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Publicado em 13/01/2026 às 12h55. Atualizado em 13/01/2026 às 14h58.

Los Catedrásticos retornam aos palcos com riso e música como matéria-prima

Grupo histórico do teatro baiano volta em curta temporada, transformando a sátira em crítica e reflexão coletiva

João Lucas Dantas
Foto: Divulgação

 

Um dos grupos mais tradicionais do teatro baiano está de volta aos palcos, dessa vez, prontos para “Macetar o Apocalipse”. Los Catedrásticos retorna, sempre às sextas e sábados, a partir desta semana, de 16 de janeiro a 28 de fevereiro, no Teatro Módulo, para uma curta temporada.

Los Catedrásticos – Macetando o Apocalipse faz parte da campanha “O Teatro Vai Invadir Sua Praia” (leia nossa cobertura aqui), que reúne oito espetáculos em cartaz na cidade, durante o verão baiano, visando trazer o público de volta para as platéias em um período marcado pelo domínio massivo da música como “única” opção de lazer.

Para celebrar o retorno do coletivo que construiu uma trajetória marcante no teatro brasileiro, apresentando ao longo dos anos diversos espetáculos de grande sucesso que conquistaram o público e a crítica, o bahia.ba conversou com Jackson Costa, que contou tudo sobre a nova montagem.

Nesta nova temporada, o público poderá rever quase todo o elenco original, incluindo o próprio Jackson, Maria Menezes e Cyria Coentro, que retornam ao palco, agora com o reforço de Zéu Britto. Luísa Prosérpio integra a montagem como atriz substituta, assumindo o papel de Cyria nos períodos em que a atriz não pode estar em cena, devido a gravações de outros projetos.

Com direção de Paulo Dourado e produção de Socorro de Maria e Vitor Alves, o espetáculo promete uma abordagem renovada e tão provocativa quanto antes.

O casamento da música com o teatro

Tendo início em 1989, Los Catedrásticos é uma peça que celebra o encontro entre teatro e música a partir de uma linguagem popular, bem-humorada e profundamente conectada à identidade cultural da Bahia.

Misturando canções, cenas cômicas e referências ao cotidiano, o espetáculo transforma o palco em um espaço de crítica social leve, afeto e celebração coletiva, aproximando o público da experiência teatral por meio do riso, da música e da ocupação de espaços não convencionais, reafirmando o teatro como manifestação viva, acessível e presente na vida das pessoas.

“Uma das características de sucesso do teatro baiano, em 1988 com Abafa Banca e a Companhia Baiana de Patifaria, e aí surgiu A Bofetada e, na sequência, após o sucesso inédito deles, veio o Los Catedrásticos, o Bando de Teatro Olodum, um grupo que traz o nome de um bloco afro, que também está ligado à música. Esse teatro baiano leva para o palco muito do que é a Bahia”, relembrou Jackson.

“Um dos nossos grandes méritos é levarmos nós mesmos para os palcos, debatendo e falando da gente, de maneira universal. A gente traz uma questão social através da música baiana. A peça, antes de qualquer coisa, é uma crítica bem eficiente. Não chegamos a fazer julgamento de valores, mas expomos uma coisa que está sendo falada e velada pela estrutura musical”, acrescentou.

Para os que não estão familiarizados com o espetáculo, muito consiste nos atores dissecarem as músicas típicas do carnaval baiano, ao recitarem somente as letras de forma dramática, uma ideia que nasceu do diretor Paulo Dourado.

“Caetano Veloso, para mim, tem a melhor definição, quando ele nos viu em 89 ou 90, na primeira montagem, ele estava com o show ‘Estrangeiro’, e uma semana depois, antes de cantar uma música de Noel Rosa, ele falou: ‘Façam como Los Catedrásticos, prestem atenção na letra dessa música’. Ali ele definiu o que nós somos”, expressou o ator, lembrando com carinho do momento.

“A grande resposta da importância de nós, pessoas do teatro em Salvador, é o próprio público que dá, quando eles se interessam, vão, gostam, para se ver e fazer uma autocrítica. Nossa postura permanece durante os 36 anos, sem nos corromper. Quando o artista começa a se achar, começa a se perder. Temos visto muitos artistas se achando”, pontua.

Foto: Divulgação

Da Axé Music ao pagodão baiano

Após quase quatro décadas em cartaz, entre idas e vindas, sempre com o objetivo de explorar a musicalidade brasileira, sobretudo baiana, claro que muita coisa mudou nesse meio tempo.

Em 1989, o movimento do Axé Music tinha recém começado, após o lançamento do álbum Magia, de Luiz Caldas, em 1985. Nos dias de hoje, o gênero ganhou novos contornos e muitos outros apareceram, como o pagode, o funk, o arrocha.

“Parece que o próprio movimento dá o material que a gente precisa”, vide a referência no título à fala de Baby do Brasil, em resposta a Ivete Sangalo, no Carnaval de 2024.

“Nós vemos uma mudança nas coisas que estão sendo ditas nesse cenário. Se antes, víamos o duplo sentido que vinha desde os forrós antigos, como em ‘Abre as pedras, meu amor / É aí que o peixe esconde quando vê o pescador’ (Riacho da Pedreira, de Quim Barreiros), tem uma coisa ali que tem um certo cuidado. E a Axé Music brincou muito com isso. ‘Vamos abrir a roda / Enlarguecer’ (A Roda, Sarajane), é um exemplo disso, tem um nível ali do que é possível”, explica Jackson.

Com a chegada de outros movimentos musicais, como o pagodão baiano, as letras das músicas passaram a se tornar bem mais explícitas, deixando o duplo sentido de lado.

“À medida que o tempo foi passando e as coisas foram ficando apelativas para conseguir espaço na mídia, o cenário foi mudando e ficando difícil. As letras foram ficando agressivas e tendo sentidos diretos, rasos e ofensivos para a mulher. Nós fomos encontrando dificuldade, porque as letras foram perdendo, para uma dramaturgia, a possibilidade de como criar algo em cima daquilo”, expressou.

“Aquele ingrediente lúdico que existia dentro deste universo foi se perdendo e ficando sem poesia, agressivo. Mergulhar naquele universo fantasticamente absurdo que era o axé no começo foi ficando difícil a ponto de perdermos o interesse em fazer e a gente ia começar a entrar numa seara mais grotesca com a sexualidade”, lamentou o ator.

Foto: Divulgação/ Fábio Bouzas

Os investimentos com o teatro baiano atualmente

A década de 1990 foi extremamente frutífera para o cenário das artes cênicas na Bahia. Grandes clássicos do teatro nasceram na época, como os já mencionados acima, mas também Os Cafajestes, além de ter revelado para o Brasil atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta.

“A gente faz parte desse começo de construção de público e, simultaneamente, criando esse movimento do qual surge essa turma fantástica. Nós construímos um público, que é o grande patrocinador do teatro local, que é a forma que pagamos nossos cachês. Los Catedrásticos têm uma história de 36 anos e nunca tivemos um patrocinador”, conta Jackson.

À época, os apoios de investimento e políticas públicas para a cultura local foram expressivos e lembrados com carinho até hoje pelos artistas que tiveram a oportunidade de trabalhar naquele período.

“Por conta de um movimento que aconteceu naturalmente, de forma coletiva, passamos a ter bons apoiadores; tínhamos um Faz Cultura, uma política cultural que favorecia a cena teatral baiana muito melhor do que nós temos hoje. Mas passamos por uma pandemia, tivemos um governo federal que já passou, que destruiu muita coisa. A gente está reconstruindo essa estrutura”, sinaliza.

“Nós estamos aquém do que podemos ser, do nosso potencial, e muito aquém do que já fomos. Nunca estivemos próximos do que poderíamos ser, porque no dia que estivermos, com certeza, seremos uma potência muito maior do que já é a cultura baiana para o Brasil e para o mundo, mas já tivemos momentos melhores. Essa campanha agora é meio que invadir um território que é nosso, já que não nos dão uma condição mínima que já tivemos”, reivindica o artista.

Foto: Fábio Bouzas/ Divulgação

As emoções de reunir o elenco novamente

Reunindo novamente Jackson, Maria Menezes e Cyria Coentro, ao lado de Zéu Britto — com Luísa Prosérpio integrando a montagem como atriz substituta —, ainda é uma grande emoção para o grupo subir ao palco novamente para apresentar uma peça tão histórica e tradicional para a Bahia.

“Depois de um tempo, foi cada um fazendo a sua carreira solo. E eu sempre observei como é importante a força do coletivo; o teatro funciona mais como grupo do que como elenco. Os dois são bons, mas elenco é quando você é convidado para participar de algo e você tem um interesse particular naquilo. O grupo é o interesse comum, uma família, uma linguagem”, expressou.

A nova montagem não busca apenas reviver cenas do passado; propõe um diálogo com o presente, explorando como a música popular contemporânea reflete e altera nossas formas de conviver. É uma tentativa de atualizar a poética do grupo sem diluir sua crítica, mantendo o humor e a musicalidade como ferramentas centrais.

“A gente começou a sentir que, quando voltamos depois de um tempo, tem uma coisa que vivenciamos enquanto grupo; tem uma coisa que a gente não alcança no individual, por melhores que sejam os trabalhos que façamos individualmente. A gente tem algo que estabelece enquanto coletivo, de quebrar uma estrutura social que acredito que a gente realmente esteja macetando o apocalipse”, celebrou.

“É saber que a minha força é maior quando estou com Cyria Coentro, uma personalidade muito forte enquanto artista, com Ricardo Bittencourt, que não pôde participar dessa montagem agora, mas com a Maria Menezes também e podermos trocar figurinhas com grandes personalidades, que nos inspiram a tirar o melhor da gente, como o Zéu Britto. Los Catedrásticos é a mistura de todas nossas maluquices, que dá uma maior ainda”, concluiu Jackson Costa.

Los Catedrásticos — Macetando o Apocalipse retoma uma tradição significativa do teatro baiano e aposta na força do coletivo para repensar a relação entre palco e público. A curta temporada no Teatro Módulo é uma chance de reencontrar um espetáculo que mistura crítica, música e humor, convidando o público a ocupar novamente as platéias

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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