Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 17/04/2016 às 07h30.
A Constituição e o valor do voto
Como entender a defesa de uma democracia por quem não percebe o desrespeito à própria Carta Magna?
Liliana Peixinho

Se o voto é manifestação de confiança no candidato, com sua propostas apresentadas publicamente, e se essas propostas não são cumpridas, e se pior ainda, as condições de vida são emperradas, em discursos longe da realidade, e isso é fato, o que fazer com o valor do voto? O cidadão comum reage com indignação ao se sentir enganado, em se sentir lesado em direitos sagrados, como beber água pura, respirar ar natural, comer com a dignidade que a saúde precisa, em cuidado e prevenção. Representantes desses desejos, necessidades, direitos, estão por aí, em balcões de negociações desses votos, Brasil afora. Somos obrigados a votar num sistema que não favorece o direito sagrado do valor do voto como gesto de confiança num dizer, expor caminhos que melhore a vida das pessoas, em igualdade de direitos.
Enquanto a Constituição é foco de interpretações diversas entre os “Vossas Excelências” o objeto de sua validade, como lei, que é a defesa da vida coletiva, não entra na pauta de soluções. Problemas gravíssimos, acirrados no decorrer de gestões descontínuas, em desgovernos do Brasil, colocam em xeque, a vida do cidadão desde que sai de casa para se conduzir ao trabalho, no meio desse caminho, ida e volta, e continua em casa, nos desafios da administração doméstica. Se é o voto quem empodera o discurso das promessas/propostas em mandatos, por que não pode ter essse mesmo voto o valor de reclamar, destituir o poder? Assim como se acredita em propostas, há que desacreditar quando os fatos reforçam a distância entre o que se diz, e o que acontece no dia a dia!
Poder do voto!
Se é fato que o país está envolto em sérios problemas de desvios financeiros, recursos que são fruto do dever cidadão, em forma de pagamento de impostos, dinheiro do eleitor, e há uma evidente insatisfação com a administração da coisa pública, como não aceitar que se investigue e se penalize a quem de responsabilidade última? Como entender a defesa de uma democracia por quem não se atente a graves problemas de negação da própria Constituição? O faz de conta não cabe mais numa realidade onde a vida sofre atentado o tempo todo. Discursos, campanhas publicitárias, defesa de Poder a qualquer custo são mecanismos perversos de atentado ao valor do voto como instrumento de cidadania. O que, de fato, a população brasileira está a reclamar? O que dizem as ruas, o que se anseia nas redes sociais, o que clamam as múltiplas vozes, aqui, aí, acolá?
O que dizem as ruas? O que clamam
as múltiplas vozes, aqui, aí, acolá?
O que faz um representante não ouvir a voz do representado? Será suficiente termos metade dos brasileiros, mais um, para achar que a gestão do Brasil precisa cumprir seu papel na eficiência dos serviços públicos? Temos essa eficiência e estamos reclamando à toa? O SUS funciona; pagamos contas de luz e água, sem precisar reclamar; comemos direitinho, em saúde pura vida; podemos passear com nossos filhos nas ruas, sem problemas de segurança; podemos nos deslocar com conforto de tempo e estrutura. Em plena cidadania! Quem dera, porque merecemos isso.
Em meio a um sistema político viciado em processo eleitoral marqueteiramente sujo, onde promessas não são cumpridas, como ditas, é preciso ter coragem e competência para encontrar um caminho que faça o Brasil ressurgir, em sonhos. O juiz Moro marca, historicamente, essa bela passagem para um Brasil desvendado de sujeiras acumuladas, ao tempo. Marca um fazer na Justiça onde empresários e politicos jamais imaginaram estar, presos, fazendo valer o que de fato precisa ser a Justiça, em novo olhar sobre fazer valer o seu nome.
Este domingo, 17 de abril, é Dia da Democracia. Dia de dizer sim à coragem do eleitor em querer mudar, limpar, retirar um a um, cada um, que não cumpra bem o seu papel como representante de desejos, de necessidades cidadãs, garantidas pela Constituição, mas negadas no dia a dia de brasileiros sem acesso a direitos. Mesmos direitos, paradoxalmente, amplamente assegurados em ambientes como o do “foro privilegiado”. O dia seguinte, 18 de abril, será a porta para chamada de novas saídas, até limpar o Brasil, em novos caminhos. E que o tempo seja aliado.
Liliana Peixinho é jornalista e ativista. Fundadora de mídias independentes como Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente (Reaja), Mídia Orgânica. Movimento AMA, Catadora de Sonhos.
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