.
Publicado em 02/02/2026 às 13h40.

Entre oferendas, axé e respeito, Salvador celebra Iemanjá no 2 de fevereiro

Tradição do candomblé, devoção popular e cuidado com o mar marcam a festa dedicada à Rainha das Águas

João Lucas Dantas / Raquel Franco
Mãe Nicinha
Foto: Raquel Franco/ bahia.ba

 

Dia 2 de fevereiro, em Salvador, é dia de saudar a Rainha do Mar, a orixá Iemanjá, na celebração tradicional da cidade que acontece, principalmente, no bairro e nas praias do Rio Vermelho, onde multidões se reúnem ao longo de todo o dia e da noite.

Para os devotos do candomblé e de outras religiões de matriz africana, o significado é ainda mais especial. É o caso de Mãe Nicinha, mãe de santo da casa Ilê Axé Olufanjá, localizada no bairro de Tancredo Neves, que destaca todo o trabalho realizado antes para que esse dia aconteça.

“A gente trabalha um período muito antes para poder chegar nesse dia, que é a festa, e que tem uma ligação direta com o candomblé, porque o presente é para Iemanjá. A gente leva mais ou menos uns 15 dias labutando dentro de casa, fazendo uma coisa, fazendo outra, procurando saber como fazer para não fazer nada errado, procurando saber do que ela gosta, como fazer”, explica Mãe Nicinha ao bahia.ba, durante os festejos nesta segunda-feira (2).

Reverenciada como senhora das águas salgadas, mãe dos peixes e símbolo de proteção, fertilidade e acolhimento, os presentes ofertados a Iemanjá representam pedidos, agradecimentos e demonstrações de respeito, funcionando como uma forma de diálogo espiritual entre os devotos e a divindade. Flores, perfumes, especialmente a alfazema, espelhos e alimentos sempre estiveram associados a esse gesto de devoção.

Com o tempo, a prática ultrapassou os terreiros e ganhou dimensão popular, especialmente na Bahia. Em Salvador, a festa de 2 de fevereiro, no Rio Vermelho, consolidou-se como um grande ritual coletivo, reunindo pessoas de diferentes crenças, inclusive aquelas que não pertencem às religiões afro-brasileiras, mas reconhecem em Iemanjá uma força simbólica ligada ao mar, à proteção e à esperança.

A mãe de santo destaca o tamanho da responsabilidade envolvida no preparo da oferenda. “Nós fazemos de tudo para sair direitinho, levar o presente e chegar no fim da tarde, que é o horário em que o presente sai. A gente fica, faz um xirê. Quando a gente chega, já fazemos um xirê aqui, que é uma obrigação que se faz quando se chega no domingo. E agora estamos esperando o momento de levar para entregar no mar, o presente de Iemanjá”, expressa.

O xirê (do iorubá, que significa “brincadeira”, “roda” ou “dança”) é o ritual central no candomblé e em algumas vertentes da umbanda, no qual os orixás são saudados em uma ordem específica, por meio de cânticos e toques de atabaques. Trata-se de uma roda sagrada que celebra a vida e atua como uma festa pública para os deuses, unindo o Orum (céu) ao Ayê (Terra).

“A responsabilidade não acaba nunca. A gente pode até estar acostumada com a função, com a situação, mas a responsabilidade não muda, não diminui em nada. É a tarefa para a coisa ser cumprida de acordo com a vontade e o gosto do orixá. Enquanto a gente não conclui, a gente não fica satisfeita. A satisfação só chega depois de tudo pronto”, pontua.

“Tem muita fruta, muitas flores, docinhos, coisas que não vão influenciar no mar. A gente coloca, porque é tudo que se dá para Iemanjá. O peixinho vem, come, se alimenta. Então não destrói, não estraga, só serve de alimento. A gente leva e depois tem o resultado, que é o peixe que vem de lá para a gente se alimentar”, conclui Mãe Nicinha.

No candomblé, os peixes são entendidos como criaturas diretamente ligadas a Iemanjá, mãe da vida que habita o mar. Eles fazem parte do seu domínio e simbolizam fartura, continuidade e sustento. Por isso, quando alimentos naturais, como frutas, flores e doces simples, são ofertados de forma adequada, acredita-se que esses elementos retornam ao ciclo da vida sem causar desequilíbrio, sendo absorvidos pela própria natureza.

Ogã Georgino
Foto: Raquel Franco/ bahia.ba

Sucessão e legado na preparação do presente

No processo de preparação do presente no Ilê Axé Olufanjá, Mãe Nicinha conta com o apoio do ogã Georgino, que também é axogum da casa e seu filho. O ogã exerce funções ligadas à música, à organização das cerimônias e à sustentação do axé, enquanto o axogum é responsável pelos rituais de sacralização dos alimentos e dos animais.

“Tudo isso dentro da condição de que eu sou um filho dessa casa e estou aqui para ajudar, como todos os outros, no apoio à minha mãe, a ialorixá de Nanã, que está como responsável pelo presente este ano”, explicou Georgino ao bahia.ba.

“Nós estamos no segundo ano dessa responsabilidade, tanto para ela, como mãe de santo, quanto para a casa como um todo. A partir do ano que vem, essa responsabilidade passa para outra casa de candomblé, e nós voltamos a ser mais um entre tantos, também como espectadores dessa grande festa, como sempre fomos”, completou.

Entre as funções desempenhadas pela casa estão a organização do espaço e o acolhimento das pessoas que chegam para entregar flores e presentes, em uma demonstração coletiva de fé, religião e amor.

“As pessoas vêm com muito sentimento. Muitas passaram por situações marcantes em suas vidas e direcionam isso à energia das águas, que é Iemanjá. Algumas também chamam de Janaína, de Iara, dependendo da sua concepção de fé”, esclarece o ogã.

“Cada um demonstra sua gratidão da forma que consegue, seja por uma doença curada, por um emprego conquistado ou por uma vitória qualquer na vida. As pessoas enfrentam filas intermináveis, debaixo do sol, porque a fé está ali, o amor está ali”, celebra Georgino.

O axogum do Olufanjá destaca ainda que essa manifestação extrapola os limites do terreiro. “A gente acha que o mundo do candomblé são apenas as casas, mas o mundo do culto ao orixá é vasto, tem um horizonte interminável. A gente não consegue mensurar o tamanho da fé das pessoas, o amor que elas têm.”

“Neste segundo ano, o sentimento é de dever cumprido. Fizemos a nossa parte da melhor maneira possível, com seriedade, amor e respeito. É uma entrega completa. Esse sacrifício, para a gente, não é nada. A gente precisa fazer”, concluiu.

Artista plástico Marcelo Gato e seu protótipo de estátua de Iemanjá
Foto: Raquel Franco/ bahia.ba

Demonstração de fé através da arte

O artista plástico Marcelo Gato explicou que o projeto da escultura de Iemanjá negra no Rio Vermelho já passou por todas as etapas de aprovação técnica e institucional.

“Esse projeto já foi aprovado pela Fundação Gregório de Mattos, em toda a parte técnica e artística, além do IPHAN, IPAC, Colônia de Pescadores e do Culto Afro-Brasileiro”, afirmou.

Segundo ele, a iniciativa nasce de uma demanda histórica por representatividade. “Nós sentimos, durante muito tempo, a necessidade de termos aqui exatamente uma Iemanjá que tivesse a representatividade do povo do axé, uma Iemanjá preta.”

O artista destacou ainda o caráter ambiental da obra. “Além dessa referência, a obra também tem um cunho ecológico.” O projeto prevê um sistema sustentável para as oferendas, no qual a água de cheiro será colocada na concha da escultura e recirculada por um sistema hidráulico, evitando a poluição do mar.

“Ecologicamente, o projeto foi pensado justamente para evitar a poluição da casa de Iemanjá, que é o mar”, reforçou.

Estátua de Iemanjá preta por Marcelo Gato
Foto: Raquel Franco/ bahia.ba

 

Outro ponto é o uso consciente das moedas. “A sugestão é que, em vez de jogá-las no mar, as pessoas depositem ali”, explicou, destacando que os valores poderão ser reaproveitados pela Colônia de Pescadores.

Segundo Marcelo Gato, resta apenas a liberação final do Executivo municipal. “Como toda a parte técnica e artística já está aprovada pela Fundação Gregório de Mattos, falta agora apenas o prefeito bater o martelo.” A previsão é que a produção ocorra em 2026, com instalação em 2027. “Ela já estará pronta, linda e instalada aqui no nosso Largo”, concluiu.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

Mais notícias

Este site armazena cookies para coletar informações e melhorar sua experiência de navegação. Settings ou consulte nossa política.