Publicado em 05/03/2026 às 15h13.

Quarteto premiado do cinema brasileiro se reúne para falar sobre Oscar

Fernanda Torres, Walter Salles, Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho discutiram impacto de "O Agente Secreto"

João Lucas Dantas
Foto: Reprodução – Kleber Mendonça Filho

 

A distribuidora americana de O Agente Secreto, NEON, promoveu um aguardado encontro que reuniu um verdadeiro quarteto fantástico do cinema brasileiro. Os vencedores do Oscar Walter Salles e Fernanda Torres, por Ainda Estou Aqui, conversaram com Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura nesta quinta-feira (5).

Sendo um dos poucos países a conseguir indicação na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar por dois anos seguidos, o Brasil pode se igualar a outras nações que conquistaram o prêmio em anos consecutivos.

A Itália conseguiu o feito três vezes (1956–57, 1963–64 e 1970–71), a França também três vezes (1958–59, 1972–73 e 1977–78), além de Suécia (1960–61) e Dinamarca (1987–88).

Pensando nisso, o encontro simbolizou uma espécie de “passagem de bastão” dos vencedores do último ano para os fortes candidatos ao prêmio em 2026. Também existe a possibilidade de o Brasil se igualar à Argentina, que já venceu duas vezes a categoria, embora não de forma consecutiva.

O que rolou no encontro

A atriz Fernanda Torres, que eternizou a ativista Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, abriu a conversa perguntando à dupla atual como explicar o Brasil ao mundo.

“Kleber e Wagner, tenho uma pergunta. É sempre complicado explicar o que diabos é o Brasil. E, de repente, temos dois filmes concorrendo ao Oscar que dizem algo ao mundo. Então eu gostaria de saber o que vocês acham que está acontecendo para que, de repente, estejamos fazendo sentido para o público internacional”, questionou a filha de Fernanda Montenegro.

Para Kleber Mendonça Filho, diretor de O Agente Secreto, o impacto do filme ultrapassa as fronteiras da América Latina e chega com força aos Estados Unidos e à Europa.

“Acredito que a chave da afeição é algo que continua chegando, e isso une tanto Ainda Estou Aqui quanto O Agente Secreto. Nós lidamos com momentos difíceis, politicamente e socialmente, mas existe um lado muito luminoso nesses filmes. Isso é algo que eu aprendi viajando com o filme e ouvindo as pessoas”, afirmou.

Já Walter Salles acredita que o longa que representa o Brasil este ano ajuda a ampliar a forma como entendemos nossa própria identidade.

“O filme é tão polifônico e cheio de camadas que percebemos que podemos ser maiores do que imaginávamos. De repente, estamos abraçando a cultura do Nordeste e temos orgulho disso como brasileiros. E, fora do Brasil, acho que isso também está ecoando, porque é possível ver uma parte muito diversa do país, com raízes culturais muito fortes — intelectualmente e musicalmente”, afirmou.

“Até a forma de expressar afeto ou humanidade é um pouco diferente. A geografia humana é completamente distinta da do Rio ou de São Paulo. Então o filme amplia a compreensão do que é essa identidade brasileira à qual você se refere”, acrescentou o diretor.

Já o ator baiano Wagner Moura, um dos destaques da temporada de premiações de 2026, afirmou que considera “incrível” esse processo de construção de identidade.

“Isso é algo em que os americanos são muito bons: criar e exportar sua cultura. Todos nós crescemos assistindo a filmes americanos, então nossa compreensão dos Estados Unidos veio muito disso. Por isso é bonito fazer algo parecido, não apenas para os estrangeiros, mas também para nós mesmos”, ressaltou.

Em seguida, Walter Salles elogiou a interpretação de Wagner Moura no longa. “Armando, o personagem que você interpreta, eu adoro a forma como você o interpreta e adorei como Kleber o concebeu. Porque ele está tentando dar sentido a um mundo sem sentido. Eu pensei que hoje, em março de 2026, nós somos praticamente como ele”, refletiu.

Para Fernanda Torres, vivemos um momento em que o mundo parece confuso, mas seguimos tentando compreendê-lo.

“O filme fala muito sobre isso também. Todo esse barulho e toda essa massa de acontecimentos, no final, talvez ninguém vá se lembrar disso. Tudo simplesmente desaparece. E isso é muito bonito, porque é tão colorido, tão forte, tão cheio de absurdo, humor e tragédia — e, no final, tudo some. É uma metáfora muito bonita para o momento atual”, disse a atriz.

Walter Salles ainda destacou um aspecto que considera essencial na narrativa. “Acho que existe um eco maravilhoso no filme: cada história que, de alguma forma, foi enterrada debaixo do tapete pode reaparecer e ser trazida de volta por jovens pesquisadores. Acho isso incrivelmente bonito. Isso nos mostra que podemos resistir, suportar e superar. Esse é, de fato, um presente que o filme nos dá”, concluiu.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Foi repórter no portal Bahia Econômica e, atualmente, cobre Cultura e Cidade no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

Mais notícias

Este site armazena cookies para coletar informações e melhorar sua experiência de navegação. Settings ou consulte nossa política.