Manifestantes vão às ruas contra PL que equipara aborto a homicídio
Texto na Câmara prevê prisão de até 20 anos para mulher que abortar; a pena pode ser maior que a do estuprador

Manifestantes realizaram atos nesta quinta-feira (13) em diversas cidades do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, contra o projeto de lei que equipara o aborto a homicídio, e argumentam que a aprovação da proposta, que tramita na Câmara dos Deputados, vai colocar em risco a vida de milhares de brasileiras, especialmente meninas, que são as principais vítimas da violência sexual no país, além de desrespeitar os direitos das mulheres já previstos em lei.
O Projeto de Lei 1904/24 prevê que o aborto realizado acima de 22 semanas de gestação, em qualquer situação, passará a ser considerado homicídio, inclusive no caso de gravidez resultante de estupro. A pena será de seis a 20 anos para mulher que fizer o procedimento.
Atualmente, a legislação permite o aborto ou a interrupção de gravidez em casos em que a gestação decorre de estupro, coloca em risco a vida da mãe e de bebês anencefálicos. Não está previsto um tempo máximo da gestação para que seja realizado. Na legislação atual, o aborto é punido com penas que variam de um a três anos de prisão, quando provocado pela gestante; de um a quatro anos, quando médico ou outra pessoa provoque um aborto com o consentimento da gestante; e de três a dez anos, para quem provocar o aborto sem o aval da mulher.
Na noite de quarta-feira (12), a Câmara dos Deputados aprovou urgência para a votação do projeto de lei, ou seja, o texto pode ser votado diretamente no plenário sem passar por discussão nas comissões.
Em São Paulo, o protesto foi realizado na Avenida Paulista, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), sob gritos de “Criança não é mãe”, “Respeitem as mulheres” e “Fora Lira” [Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados].
Para as manifestantes, a aprovação da proposta vai afetar principalmente as crianças, cujos casos de abuso sexual e gestações demoram a ser identificados, resultando em busca tardia aos serviços de aborto legal. De acordo com dados do Fórum de Segurança Pública, 74.930 pessoas foram estupradas no Brasil em 2022. Desse total, 61,4% eram crianças com até 13 anos de idade.
“Esse projeto de lei é totalmente inconstitucional, uma vez que ele coloca em risco milhões de meninas que serão obrigadas a serem mães dos filhos de seus estupradores e mulheres que serão obrigadas a levar uma gestação sendo vítima de violência sexual”, disse Rebeca Mendes, advogada e diretora-executiva do Projeto Vivas – entidade que atua junto a mulheres que necessitam de acesso ao aborto legal, em entrevista à Agência Brasil.
Outra crítica é que se o projeto de lei for aprovado, a pena para as mulheres vítimas de estupro será maior do que a dos estupradores, já que a punição para o crime de estupro é de 10 anos de prisão, e as mulheres que abortarem, conforme o projeto, podem ser condenadas a até 20 anos de prisão. “Esse PL protege o estuprador, não a vítima. E isso diz muito sobre a nossa sociedade”, acrescentou.
Quem também participou do ato na Avenida Paulista foi Jennyffer Tupinambá, uma mulher indígena do povo Tupinambá de Olivença e que sofreu violência sexual quando criança. “”Estou aqui na Paulista muito emocionada. Fui vítima de violência sexual na primeira infância, entre os 3 e 11 anos, e poderia ter engravidado. Olho isso hoje sabendo que nossos representantes iriam me forçar a ter um filho de um estuprador. Esse é um trauma que até hoje, aos 40 anos, tento superar. E não há superação. Como é que uma vítima, que está totalmente abalada e traumatizada, poderia ser mãe?”, questionou ela. “É inadmissível que hoje o Brasil esteja aceitando isso e que deputados estejam direcionando o que o nosso povo deve fazer”, ressaltou.
No ato, houve críticas ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), por ter colocado o projeto de lei em votação. “Hoje estamos aqui contra o absurdo que foi feito pelo presidente [da Câmara dos Deputados] Arthur Lira, onde ele, em 23 segundos, conseguiu colocar em risco milhões de meninas e mulheres que são vítimas de violência sexual. Nossos direitos foram barganhados em 23 segundos ontem no Congresso Nacional”, disse Rebeca Mendes.
Na Câmara, Lira afirmou que o projeto foi colocado em votação para ser apreciado em regime de urgência após acordo entre os líderes partidários.
Em maio deste ano, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que proibia a utilização da chamada assistolia fetal para interrupção de gravidez. O procedimento é usado pela medicina nos casos de abortos previstos em lei, como o caso de estupro.
Mais notícias
-
Brasil21h40 de 20/03/2026
Fiocruz alerta para alta de Influenza A e aumento de casos de SRAG no Brasil
No Nordeste, a situação é de alerta na maioria dos estados
-
Brasil15h32 de 20/03/2026
Empresário baiano seria dono do Banco Master, diz gestor na CPI
Timerman disse possuir elementos que sustentariam a acusação
-
Brasil10h48 de 20/03/2026
Receita libera download do programa para declaração do Imposto de Renda 2026
Software está disponível desde às 18h desta quinta-feira (19) na página do Fisco
-
Brasil22h00 de 19/03/2026
MEC pune mais de 50 cursos de medicina por desempenho insuficiente
Medidas determinam desde a suspensão do ingresso de novos alunos até restrições ao Programa Universidade para Todos
-
Brasil21h20 de 19/03/2026
Lula critica corte de 0,25% na Selic e propõe divisão de subsídio do diesel com estados
Copom justificou o corte mais conservador de 0,25% devido à volatilidade do cenário internacional
-
Brasil17h59 de 19/03/2026
Falta de combustível pode ocorrer sem ação imediata, alerta sindicato
O sindicado alertou o governo federal sobre riscos no abastecimento de combustíveis no país
-
Brasil21h20 de 18/03/2026
Lula regulamenta ECA Digital e estabelece regras rígidas para influenciadores mirins
Legislação visa criar uma camada extra de proteção para crianças e adolescentes no ambiente virtual
-
Brasil20h40 de 18/03/2026
Governo Federal endurece fiscalização e aciona Polícia Federal contra reajustes nos combustíveis
Ofensiva ocorre em resposta à pressão inflacionária causada pela valorização do petróleo no mercado internacional
-
Brasil11h49 de 18/03/2026
Tenente-coronel da PM é preso suspeito de matar esposa e simular suicídio
Policial foi morta em fevereiro e caso inicialmente foi tratado como suicídio, mas laudos indicaram inconsistências
-
Brasil22h00 de 17/03/2026
Emissões de gases de efeito estufa no Brasil caem 16,7% em 2024
Principal motor dessa queda foi o combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado










