Incidente no Furdunço reacende memória da tragédia dos Commanches no Carnaval
Acidente ocorrido em 1987, que deixou sete mortos no Centro Histórico, marcou uma virada na fiscalização da festa em Salvador
João Lucas Dantas
Capa da Tribuna da Bahia de 1987
Após um incidente que poderia ter se tornado um caso grave durante o Furdunço, em Salvador, no último sábado (7), quando a parte frontal do trio do grupo Pagod’art emborcou no circuito Ondina–Barra, internautas resgataram uma das tragédias mais marcantes da história do Carnaval soteropolitano para reforçar a importância da vistoria dos trios elétricos.
Trata-se do acidente envolvendo o trio do bloco dos Commanches do Pelô, ocorrido no dia 2 de março de 1987, uma segunda-feira de Carnaval. Na ocasião, o veículo perdeu os freios ao subir a ladeira da Rua Chile, desceu de ré sobre a multidão e provocou a morte de sete pessoas, além de deixar outras 25 feridas.
Bloco dos Comanches do Pelô
O que foi o Bloco dos Commanches
O Bloco dos Commanches surgiu em um período em que o Carnaval de Salvador ainda funcionava mais pelo impulso coletivo do que por regras formais. Fundado em 1974, no Pelourinho, como Commanches do Pelô, integrou o grupo dos chamados “blocos de índio” — denominação utilizada à época, hoje substituída por indígenas ou povos originários — muito presentes na festa antes da consolidação dos blocos afro.
Formado majoritariamente por homens negros, jovens da periferia e trabalhadores, o Commanches absorveu grande parte da população negra no Carnaval em um momento anterior ao surgimento de entidades como Ilê Aiyê e Olodum. Fantasiar-se de índio era, naquele contexto, uma forma simbólica de afirmar identidade, força e pertencimento em um espaço público ainda excludente.
A estética do bloco tinha forte influência dos indígenas norte-americanos, especialmente do cinema de faroeste. O nome “Comanche” remete a um grupo étnico do centro-sul dos Estados Unidos, popularizado por produções cinematográficas. Trajes, gritos de guerra e encenações ajudaram a construir essa identidade visual e sonora, o que acabou rendendo aos blocos de índio a fama de violentos.
Musicalmente, os Commanches eram marcados pela percussão no chão, inspirada nas escolas de samba, conferindo ao bloco um caráter compacto e de grande impacto nas ruas. Sem cordas ou separações, avançava em bloco fechado. Para quem estava dentro, era pertencimento; para quem estava à frente, muitas vezes, tensão.
Com o surgimento e fortalecimento dos blocos afro, parte dos foliões migrou para essas novas entidades, que ofereciam uma representação afro-brasileira mais direta. Ainda assim, os blocos de índio continuaram existindo e atraindo quem se identificava com essa ancestralidade.
O que ocorreu em 1987 e o impacto na folia
Segundo reportagens históricas do período, naquela segunda-feira de Carnaval a Praça Castro Alves já estava tomada muito antes da passagem do bloco. Era fim de circuito, ponto natural de encontro de quem vinha descendo a avenida, de pessoas que paravam para descansar ou esperar outros trios. A multidão estava densa e comprimida, sem rotas claras de escape. Não existiam grades, corredores de isolamento ou controle efetivo do fluxo de pessoas.
O jornalista Alexandre Ferraz descreveu o episódio anos depois: “Infelizmente fui testemunha ocular dessa tragédia e até hoje tenho na memória as imagens do caminhão dando solavancos macabros, pois sabíamos que os ‘obstáculos’ que o faziam saltar eram seres humanos sendo esmagados pelas rodas do veículo”.
O acidente teve impacto profundo e duradouro na organização do Carnaval de Salvador, especialmente no que diz respeito à circulação e fiscalização dos trios elétricos. Até então, era limitada e pouco padronizada. Muitos trios eram adaptados de caminhões comuns, sem garantia de que os sistemas de freio e a estrutura suportassem o peso do equipamento e das pessoas sobre o veículo. Não havia exigência rigorosa de vistorias técnicas nem protocolos claros para circulação em vias íngremes, como a Rua Chile.
Após a tragédia, o poder público passou a adotar medidas mais rígidas. Tornou-se obrigatória a vistoria técnica prévia dos trios elétricos, com atenção especial aos sistemas de freio, suspensão e estabilidade. Também foram impostas restrições a trajetos considerados de risco, sobretudo ruas estreitas ou com grande inclinação.
Outra mudança importante foi o controle do público ao redor dos trios. Avançou a implantação de cordas, o isolamento do entorno imediato dos veículos e o reforço da presença de agentes de segurança e trânsito. O episódio também contribuiu para a profissionalização da operação dos trios, com exigência de motoristas experientes e equipes técnicas responsáveis pelo acompanhamento mecânico durante os desfiles.
Em 1989, o radialista Cristóvão Rodrigues, que cobriu a tragédia para a TV Itapoan e a Rádio Sociedade, assumiu a coordenação do Carnaval e determinou que todo trio deveria passar por vistoria. O primeiro barrado foi o de Ricardo Chaves, amigo pessoal de Cristóvão, de quem havia produzido o primeiro disco. Após conversa, a determinação foi mantida.
Como lembrou o jornalista Levi Vasconcelos, em coluna publicada no jornal A TARDE, durante aquela edição surgiu a informação de que um trio sem vistoria desfilava. Ao verificar, tratava-se de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, visitante ilustre. Cristóvão optou por liberar a passagem. O trio de Gonzaga não apresentou problemas, enquanto o de Ricardo Chaves, mesmo vistoriado, adernou na região da Vitória.
“Bendita mistura. O axé do forró foi mais forte que o do axé music”, disse Cristóvão, aliviado.
A tragédia dos Commanches expôs, de forma incontornável, a ausência do Estado na organização da festa. A partir dali, a lógica do Carnaval mudou: vieram as restrições aos blocos de massa, o reforço da fiscalização, o redesenho dos circuitos, a criação de barreiras físicas e protocolos de segurança. O episódio marcou o fim de um ciclo — o do Carnaval entregue ao improviso — e o início de outro, mais controlado, ainda que não livre de contradições.
Procedimentos atuais
Para que um trio elétrico desfile hoje em Salvador, ele precisa superar uma verdadeira “maratona” de fiscalização que vai muito além da mecânica básica. Atualmente, os órgãos priorizam os seguintes pontos apresentados abaixo.
A segurança começa pela estabilidade mecânica, com foco total nos sistemas de freio, suspensão e direção, além da exigência de protetores de rodas (grades laterais que impedem que foliões caiam sob o veículo). Na parte de incêndio, os bombeiros exigem extintores em locais estratégicos, rotas de fuga desobstruídas e a presença de brigadistas treinados a bordo.
No campo da engenharia, é obrigatória a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica), um documento onde um engenheiro assume a responsabilidade legal pela montagem do trio. Por fim, a vistoria checa itens de saúde e ergonomia, como a altura dos guarda-corpos e o estado das fiações elétricas, para evitar choques ou quedas tanto da equipe quanto do público na pipoca.
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba.
DRT: 7543/BA