Publicado em 19/11/2016 às 09h00.

Calero detalha pressão que sofreu de Geddel para liberar obra em Salvador

Ex-ministro da Cultura acusa o ministro da Secretaria de Governo de querer liberação do Iphan nacional para construção de prédio de luxo na Ladeira da Barra, onde comprou um apartamento

Redação
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

 

O ex-ministro da Cultura,  Marcelo Calero,  concedeu uma entrevista à Folha de S. Paulo deste sábado (19) detalhando as suas motivações para pedir exoneração da pasta. Conforme Calero, o ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima (PMDB) o pressionou a produzir um parecer técnico para favorecer seus interesses pessoais na liberação do La Vue Ladeira da Barra, empreendimento imobiliário de luxo nos arredores de uma área tombada em Salvador.

No relato, Calero, que assumiu o ministério após a recusa de diversos atores da cena cultural, disse ter entendido que tinha “contrariado de maneira muito contundente um interesse máximo de um dos homens fortes do governo” e que por isso a sua permanência à frente do cargo era insustentável.

“Foi logo que tomei posse, não demorou mais do que um mês. Depois desse recurso não tomei mais conhecimento. Até que, no dia 28 de outubro, uma sexta-feira, por volta de 20h30, recebo uma ligação do ministro Geddel dizendo que o Iphan estava demorando muito a homologar a decisão do Iphan da Bahia. Ele pede minha interferência para que isso acontecesse, não só por conta da segurança jurídica, mas também porque ele tem um apartamento naquele empreendimento. Ele disse: ‘E aí, como é que eu fico nessa história?'”.

Segundo Calero, ele não foi para o governo para “fazer maracutaia”, nem para ceder às pressões de uma pessoa “truculenta” como Geddel.

“Estou fora da lógica desses caras, não sou político profissional. Não tenho rabo preso. Não estou aqui para fazer maracutaia. Nós precisamos ter a coragem de dizer: ‘Daqui eu não passo’. Vou voltar a ser um diplomata de carreira que passou em quinto lugar num concurso, estudando e trabalhando ao mesmo tempo. Se for para fazer errado, vou embora. Ele só me disse que tinha apartamento no prédio em 28 de outubro.”