Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba.
DRT: 7543/BA
Publicado em 19/09/2025 às 12h00.
A bizarrice contagiante de Kleber Mendonça Filho em ‘O Agente Secreto’
No auge da carreira, diretor pernambucano mistura folclore, cinema de rua e Carnaval em um thriller político vibrante, estrelado por Wagner Moura
João Lucas Dantas

No ano de 1977, Ernesto Geisel, general do Exército, era o quarto presidente da ditadura militar no Brasil. Em abril daquele ano, foi outorgado o Pacote de Abril, um conjunto de leis que, dentre outras medidas, fechou temporariamente o Congresso Nacional.
Nos cinemas, Tubarão, de Steven Spielberg, tinha recém deixado seu rastro de sangue nas salas de cinemas brasileiros (e do mundo todo), mudando para sempre o cinemão pipoca, e A Profecia, de Richard Donner, era o filme de terror do momento. Mais tarde, Guerra nas Estrelas, de George Lucas, viria cimentar de vez a cultura de blockbusters.
No Recife, as filas do cinema de rua São Luiz lotadas para prestigiar essa grande leva de filmes da época. É neste contexto histórico e político-cultural que somos transportados para a nova empreitada do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho. O Agente Secreto, estrelado por Wagner Moura, é tão vibrante quanto assustador e desconcertante.
O longa, que irá estrear nos cinemas brasileiros no dia 06 de novembro, também representará o país na tentativa de uma vaga entre os cinco indicados a Melhor Filme Internacional no Oscar 2026. Kleber sabe rir das sutilezas do jeitinho brasileiro, ao mesmo tempo que escancara toda a corrupção policial e repressão militar do período retratado.
Na filmografia do diretor, esse, sem dúvidas, é o que ele mais pôde explorar uma grande miscelânea de elementos que o consagraram no cinema. Uma grande mistura de tons de lenda urbana de Recife, com Carnaval pernambucano, thriller político da década de 1970, cinemas de rua, mistérios sobrenaturais e as feridas abertas da história do Brasil.

A bizarrice contagiante de Kleber Mendonça Filho
Após 13 anos desde o lançamento do seu primeiro longa-metragem, O Som ao Redor, o diretor pernambucano pôde consolidar o seu nome muito forte no cenário nacional e internacional de cinema. Desde o já longínquo ano de 2012: Aquarius (2016), Bacurau (2019), Retratos Fantasmas (2023) e agora O Agente Secreto (2025). Olhando em retrospecto, todos os filmes anteriores parecem uma grande preparação para a sua maior empreitada até o momento.
Estrelado, brilhantemente como sempre, por Wagner Moura, o longa parece explorar um pouco de tudo o que já veio antes, além de jogar mais elementos no caldeirão de referências desse grande cientista maluco do cinema. Aqui, os thrillers políticos dos anos 70 parecem ter sido fundamentais para a construção do filme.
Serpico (1973), de Sidney Lumet, O Franco-Atirador (1978), de Michael Cimino, além da tensão e conspiração “hitchcockiana” de Brian De Palma, como Um Tiro na Noite (1981), parecem ter sido muito base para o tipo de construção do protagonista conhecido como Marcelo. E se, nestes outros grandes filmes, vemos Al Pacino, Robert De Niro ou até John Travolta entregando sutis performances dentro de redes de desinformação e corrupção cotidianas, aqui o ator baiano carrega o filme com a mesma leveza, sem dever nada aos grandes nomes hollywoodianos.
Porém, o que encanta mesmo não são as referências gringas, mas sim a brasilidade tão potente nas veias do filme. Se, nos Estados Unidos, vemos sempre Nova York como a cidade-personagem que circunda os personagens, aqui trocamos pela vibrante, colorida e barulhenta Recife, no coração do Nordeste brasileiro. Aqui temos Carnaval, ouvimos a psicodelia de Zé Ramalho na trilha sonora, cachaças sob as mesas, cinemas de rua e as lendas urbanas dignas de toda a criatividade do Brasil.
Além das claras homenagens a Tubarão, de Spielberg, que certamente deve ter mudado a vida do diretor como cineasta e cinéfilo (como não ser impactado?), vemos principalmente toda a capacidade do folclore brasileiro. Ao invés dos mafiosos charmosos dos filmes de Martin Scorsese, a Perna Cabeluda pode ser o grande vilão da nossa história, além do histórico de ataques de tubarões nas praias de Pernambuco.
Aqui, Kleber não tem vergonha de explorar nada disso. Pelo contrário, o folclore local é abraçado com a mesma força que sentimos o peso invisível de se viver em um país onde a democracia foi deixada de lado por 20 longos anos. Tudo tem espaço nas mãos do diretor e roteirista, que nunca perde o equilíbrio na corda bamba em que sempre opera com maestria.
Para não entregar nenhum detalhe, diante de tantas surpresas da trama de 2h40 de duração, a sinopse oficial nos diz que Marcelo (Wagner Moura), um homem de 40 anos, trabalha como professor especializado em tecnologia, sai da movimentada São Paulo e vai para Recife. Ele tenta fugir do seu passado violento e misterioso, com a intenção de começar uma nova vida.
Ali, ele chega na semana do Carnaval, então logo a paz e a calmaria da cidade vão se esvaindo, e, com o decorrer do tempo, percebe que atraiu para si o caos do qual sempre quis fugir. Para piorar a situação, além de Marcelo estar sendo espionado pelos seus vizinhos, vê que a cidade que achou que o acolheria ficou muito longe de ser o seu refúgio.

Elenco brilhante
Wagner Moura volta às suas origens no cinema brasileiro, mais uma vez, como ator, desde Praia do Futuro, de Karim Aïnouz, em 2014. Como diretor, o baiano havia lançado Marighella, em 2019. E que volta triunfal. Longe de maneirismos e exageros, o ator entrega uma performance contida. Sua tensão, dor, felicidade estão sempre no olhar, no andar, na postura e, sempre desconfiado, nas palavras que escolhe com cuidado.
Já tendo trabalhado com outros grandes atores anteriormente, inclusive internacionais, aqui parece ser o elenco mais estrelado do diretor até então. Mesmo com participações pequenas, nomes veteranos brilham igualmente ao lado de figuras emergentes, vide a atriz revelação da série Cangaço Novo, a potiguar Alice Carvalho, que precisa de muito pouco para ser um dos grandes destaques do filme. Com um olhar profundo, parece controlar perfeitamente a sua voz e o seu corpo para entregar uma performance arrebatadora. Que venham muito mais papéis na telona.
Mas, se tem alguém que pode se esperar um consenso de que roubou todas as cenas em que apareceu, é a atriz potiguar de 78 anos, Tânia Maria, que aqui faz a hilária e acolhedora Dona Sebastiana. Ela começou sua carreira artística aos 72 anos, após uma vida inteira trabalhando com artesanato. O que torna ainda mais surreal o fato de a revista norte-americana Variety a apontar como possível indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante no ano que vem. E, caso aconteça, será merecido.
O resto do elenco, em participações de maior ou menor tamanho, também entrega tudo o que pode. Os esvoaçantes cabelos de Maria Fernanda Cândido, muito bem caracterizada para a época retratada, assim como todos, graças a um trabalho de figurinos e maquiagem impressionantes, são tão encantadores quanto a sua presença.
Outros destaques são o carioca Gabriel Leone (Senna), que vem fazendo grandes escolhas na carreira, o pernambucano Thomás Aquino (DNA do Crime), além de belas participações de atrizes como a também pernambucana Hermila Guedes (O Céu de Suely), e até participações internacionais — mas, neste caso, melhor guardar a surpresa.

Simbolismos visuais
O filme segue um grande clima de tensão constante, que é muito bem contrastado pela Recife extremamente viva, colorida, populosa e cheia de graças. Algo inverso, por exemplo, à soturna Salvador, representada por Sérgio Machado em Cidade Baixa, filme que botou Wagner Moura no mapa há 20 anos.
Da aparição do grande tubarão, amplamente visto nos materiais de divulgação do filme, até personagens banhados de confetes e purpurina após voltarem de uma noite de Carnaval regada a muito frevo. As cores são contagiantes, muito bem trabalhadas pela fotografia da russa radicada na França, Evgenia Alexandrova, mostrando também a capacidade de Kleber de realizar uma produção intrinsecamente brasileira, porém com muita contribuição internacional, já que o filme também tem coprodução holandesa e francesa.
O filme assume um ritmo muito semelhante aos grandes thrillers dos anos 70, e tudo isso se deve também às várias metáforas visuais apresentadas ao longo do filme. Muitas coisas não são ditas, e sim mostradas. Desde o tubarão à presença da Perna Cabeluda, é necessário mergulhar nesse mundo louco de um Brasil que era tanto inocente em um sentido da cultura popular, quanto enforcado pela mão invisível da opressão militar, e tudo isso funciona em um equilíbrio perfeito.
Das insuportáveis filas de repartições públicas às delegacias podres, tomadas por policiais corruptos, passando pelos alegres cinemas de rua, somos transportados para uma época muito confusa do nosso país com uma maestria invejável, além do clima constante de filmes de espionagem. Toda a tensão culmina em pontuais explosões de violência, que desafiam os sistemas de som das salas de cinema e deixam os espectadores boquiabertos.

Olhar para trás para pensar o presente
Assim como o sucesso de 2024, Ainda Estou Aqui, o tema do passado sombrio e recente do nosso país ainda nos provoca muito a pensar a respeito do momento político altamente conturbado e polarizado que vivemos. E um país que não se lembra da sua história tende a repeti-la, vide o julgamento de um ex-presidente por tentativa de golpe de Estado.
Então, muito mais do que uma temática importante, Kleber Mendonça Filho entrega um filme que entretém ao mesmo tempo que nos faz lamentar tudo o que já passamos e continuamos vivendo. A trilha sonora incômoda durante atos atrozes nos prende como pequenas moscas assistindo tudo aquilo de camarote, sem poder fazer nada a respeito.
É um ciclo de violência que nunca acaba. Além disso, temas como a importância da universidade pública e da centralização de esforços no eixo Sul-Sudeste também são debatidos. Porém, o filme encerra com um final que pode dividir opiniões em algumas decisões que são, sem dúvidas, corajosas. Mas que, acredito, certamente, ninguém estará esperando.
Mas, se nada disso ainda conseguiu te convencer de que deve ir aos cinemas em novembro, seu ingresso já valeria a pena mesmo que fosse só para assistir às cenas isoladas de Tânia Maria como Dona Sebastiana, uma personagem que já nasce icônica no nosso audiovisual. Que tenha muito reconhecimento no futuro. E que volta triunfal de Wagner Moura a atuar 100% na língua portuguesa novamente.
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