Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba.
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Publicado em 26/01/2026 às 13h00.
Dylan O’Brien e Rachel McAdams lideram terror bem-humorado em ‘Socorro!’
Sob a direção de Sam Raimi, o filme recupera a veia sangrenta e sarcástica que o consagrou como cineasta
João Lucas Dantas

Foto: Brook Rushton/20th Century Studios
Sam Raimi, célebre diretor da trilogia Uma Noite Alucinante, dos três Homem-Aranha dos anos 2000 e de Arraste-me para o Inferno, retorna ao terror com Socorro! (Send Help, no original), um filme que combina humor cruel, violência cartunesca e tensão física. Sua volta ao gênero que o consagrou devolve aos cinemas uma sensação rara de criatividade e identidade autoral.
A retomada de Raimi à cadeira da direção comandando um filme de terror, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29), é um acontecimento cinematográfico. Trata-se do gênero que não apenas o revelou como cineasta, mas que também deve muito a ele por suas inovações formais e narrativas.

As invenções de Raimi
O diretor ficou conhecido por popularizar, em Uma Noite Alucinante (1981), a chamada “Raimi-cam”, uma câmera subjetiva em movimento rápido e instável que representa a força demoníaca invisível. Com orçamento baixíssimo, Raimi improvisou soluções criativas — câmera presa a tábuas, bicicletas ou carregada por operadores correndo — criando a sensação de que o “mal” atravessa a floresta e os ambientes como um personagem em si.
A inovação não foi apenas técnica, mas narrativa. O ponto de vista virou agente de tensão e ataque, ampliando a imersão sem depender de efeitos caros. Essa linguagem influenciou profundamente o cinema de terror posterior e se tornou marca registrada do diretor, reaparecendo de forma estilizada tanto em Uma Noite Alucinante 2 quanto em outros filmes de sua carreira, inclusive fora do gênero.
Após um longo período de afastamento da direção, tendo lançado apenas dois filmes entre 2013 e 2022 — Oz: Mágico e Poderoso e Doutor Estranho no Multiverso da Loucura — e quinze anos depois de ter dirigido um terror pela última vez, com Arraste-me para o Inferno (2009), o retorno é, de fato, algo a ser celebrado.

A volta sanguinolenta do diretor
Estrelado por Rachel McAdams (Questão de Tempo), em um papel da aparentemente boba Linda Liddle, e Dylan O’Brien (Maze Runner) como o CEO Bradley Preston, e escrito pela dupla Damian Shannon e Mark Swift, o longa é um “terrir” de altíssima qualidade, como não se via há tempos no cinema de gênero.
A dinâmica mistura o isolamento físico de O Náufrago com a tensão psicológica de Louca Obsessão. Após um acidente aéreo, um chefe e sua funcionária são os únicos sobreviventes em uma ilha deserta. Entre conflitos do passado e a luta pela sobrevivência, eles precisam decidir se cooperam ou competem para escapar.
A trama é simples e sem grandes complicações. O roteiro não perde tempo em estabelecer a dinâmica dos personagens e conduzi-los rapidamente à situação extrema do naufrágio em uma ilha deserta, um ponto de partida já bastante explorado, de A Lagoa Azul à série Lost. Aqui, porém, há um diferencial decisivo chamado Sam Raimi.
O diretor imprime seu molho sanguinolento, histérico e altamente bem-humorado, fruto de uma imaginação autoral singular e inconfundível. É essa identidade que permite transformar situações aparentemente banais em experiências grotescas, desconfortáveis e, ao mesmo tempo, hilárias.
Esse tipo de situação poderia facilmente se tornar uma armadilha para um cineasta menos habilidoso, sobretudo pelo confinamento em um espaço reduzido e pela interação constante entre apenas dois personagens — desafio que também recai sobre os próprios atores. Raimi, no entanto, sabe exatamente o que extrair desse cenário e conta com Rachel McAdams e Dylan O’Brien inspirados, ambos exalando carisma e entrega em cena.
O filme chega a flertar com a repetição na metade da projeção, quando parece prestes a perder fôlego. É justamente nesse momento, porém, que a narrativa se reinventa por meio de reviravoltas sucessivas, assumindo uma dinâmica de caça de gato e rato e promovendo uma guinada mais agressiva para o terror. O cineasta solta suas amarras e transforma a experiência daqueles personagens em um verdadeiro inferno.

Pontos de observação
Os efeitos visuais deixam a desejar em alguns momentos mais críticos, especialmente nas criaturas em computação gráfica e em certos cenários excessivamente artificiais. Ainda assim, essas fragilidades são compensadas por um rigor visual, sustentado pela direção de fotografia vibrante de Bill Pope (Matrix), antigo parceiro do diretor, que confere textura, cores vibrantes e personalidade aos ambientes e aos rostos em cena.
Outro grande parceiro do cineasta também está de volta comandando as trilhas sonoras. O maestro Danny Elfman, que já havia feito a trilha de Homem-Aranha, faz trabalho competente construindo a tensão através da música, porém sem entregar nada memorável dessa vez.
Socorro! não pretende reinventar a roda. Sam Raimi jamais demonstrou interesse em fazê-lo e, ainda assim, acabou transformando a linguagem do terror moderno e estabelecendo as bases das adaptações contemporâneas de super-heróis com seus Homem-Aranha. Sua força sempre esteve na forma, no ritmo e na encenação.
O espectador é constantemente submetido a situações tão absurdas que o riso surge como reação imediata à loucura exibida em tela, ao mesmo tempo em que desviar o olhar nos momentos mais grotescos se torna quase inevitável.
O que separa Raimi de tantos cineastas genéricos do terror atual é sua precisão no uso do susto. Aqui, há apenas um jumpscare e ele é suficiente para arrancar um salto da cadeira, tamanha sua imprevisibilidade e eficácia.

Sem concessões
Como se a condução segura ao longo de todo o filme já não fosse suficiente, Socorro! ainda entrega um final catártico, capaz de manter o público em estado máximo de tensão, seguido de uma das transições mais inesperadas da carreira do diretor.
O filme marca a volta de um cineasta cuja ausência foi sentida no cinema de gênero contemporâneo. Um exemplar robusto de “cinemão pipoca”, que reafirma a importância da identidade autoral em um mercado cada vez mais padronizado. Que este seja o início de um retorno duradouro. O cinema, e nós espectadores, ainda precisamos muito de Sam Raimi na cadeira da direção.
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