e, com isso, Adolfo declinou desse apoio, porque não queria entrar em rota de colisão com Marcelo. Aí surgiu o nosso nome, que é para valer e vamos em frente com ele até o dia 1º de fevereiro.

.ba – Em 2015 chegou a ser ventilado que o senhor disputaria a prefeitura de Salvador, o que acabou não acontecendo. Como a gente ainda tem um mês e pouco para a eleição e na política tudo muda muito rapidamente, o senhor não vê nenhum cenário possível de mudança? Como, por exemplo, o próprio Adolfo recuar na posição dele?

AC – A minha candidatura a prefeito de Salvador foi uma decisão do partido na época, mas o próprio partido viu que não tínhamos densidade para encarar e, conversando com o nosso presidente, o senador Otto Alencar, achamos melhor recuar e partir para apoiar outro nome. E quanto à situação de Adolfo, conversei com ele hoje, antes de ele viajar para a sua terra natal em Campo Formoso, e ficou definido que definitivamente ele não será candidato e que está apoiando o nosso nome juntamente com todos os outros membros do partido.

.ba – Adolfo é muito próximo a Marcelo Nilo. É verdade que ele o procurou no gabinete para informar que teria que, dessa vez, apesar da amizade, que seguir a orientação do partido? Ele já pediu uma espécie de benção para Marcelo Nilo para poder votar em sua candidatura?

AC – Ele esteve com Marcelo uns 15 dias atrás e comunicou ao presidente da Casa que ele é um homem de partido e que iria seguir o partido. Inclusive, houve um entrevero entre os dois, uma certa briga que acabou vindo a público e Adolfo foi bem claro com ele que não deixará de estar com o partido, onde foi bem votado e será de novo bem votado e trocar só por uma amizade, já que Marcelo está irredutível em não querer ceder para que Adolfo ou até outro nome de consenso dispute. Mas já soube também que os dois fumaram o cachimbo da paz, mas não para um apoiar o outro, foi apenas um cachimbo da paz institucional.

“Não tem complô nenhum, não tem conversa de Otto, não tem conversa de Leão, nem dos deputados do partido, seja do PSD ou do PP. Não sei de onde Marcelo tirou isso”

.ba O senhor acredita que Marcelo Nilo realmente desistiu da briga pelo Senado? 

AC – Olha, Marcelo dizia que para se viabilizar para o Senado ele teria que renovar o seu mandato na Assembleia. Então, já que ele lutou desde o início para ser de novo presidente, porque ele aspirava uma vaga no Senado, eu quero até questioná-lo: já que ele declinou da vaga do Senado e é candidato a deputado federal, ele não precisa mais da Assembleia para se viabilizar a disputar vaga no Senado. Eu espero até que o presidente retire a sua candidatura e venha a nos apoiar, visto que já apoiei ele quatro vezes, é meu amigo pessoal. Eu acho que o Sol é para todos e a Casa não pode se perpetuar com um presidente só no seu comando.

.ba –  O senhor é do PSD e é muito ligado a Otto. Nilo, quando comentou sobre desistir da candidatura ao Senado, falou em um complô de Leão e Otto para derrubá-lo. Há mesmo uma iniciativa do PSD e do PP para retirar Marcelo Nilo da presidência da Assembleia?

AC – De jeito nenhum. Não tem complô nenhum, não tem conversa de Otto, não tem conversa de Leão, nem dos deputados do partido, seja do PSD ou do PP. Não sei de onde Marcelo tirou isso. Talvez tenha sido infeliz nessa colocação, acredito até que ele venha retificar esse erro verbal que ele cometeu, pois não tem nenhum complô. A Casa hoje tem 63 deputados e simplesmente ninguém é contra a figura ou a pessoa de Marcelo. Nós somos contra a reeleição de Marcelo. Então não tem complô nenhum. Isso é uma ilação sem fundamento.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – O que mudou dos outros anos para este, em relação ao apoio do PSD, já que, quando Nilo tentou o quarto e o quinto mandatos, o partido o apoiou, mas agora fala em mudança? Por que a alteração no discurso?

AC – Porque nas três últimas eleições teve a candidatura de Elmar Nascimento (DEM), em 2007, e teve a candidatura de Rosemberg (PT), em 2014, que desistiu praticamente na véspera da eleição. Então, na verdade, esse desejo de mudança já vem das três últimas eleições. As duas últimas eleições de Marcelo não foram pacíficas. Quando Rosemberg desistiu, a bancada do PT saiu da votação. Se o PT naquela oportunidade saiu da votação, é porque não concorda com a reeleição. Se a oposição foi até o fim com a candidatura de Elmar também não concordava com a reeleição. Então, o nosso partido, como viu que ele era candidato único na última eleição, não havia também porque ficar contra. Mesmo conscientes de que a reeleição não era o melhor caminho. Mas se o cara é candidato único, não temos como exercitar o voto em branco, que não deve ser praticado por ninguém.

.ba – Marcelo Nilo disse que já tem cerca de 30 votos mas a gente vê exatamente isso que o senhor disse. Dentro do PT, se fala que alguns deputados não votariam nele por causa do desgaste que houve na candidatura de Rosemberg. Ele já não tem o PSD e o PP, em tese. No PDT, alguns deputados parecem ser próximos a ele, mas o presidente do partido disse que não haverá dissidência. A oposição ainda não se definiu. Com quantos votos o senhor acredita que conta hoje?

AC – Olha, eu conto com os votos do meu partido, com os votos da aliança que fizemos com o PP, temos o PDT e estamos tentando conquistar a oposição para nos apoiar. A oposição no momento está como o fiel da balança. Se a oposição pender para o nosso lado, a gente chega à vitória. Se a oposição pender para o lado de Marcelo, ele irá renovar o seu mandato. A oposição conta com 21 membros e é um terço da Casa. Se você somar o nosso partido com o PP e o PDT, é praticamente o mesmo número. Ou seja, um terço com a gente, um terço com Marcelo e um terço com a oposição. Então, quem juntar os dois terços será o presidente, com certeza.

“A oposição no momento está como o fiel da balança. Se a oposição pender para o nosso lado, a gente chega à vitória. Se a oposição pender para  o lado de Marcelo, ele irá renovar o seu mandato.”

.ba – Como tem sido feita a negociação com a oposição? O senhor tem promovido reuniões?

AC – Tenho conversado com todos da oposição, com os que tive oportunidade de conversar. Já estive com o prefeito ACM Neto, já conversei com o presidente do PMDB, deputado Lúcio Vieira Lima, externando o nosso desejo de concorrer, pedindo o apoio. Assim como Marcelo já foi atrás deles pedindo o apoio e agora estamos aguardando a decisão deles para ver de qual lado eles irão seguir. Espero e torço que venham para o meu lado e não para o de Marcelo.

.ba – Dizem que ACM Neto é o grande líder da oposição na Bahia. O senhor achou que o prefeito de Salvador foi simpático à sua candidatura?

AC – Olha, o prefeito, com quem tenho relação pessoal de outros tempos, não foi contrário ao nosso nome, mas disse que quer ouvir toda a sua base para no momento certo chamar para definir quem eles irão apoiar.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – É possível que a oposição apoie a sua candidatura na Assembleia e haja uma reciprocidade do PSD em relação ao candidato da oposição na UPB (União dos Municípios da Bahia)?

AC – Não temos visto nem sabemos ainda quais serão os nomes que serão postos para a UPB. A gente vê aí que tem um de Euclides da Cunha, tem um de Bom Jesus da Lapa, mas a UPB não tem nada amarrado.

.ba – O candidato mais forte é Eures Ribeiro (PSD). O senhor se sentiria inclinado a apoiar Eures, que é ex-deputado da assembleia e do seu partido?

AC – Eu não estive com o prefeito (de Bom Jesus da Lapa) Eures. Vi somente pelos jornais que ele é candidato, mas não tenho nada de ordem pessoal com Eures como não tenho com nenhum. Só que acho que eleição de Assembleia é uma coisa e eleição de UPB é outra coisa. São instituições totalmente independentes.

.ba – Não haver essa amarração então de a oposição apoiar um candidato em função da UPB?

AC – Não. Até porque a UPB são 417 prefeitos, é um colégio eleitoral muito grande e o nosso colégio eleitoral na Assembleia é de 63 deputados. Fazer uma amarração é muito difícil. Acho que a UPB é uma maneira de os próprios prefeitos escolherem aqueles que podem melhor representá-los, defender os interesses da classe dos prefeitos. Não estamos imbuídos nessa luta. Estamos centrados na eleição da Assembleia. Não posso desviar o foco.

“O presidente Marcelo está sendo excludente. Muito pelo contrário, na minha chapa eu vou convidar até alguém do partido dele para fazer a minha chapa porque eu quero um consenso na Assembleia em prol do meu nome”

.ba – Agora, quanto à Mesa Diretora, o presidente Marcelo Nilo disse que já fechou todos os cargos. Chegou a dizer que, caso o PP e o PSD mudem de ideia e decidam apoiá-lo, já estarão fora da Mesa. O senhor já tem alguma definição também quanto a isso?

AC – O presidente Marcelo está sendo excludente. Muito pelo contrário, na minha chapa eu vou convidar até alguém do partido dele para fazer a minha chapa porque eu quero um consenso na Assembleia em prol do meu nome. Não quero briga. Eu quero paz na Assembleia. Não sei porque externar esse rancor de dizer que o PSD e o PP estão fora da chapa dele. Evidentemente estaremos fora da chapa dele porque a chapa dele não será vitoriosa. A chapa vitoriosa será a nossa. Mesmo a gente construindo essa vitória, irei convidar um membro do partido dele para fazer parte da nossa Mesa Diretora, assim como dos partidos que estão gravitando em torno dele. A nossa candidatura é uma candidatura de coalizão e não de exclusão e, nesse caso, o presidente Marcelo já excluiu o PSD e o PP.

.ba – O senhor acredita que alguém do PSL pode apoiar a sua candidatura contra Marcelo Nilo?

AC – Olhe bem, lá são 63 deputados e eu vou pedir voto até a Marcelo Nilo, entendeu ? Vou pedir voto a todos. Como já votei nele quatro vezes, vou ver se pelo menos uma vez ele vota comigo. Vou ficar muito grato e lisonjeado se eu tiver o voto do deputado Marcelo, que é uma pessoa que pode desistir da candidatura e vir a ser um secretário do governo Rui Costa. Então, vamos ver aí.

.ba – De onde é essa informação de que ele poderia ser secretário? A gente já perguntou a ele e ele negou…

AC – Eu não sei de onde é essa informação. A gente ouve sempre nos corredores, na famosa rádio peão, que ele poderia ser um secretário de Estado. Agora, não quero briga com o presidente, eu quero paz. Fiz um discurso de encerramento do ano pregando que podemos discordar sem discórdia, como é o nosso caso. Estamos discordando da recondução dele, mas eu eu não quero discórdia com ele. Muito pelo contrário, quero que ele me abrace se eu for vitorioso, como eu iria abraçá-lo se ele fosse vitorioso. Queremos manter a base unida sem nenhum ressentimento, nenhuma mágoa. A eleição passa e as amizades continuam.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
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.ba – O governador deu uma declaração em que disse que iria interferir na briga pela presidência da Assembleia. O senhor acha que ele deve fazer isso? Caso ele faça essa interferência, de fato, o senhor não acha que ele vai acabar beneficiando Marcelo Nilo?

AC – Quando eu lancei minha candidatura, quatro semanas atrás, eu fui almoçar com o governador Rui Costa e externei o desejo de ser candidato à Assembleia. Em nenhum momento ele disse que eu não fosse e nem me aconselhou a não colocar o meu nome. Então, a partir do momento que o governador disse que ficaria neutro no processo de sucessão da Assembleia, eu acredito na palavra do governador e acho que ele não vai interferir. Acho que o que o governador vai fazer, é baixar o tom do presidente Marcelo, que fica aí com essas ilações dizendo que Otto Alencar e João Leão estão com complô contra ele, sendo que não existe nenhum complô contra ele. Eu acho que João Leão e Otto Alencar são duas grandes lideranças na Bahia e quem quer ser presidente da Assembleia, ou quem quer galgar qualquer cargo político no cenário baiano, é de suma importância contar com o apoio de João Leão e Otto Alencar

.ba – A oposição tem um discurso mais acirrado, em que acusa Nilo de ser uma espécie de líder do governo camuflado, que Zé Neto seria apenas pró-forma. O senhor acredita que Rui Costa pode ponderar esse fator na disputa?

AC – Eu acredito que não. Zé Neto tem feito um bom papel como líder do governo. Essa tese de que era Marcelo era quem fazia o papel da liderança, eu discordo, porque Zé Neto, ao longo desse tempo, aprovou os projetos do governo na Assembleia e eu acho que  muitas vezes ficam dourando a pílula de que Marcelo era o líder do governo, mas eu não vejo e nunca vi isso na Assembleia.

.ba – O senhor não vê essa atuação dele? Porque para nós, que cobrimos, vemos muito isso. Muitas vezes há uma dificuldade na bancada do governo para votar certos projetos e Nilo vai lá, conversa com um, conversa com outro, acalma as coisas…

AC – É porque muitas vezes existem pessoas que criam dificuldades para colher facilidades.

.ba – É o caso de Nilo?

AC – Isso fica em entrelinhas.

“Eu não posso dizer que [a AL-BA] seja uma extensão do governo. Mas, a partir do momento em que o governo manda os projetos e eles são aprovados, não deixa de ser uma parceria muito boa com o governo”

.ba – Mas o senhor, enquanto presidente, vai agir como um presidente independente ou como um deputado do governo?

AC – Eu quero ser presidente para a Assembleia ter o seu devido papel de legislar, aprovar as leis, discutir as matérias até a exaustão para que a sociedade tenha conhecimento e que a Assembleia tenha o seu papel, na qual ela foi instituída desde a sua fundação, que é a sua independência e harmonia. Vamos fazer uma presidência em harmonia com o governo do Estado e também não estarei lá para prejudicar o governo. Se eu estiver prejudicando o governo nos seus projetos, eu estarei prejudicando a sociedade. Irei respeitar as posições contrárias, dar espaço para as comissões onde serão debatidos os projetos, para que os deputados de oposição também tenham o seu espaço. Acho que os deputados de oposição não podem ficar simplesmente como mero coadjuvantes do processo legislativo. A oposição tem que ser respeitada e, para ser respeitada, ela tem que ter o seu devido espaço, a sua devida prerrogativa e debater os projetos. Então, a Assembleia não será meramente uma extensão do governo. Será um poder com harmonia com o governo e lutando para que a gente consiga dar sequência ao crescimento do estado.

.ba – O senhor diria que hoje a Assembleia é uma extensão do governo?

AC – Olha, eu não posso dizer que seja uma extensão do governo. Mas, a partir do momento em que o governo manda os projetos e eles são aprovados, não deixa de ser uma parceria muito boa com o governo. Acho que todo governador quer ter uma parceria com a Assembleia, assim como todo prefeito quer ter uma parceria com a Câmara de Vereadores. Só temos que respeitar as posições diferentes. É uma casa de iguais, mas é preciso respeitar as posições divergentes.

.ba – Outra acusação comum que se faz na Assembleia Legislativa, principalmente agora quando reaparece o debate sobre o sexto mandato de Marcelo Nilo, é a necessidade de fazer algo no regimento que impeça a continuidade ilimitada no poder. O senhor pretende, caso seja eleito presidente, diminuir a quantidade de reeleições ou até mesmo não ser candidato à reeleição?

AC – Nós iremos ser um dos grandes incentivadores de encerrar a estrutura da reeleição. Acho que, em uma Casa de 63 deputados, todos podem pleitear ser presidente. Ali não tem um melhor que o outro. Então, no momento em que você acaba com a reeleição dentro da Mesa do Legislativo, você dá oportunidade para outros. Então por exemplo, se um cara se elegeu hoje, em dois anos ele não pode disputar a reeleição. Nós temos que dar esse passo, como no Congresso Nacional já é assim. Então nós temos que seguir o exemplo da Câmara alta, onde não tem reeleição.

.ba – Então o senhor não vai ser candidato a reeleição, caso seja eleito?

AC – Não sou candidato àa reeleição e vou lutar contra a reeleição.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba

 

.ba – O senhor pode fazer um acordo com a oposição, justamente com essa bandeira de ‘não sou candidato à reeleição, a próxima é de vocês’ para conseguir o apoio da bancada?

AC – Essa legislatura se encerra daqui a dois anos. Ninguém sabe quem vai ser reeleito ou eleito [governador e deputados], então não podemos fazer nenhum acordo porque não sabemos o que vai acontecer daqui a dois anos. Seria uma futurologia infundada.

.ba – Ainda sobre regimento, há muitas críticas sobre a idade do regimento, que tem quase 30 anos, correto ? O senhor vai revisar as regras da Casa? Não só fazer mudanças pontuais, mas fazer uma revisão geral do regimento?

AC – Correto. Nosso regimento é muito antigo, é um regimento geriátrico. Todo ano é feita uma comissão para discutir o regimento, mas essa comissão não anda. É um compromisso meu também que esse regimento seja mudado. Precisamos absorver ideias e artigos de outras assembleias, até pegar alguns capítulos do regimento do Congresso Nacional, para que a gente tenha modernidade na Casa. Não podemos hoje, em pleno século 21, estar com um regimento que acredito ser do século 20, se não for do século 19 [risos]. Então, nós realmente precisamos mudar o regimento da Casa, visto que como está fica difícil.

.ba – Que ponto o senhor destacaria de mais crítico?

AC – As discussões de projetos, por exemplo, acho que nós temos que estabelecer, colocar no regimento que temos que ter uma semana para discutir e aprovar projetos dos próprios deputados. Não podemos ficar literalmente subordinados a votar utilidade pública e de cidadão, medalhas e comendas. Acho que precisamos priorizar projetos. Se o projeto for ruim, que o governo vete. O que não podemos é ficar na Casa sem legislar, esperando chegar o projeto do Executivo para que a gente se reúna e vote. Aí a maioria chega lá em regime de urgência, chega lá, discute no plenário, vota no plenário, mas acaba não fazendo o papel de legislativo. O papel do legislador é debater até a exaustão esses projetos nas comissões temáticas, para que possamos ser esse elo do parlamento com a sociedade baiana.

“As decisões são todas monocráticas. Tudo que é feito na Casa é por decisão do presidente. Então, quando é uma coisa boa, é o presidente que aprova e faz tudo. Quando é algo que pode haver conflito com a mídia, aí o presidente leva para a Mesa Diretora.”

.ba – Além do compromisso de revisar as questões do regimento interno, quais as principais bandeiras do senhor como candidato a presidente da Assembleia?

AC – A bandeira já dita de não reeleição, bandeira de um dia na semana ser destinado a projetos dos parlamentares, enxugar a Assembleia, analisar tudo o que tem na Assembleia, das despesas, para que a gente enxugue e dê um exemplo para a sociedade de que, nessa crise, a Assembleia estará dando a sua contribuição. Evidentemente, não estarei lá para tirar benefícios instituídos por lei, mas evidentemente aqueles órgãos da Casa que têm gorduras, nós temos que tirá-las. Não será nenhuma perseguição, não será uma caça às bruxas, não será retaliação ao presidente Marcelo, mas irei montar uma força-tarefa para que se estude toda a Casa para ver onde tem gorduras que precisam ser cortadas, sem que fique caracterizado como perseguição. Outra coisa é que a Mesa Diretora da Casa é uma mesa decorativa. As decisões são todas monocráticas. Tudo que é feito na Casa é por decisão do presidente. Então, quando é uma coisa boa, é o presidente que aprova e faz tudo. Quando é algo que pode haver conflito com a mídia, aí o presidente leva para a Mesa Diretora. Eu acho que a Mesa Diretora da Casa tem que ter o seu real papel, para que as decisões não sejam tomadas apenas pelo presidente e para que sejam tomadas por um colegiado, que são os nove membros da Mesa, que foram eleitos para isso. Não devemos ter uma Mesa Diretora para simplesmente chegar lá no dia das sessões e ficar sem definir nada, sem participar da gestão da Casa.

.ba – Marcelo Nilo diz que a Assembleia baiana é uma das mais austeras do país, uma das mais baratas, mas o senhor fala que ainda tem gordura para ser cortada, correto?

AC – Eu estou dizendo que vamos montar uma equipe para analisar e cortar as gorduras que existem na Casa. Eu não tenho nenhum levantamento sobre o que tem em excesso. Então, não vou ser leviano e dizer aqui a vocês que vou cortar tudo. Vou mandar fazer um levantamento, uma auditoria, para averiguar o que há de excesso e precisa ser cortado. Porque, muitas vezes, quando a pessoa está há dez anos no poder, não é nem por maldade, mas sempre vai criando alguma coisa e, quando chega um presidente novo, ele pode ter até mais coragem de cortar do que aquele que está sucedendo a si próprio. Esse vai ser o nosso papel, se tivermos que dar uma enxugada na máquina.

.ba – Uma coisa que se diz é que Marcelo Nilo tem os deputados ‘na mão’ justamente por isso. Que os 63 deputados têm algum cargo de liderança ou algum cargo na Mesa Diretora. Acaba que todo mundo tem algo a mais, de verba de gabinete, ou é líder de partido, líder de bancada, presidente de comissão e por aí vai. O senhor vai interferir nos benefícios que os deputados já conquistaram?

AC – Não vou interferir porque tudo isso foi instituído por lei. Existem as lideranças. Essas lideranças e presidências de comissão vão ser mantidas. Os nove membros da Mesa Diretora vão ser mantidos. Não tem porque cortar. Muitas das coisas que têm na Assembleia são efeito-cascata. Aprova-se na Câmara Federal e aqui só faz seguir. Se a Câmara Federal cortar, evidentemente temos que cortar, pois somos indexados com a Câmara Federal.

Foto: Izis Moacyr/ bahia.ba
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.ba – Por exemplo, o Conselho de Ética e a Corregedoria não funcionam. São apenas cargos…

AC – Precisam funcionar. O Conselho de Ética precisa funcionar. A Corregedoria precisa funcionar. Se não funcionam, aí já é um problema do corregedor e do Conselho de Ética, mas precisam funcionar.

.ba – Todo ano Marcelo Nilo diz que vai publicar uma lista com os salários dos servidores e não cumpre. O senhor vai fazer isso? Todo ano ele renova essa promessa…

AC – Entenda bem. Eu acho que o salário do servidor, até institucionalmente, é proibido você declarar. Você não pode abrir o contra-cheque de um servidor…

.ba – O STF já autorizou.

AC – No portal da transparência da Assembleia deve ter a obrigação de ter essa transparência. Isso é o normal no Executivo e no Legislativo.

.ba – Mas vai ser uma preocupação de Ângelo Coronel exercer a transparência?

AC – Os dados serão transparentes dentro da legislação. Irei seguir os ditames da lei.

“Seguirei o caminho que o senador seguir juntamente com o partido. […] Eu sou um homem de partido. Se o partido definir isso, não serei eu a ovelha negra que ficará contra a decisão partidária.”

.ba – Para encerrar, fala-se muito que, em 2018, ACM Neto, que é prefeito de Salvador, será candidato a governador do Estado. Há também uma teoria de que o PSD, que é o partido do senhor, pode migrar de lado ou sair independente. Qual a sua posição em relação a isso? O senhor se compromete a ser deputado aliado à reeleição de Rui Costa ou é uma coisa que precisa ser avaliada depois?

AC – Olha, eu sou um homem de partido, sou liderado pelo senador Otto Alencar e seguirei o caminho que o senador seguir juntamente com o partido. O senador tem dito que vai reunir o partido, para que o partido tome uma posição. Temos 83 prefeitos na Bahia, quinhentos e tantos vereadores, cinco deputados federais, sete deputados estaduais. Ou seja, vamos sair com uma decisão colegiada. No momento, estamos na base do governador Rui Costa e só vamos discutir política, como já foi dito pelo senador, em março de 2018. A vida é uma sequência de fatos e nós não temos como prever com antecedência. Não temos nenhum problema com o governador Rui Costa. Temos um tratamento adequado com o governador Rui e também nutrimos e temos laços de amizade com os outros grupos políticos da Bahia. Tanto de situação quanto de oposição. Acho que, para você ser situação ou oposição, não precisa ser inimigo. Graças a Deus, o PSD é um partido que está hoje na base do governador, mas nós temos laços de amizade com os outros grupos políticos. Como já aconteceu no passado, que quem hoje está na oposição ao governador, já teve laços políticos com ele.

.ba – Então o senhor não acharia algo constrangedor para o PSD porventura aprovar um apoio a ACM Neto em 2018 ?

AC – É tudo uma questão de partido. Eu sou um homem de partido. Se o partido definir isso, não serei eu a ovelha negra que ficará contra a decisão partidária. Mas te digo que hoje nós temos um tratamento muito bom com o governador Rui Costa e vamos ver o que vai acontecer até 2018. Ainda tem muita água para rolar debaixo dessa ponte.

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