Publicado em 23/06/2018 às 10h30.

Psicólogos defendem preparação emocional permanente de jogadores

Questionar choros em público faz parte da cultura brasileira

Agência Brasil
Foto: Henry Romero/ Reuters
Foto: Henry Romero/ Reuters

 

Victor Chagas

Alvo de críticas nas redes sociais e assunto de grande parte dos comentários hoje (22), o choro do atacante Neymar ao final do jogo da seleção brasileira é interpretado por psicólogos como uma catarse emocional, resultante de uma grande pressão. Especialistas no assunto defendem que as equipes tenham uma preparação mais sólida e contínua para que o fator psicológico não entre em campo.

Para o membro do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, Rodrigo Acioli, faz parte da cultura brasileira questionar choros em público e classificá-los de despreparo emocional. Segundo ele, muitas pessoas avaliam o fato de chorar como apenas um sentimento ruim, mas “não necessariamente” a atitude do craque brasileiro foi sinal de fraqueza.

“Acabou um jogo difícil, estressante. A gente imagina que ele sinta um peso nas costas e quando jogo acaba, essa tensão toda, eles conseguem fazer os dois gols. Só ele pode falar o que sentiu na hora, mas há uma impressão de catarse, um estouro de emoção no finalzinho”, afirmou Acioli.
Relacionando a cobrança da sociedade brasileira, amante do futebol, com a decepção pelas derrotas da última Copa do Mundo, ocorrida em casa, Acioli lembra que a pressão em cima de Neymar foi crescendo ao longo do tempo, ainda mais levando em conta a atuação do jogador português Cristiano Ronaldo.
“Já existia uma expectativa com relação ao Neymar. Quatro anos depois, ele passa a ser a figura principal da seleção. O Cristiano Ronaldo [jogador de Portugal] já chegou fazendo três gols de primeira. As pessoas botaram pressão nele [Neymar] e no Messi… Aí acontece o jogo de hoje, ele consegue fazer o segundo gol na prorrogação e cai no choro nessa possível catarse. Pra variar, ao final disso tudo, metade da população cai em cima dele, questionando ou não a maneira como reage ao final do jogo. Então o cara é vigiado o tempo inteiro”, analisa.

Para o psicólogo do Esporte e presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac, o atacante brasileiro é um “personagem polêmico” que gera “quase uma discussão política” no país entre os que o julgam e condenam, e os que o inocentam.

“Na verdade, não cabe a nós julgar ninguém e sim perceber que não só o Neymar, mas toda essa seleção vive sempre no limite do extremo do controle emocional e qualquer partida que passe por algum tipo de dificuldade e o emocional é testado, a gente percebe que os jogadores e o time como um todo não estão preparados para um desafio dessa magnitude”, testemunha o especialista, há 29 anos na área.

Cozac concorda que o momento do choro foi o de extravasar a emoção e que reações desse tipo são naturais também em outros esportes, ainda mais se tratando de atletas cobrados nacional e internacionalmente. Do ponto de vista da preparação mental, porém, o psicólogo critica os tabus da sociedade brasileira quanto ao tema e defende que o jovem de 26 anos poderia aprimorar o rendimento.

“Eu percebo que se o Neymar fizesse um trabalho mais focado nesse plano do autocontrole, do controle das próprias emoções e reações, sem dúvida ele ganharia muito com o investimento desse trabalho. Ele seria muito beneficiado”, aponta.

Depois do jogo, o atacante respondeu às críticas e disse que o choro foi de alegria, superação e de garra. O zagueiro e capitão Thiago Silva comentou o assunto na saída do gramado. “Acho que tem que desabafar, acredito que ele tenha tirado um grande peso das costas, para o terceiro jogo acho que ele vai estar um pouco mais tranquilo, e isso faz bem para todo mundo”, disse, em entrevista.

Preparação – Sobre o grau de interferência do fator psicológico em partidas decisivas, Rodrigo Acioli cita o exemplo de times que sofrem com o esquema tático adversário para o qual não estavam preparados e perdem a capacidade de reação. “Às vezes, quando eles começam a tomar os gols, como aconteceu no 7 a 1, eles ficam até perdidos e desmontam. Parece que ficam anestesiados e não conseguem responder. É como se fosse uma ‘estupidez emocional’. Eles são pessoas competentes inteligentes e habilidosas para aquilo, mas naquele instante aconteceu alguma coisa que os paralisam durante alguns segundos e não conseguem fazer algo que estão aptas a fazer”, disse.

João Ricardo Cozac concorda que o trabalho de médio e longo prazo é importante para a preparação psicológica antes da Copa do Mundo. “Não há a menor condição de você fazer um trabalho emergencial. Os resultados não são eficientes. Eu não acredito nesse tipo de ação. O que eu acredito é a presença e a sensibilidade de comando do [técnico] Tite podem amenizar um pouco os danos emocionais que a falta de um trabalho sério, coerente e científico poderia proporcionar para essa equipe”, conclui.

A Agência Brasil entrou em contato com a assessoria de imprensa da CBF para saber mais detalhes sobre a preparação psicológica dos atletas da seleção brasileira, mas não recebeu retorno até o fechamento da reportagem.

Também em entrevista após o jogo, o técnico Tite disse que é “desumano” colocar a responsabilidade apenas em um jogador. “O Neymar ficou três meses e meio parado e a partida anterior foi a primeira. Ele é um ser humano, precisa de tempo para retomar o padrão alto. Mas antes de um padrão alto, precisa de um time forte, de não ser dependente”.