
Após um incidente que poderia ter se tornado um caso grave durante o Furdunço, em Salvador, no último sábado (7), quando a parte frontal do trio do grupo Pagod’art emborcou no circuito Ondina–Barra, internautas resgataram uma das tragédias mais marcantes da história do Carnaval soteropolitano para reforçar a importância da vistoria dos trios elétricos.
Trata-se do acidente envolvendo o trio do bloco dos Commanches do Pelô, ocorrido no dia 2 de março de 1987, uma segunda-feira de Carnaval. Na ocasião, o veículo perdeu os freios ao subir a ladeira da Rua Chile, desceu de ré sobre a multidão e provocou a morte de sete pessoas, além de deixar outras 25 feridas.

O que foi o Bloco dos Commanches
O Bloco dos Commanches surgiu em um período em que o Carnaval de Salvador ainda funcionava mais pelo impulso coletivo do que por regras formais. Fundado em 1974, no Pelourinho, como Commanches do Pelô, integrou o grupo dos chamados “blocos de índio” — denominação utilizada à época, hoje substituída por indígenas ou povos originários — muito presentes na festa antes da consolidação dos blocos afro.
Formado majoritariamente por homens negros, jovens da periferia e trabalhadores, o Commanches absorveu grande parte da população negra no Carnaval em um momento anterior ao surgimento de entidades como Ilê Aiyê e Olodum. Fantasiar-se de índio era, naquele contexto, uma forma simbólica de afirmar identidade, força e pertencimento em um espaço público ainda excludente.
A estética do bloco tinha forte influência dos indígenas norte-americanos, especialmente do cinema de faroeste. O nome “Comanche” remete a um grupo étnico do centro-sul dos Estados Unidos, popularizado por produções cinematográficas. Trajes, gritos de guerra e encenações ajudaram a construir essa identidade visual e sonora, o que acabou rendendo aos blocos de índio a fama de violentos.
Musicalmente, os Commanches eram marcados pela percussão no chão, inspirada nas escolas de samba, conferindo ao bloco um caráter compacto e de grande impacto nas ruas. Sem cordas ou separações, avançava em bloco fechado. Para quem estava dentro, era pertencimento; para quem estava à frente, muitas vezes, tensão.
Com o surgimento e fortalecimento dos blocos afro, parte dos foliões migrou para essas novas entidades, que ofereciam uma representação afro-brasileira mais direta. Ainda assim, os blocos de índio continuaram existindo e atraindo quem se identificava com essa ancestralidade.
O que ocorreu em 1987 e o impacto na folia
Segundo reportagens históricas do período, naquela segunda-feira de Carnaval a Praça Castro Alves já estava tomada muito antes da passagem do bloco. Era fim de circuito, ponto natural de encontro de quem vinha descendo a avenida, de pessoas que paravam para descansar ou esperar outros trios. A multidão estava densa e comprimida, sem rotas claras de escape. Não existiam grades, corredores de isolamento ou controle efetivo do fluxo de pessoas.
O jornalista Alexandre Ferraz descreveu o episódio anos depois: “Infelizmente fui testemunha ocular dessa tragédia e até hoje tenho na memória as imagens do caminhão dando solavancos macabros, pois sabíamos que os ‘obstáculos’ que o faziam saltar eram seres humanos sendo esmagados pelas rodas do veículo”.
O acidente teve impacto profundo e duradouro na organização do Carnaval de Salvador, especialmente no que diz respeito à circulação e fiscalização dos trios elétricos. Até então, era limitada e pouco padronizada. Muitos trios eram adaptados de caminhões comuns, sem garantia de que os sistemas de freio e a estrutura suportassem o peso do equipamento e das pessoas sobre o veículo. Não havia exigência rigorosa de vistorias técnicas nem protocolos claros para circulação em vias íngremes, como a Rua Chile.
Após a tragédia, o poder público passou a adotar medidas mais rígidas. Tornou-se obrigatória a vistoria técnica prévia dos trios elétricos, com atenção especial aos sistemas de freio, suspensão e estabilidade. Também foram impostas restrições a trajetos considerados de risco, sobretudo ruas estreitas ou com grande inclinação.
Outra mudança importante foi o controle do público ao redor dos trios. Avançou a implantação de cordas, o isolamento do entorno imediato dos veículos e o reforço da presença de agentes de segurança e trânsito. O episódio também contribuiu para a profissionalização da operação dos trios, com exigência de motoristas experientes e equipes técnicas responsáveis pelo acompanhamento mecânico durante os desfiles.
Em 1989, o radialista Cristóvão Rodrigues, que cobriu a tragédia para a TV Itapoan e a Rádio Sociedade, assumiu a coordenação do Carnaval e determinou que todo trio deveria passar por vistoria. O primeiro barrado foi o de Ricardo Chaves, amigo pessoal de Cristóvão, de quem havia produzido o primeiro disco. Após conversa, a determinação foi mantida.
Como lembrou o jornalista Levi Vasconcelos, em coluna publicada no jornal A TARDE, durante aquela edição surgiu a informação de que um trio sem vistoria desfilava. Ao verificar, tratava-se de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, visitante ilustre. Cristóvão optou por liberar a passagem. O trio de Gonzaga não apresentou problemas, enquanto o de Ricardo Chaves, mesmo vistoriado, adernou na região da Vitória.
“Bendita mistura. O axé do forró foi mais forte que o do axé music”, disse Cristóvão, aliviado.
A tragédia dos Commanches expôs, de forma incontornável, a ausência do Estado na organização da festa. A partir dali, a lógica do Carnaval mudou: vieram as restrições aos blocos de massa, o reforço da fiscalização, o redesenho dos circuitos, a criação de barreiras físicas e protocolos de segurança. O episódio marcou o fim de um ciclo — o do Carnaval entregue ao improviso — e o início de outro, mais controlado, ainda que não livre de contradições.
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