Publicado em 06/02/2026 às 11h00.

Há 30 anos, ‘Feijão com Arroz’ levava o axé music da Bahia para o mundo

Daniela Mercury celebra as três décadas do álbum e o anuncia como tema do seu Carnaval 2026

João Lucas Dantas
Capa do disco
Foto: Mário Cravo Neto

 

Com o Carnaval 2026 batendo à porta, chegou o momento de celebrar os 30 anos de Feijão com Arroz, de Daniela Mercury, álbum que se tornou um divisor de águas na história do axé music.

Lançado em 1996, o quarto disco de estúdio da cantora consolidou a artista como principal nome do movimento baiano e ampliou, de forma decisiva, o alcance internacional do gênero.

Nesta sexta-feira (6), Daniela celebrou a marca simbólica e anunciou que o tema de sua passagem pelo Carnaval deste ano será uma homenagem ao álbum, em publicação nas redes sociais.

“Um disco brasileiro, complexo, que foi a resposta artística de uma pesquisa profunda que fiz durante anos sobre Carnaval, trio elétrico e ritmos regionais brasileiros. Foi o disco que fez o axé music atravessar o Atlântico. Virou um sucesso no Brasil e em dezenas de outros países”, escreveu a cantora.

Para marcar a efeméride, o bahia.ba relembra os principais momentos e contribuições de Feijão com Arroz para a música brasileira e para o Carnaval de Salvador.

Lançado quatro anos após O Canto da Cidade (1992), o álbum chegou em um período em que o axé music já dominava o cenário nacional, impulsionado pelo crescimento dos trios elétricos, dos blocos carnavalescos e pela forte presença da música da Bahia nas rádios e na televisão.

Inserido nesse contexto, o álbum se destacou por ir além da lógica imediatista dos hits carnavalescos, apostando em uma proposta artística mais elaborada, conceitual e musicalmente diversa.

Foto: Reprodução

Conceito e identidade

O título do álbum faz referência ao prato mais cotidiano da culinária brasileira, símbolo de simplicidade e mistura. Metaforicamente, “feijão com arroz” representa a união de diferentes matrizes culturais, especialmente a convivência entre o preto e o branco na formação social e musical do Brasil.

Esse conceito é reforçado pela capa emblemática, com design de Gringo Cardia e fotografia de Mário Cravo Neto, na qual Daniela aparece abraçada a um modelo negro. A imagem se tornou uma das mais icônicas da MPB e foi eleita, em enquete do jornal O Globo, como a melhor capa da história da música popular brasileira.

Daniela Mercury definiu o disco como “muito complexo”, resultado de uma pesquisa profunda sobre ritmos nordestinos, manifestações carnavalescas e tradições afro-baianas. Essa complexidade se revela na riqueza percussiva, nos arranjos sofisticados e na articulação entre referências populares e linguagem pop.

Produção e sonoridade

Com direção musical da própria Daniela e produção assinada por Alfredo Moura e Rildo Hora, dois maestros profundamente ligados à música brasileira, o álbum apresenta uma sonoridade intensamente percussiva.

O repertório dialoga com ritmos como samba-reggae, ijexá, samba de roda e funk, além de flertar com o pop e a MPB.

O disco equilibra faixas festivas e dançantes com momentos mais introspectivos, demonstrando maturidade artística e controle estético. A diversidade musical não soa dispersa, ao contrário, reforça o conceito central de mistura e convivência entre tradições.

Foto: Reprodução

Faixas de destaque

Entre os principais momentos de Feijão com Arroz está Nobre Vagabundo, samba-reggae romântico composto por Márcio Mello, cuja letra aborda o amor livre. A canção se tornou um sucesso imediato nas rádios e um dos maiores clássicos da carreira de Daniela Mercury.

Outro destaque é Rapunzel, faixa acelerada e contagiante, concebida para o Carnaval, mas que ultrapassou as fronteiras da folia baiana. Com refrão simples e ritmo pulsante, a música se consolidou como o maior sucesso internacional da artista, especialmente na Europa.

O álbum também investe no diálogo entre diferentes tradições musicais brasileiras em Minas com Bahia, dueto com Samuel Rosa, do Skank. A faixa promove um encontro simbólico entre a musicalidade mineira e a baiana, resultando em um samba-reggae de caráter mais acústico e afetivo.

À Primeira Vista, balada pop composta por Chico César, representa o momento mais introspectivo do disco. A canção alcançou o topo das paradas e ganhou enorme projeção ao ser escolhida como tema da novela O Rei do Gado, de Benedito Ruy Barbosa, ampliando o alcance de Daniela para além do circuito carnavalesco.

Fechando o conjunto de destaques, Feijão de Corda funciona como uma homenagem direta às raízes nordestinas, mesclando o samba de roda do Recôncavo Baiano com elementos da música sertaneja tradicional.

Desempenho comercial

O êxito artístico foi acompanhado pelo sucesso comercial. No Brasil, Feijão com Arroz vendeu mais de 800 mil cópias até o fim de 1997, recebendo disco de duplo platina da então ABPD. Foi o segundo álbum mais vendido da carreira de Daniela Mercury, atrás apenas de O Canto da Cidade.

No exterior, o desempenho também foi expressivo. O disco teve forte repercussão na França e em Portugal, onde alcançou certificações múltiplas de platina. Estimativas da época apontam vendas próximas a 300 mil cópias na França e cerca de 250 mil em Portugal, números frequentemente citados pela imprensa musical, ainda que variem conforme a fonte.

Em 1997, Daniela recebeu o Prêmio Multishow de Música Brasileira como Melhor Cantora, e o videoclipe de Nobre Vagabundo venceu o troféu de Melhor Fotografia no Video Music Brasil, da MTV.

Impacto e legado

O disco consolidou Daniela Mercury como a principal embaixadora do axé music, ampliando a projeção internacional do gênero e elevando seu reconhecimento artístico.

O álbum também coincidiu com uma mudança simbólica no Carnaval de Salvador, quando Daniela levou o bloco Crocodilo para o circuito Barra–Ondina, que se firmaria como o principal eixo da festa.

Seu impacto se espalhou por toda a cena musical baiana, influenciando artistas como Ivete Sangalo, Carlinhos Brown e Margareth Menezes, que passaram a investir com mais força na fusão entre ritmos regionais, pop e MPB. Três décadas depois, Feijão com Arroz permanece como um dos álbuns mais importantes do axé music e da música brasileira nos anos 1990.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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