Zumví leva ‘quilombo visual’ da Bahia para exposição no IMS Paulista
A exposição com 400 imagens traça um panorama do arquivo fundado em Salvador em 1990

A partir do dia 28 de março, o IMS Paulista apresenta a exposição Zumví Arquivo Afro Fotográfico, com um amplo panorama deste acervo fundamental para a história da fotografia e dos movimentos negros brasileiros. Criado em Salvador em 1990, por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, o Zumví surgiu do compromisso de registrar a vida negra na Bahia a partir de suas próprias vivências, em um período em que a população negra raramente era fotografada por si mesma.
Com curadoria de Hélio Menezes, assistência curatorial de Ariana Nuala, consultoria de Elson Rabelo e pesquisa de Vilma Neres, expografia e arquitetura assinadas pelo escritório Vão e identidade visual do Namíbia Chroma, a mostra reforça o papel central do Zumví como fonte de articulação política, tanto na produção e circulação de imagens quanto na preservação da história da população negra da Bahia, unindo fotografia e política. A exposição ocupa dois andares do IMS Paulista, com entrada gratuita.
No dia da abertura (28/3), às 11h, Lázaro Roberto e José Carlos Ferreira, do arquivo Zumví, participam de uma conversa com o público, com mediação de Hélio Menezes. Também como parte da programação, no dia 29/3 (domingo), às 15h, o grupo Garoa do Recôncavo realiza uma roda de samba gratuita, no térreo do centro cultural, trazendo as antigas formações do samba de roda do recôncavo baiano.
O nome do arquivo junta a noção de zoom fotográfico, grafado em português, com a ideia de que a prática fotográfica testemunha os acontecimentos históricos coletivos: eu “vi”. Atualmente, o Zumví é composto por cerca de 50 mil fotogramas e documentos. A exposição no IMS apresenta um recorte deste amplo conjunto, exibindo em torno de 400 fotografias, além de documentos, como cartas e álbuns fotográficos, e um documentário sobre o Zumví, dirigido por Íris de Oliveira.
As fotografias estão organizadas em 16 temáticas criadas por Lázaro Roberto na organização do arquivo. Entre os temas registrados, estão a atuação dos Movimentos Negros e dos Blocos Afro e Afoxés, a luta por território do Quilombo do Rio das Rãs, os universos do hip-hop e do reggae em Salvador e momentos históricos, como a visita de Nelson Mandela à capital baiana em 1991. Além de imagens de autoria de Lázaro, a mostra exibe fotos tiradas por Aldemar Marques, Raimundo Monteiro, Meire Cazumbá, Gerimias Mendes, Rogério Santos e Jônatas Conceição

História do Zumví
A história do Zumví é profundamente conectada aos movimentos sociais e às lutas travadas no contexto da redemocratização brasileira. A primeira sede do arquivo funcionou em uma sala cedida pela Igreja Católica da Penha, no bairro da Ribeira, onde ocorreram reuniões, organização do material e a montagem de um laboratório fotográfico improvisado. Em seus mais de 30 anos de existência, o arquivo se ampliou por meio de doações, colaborações e parcerias, com um modo de funcionamento marcado pela coletividade e pelo fazer político. Dentre os três fundadores, Lázaro foi o que seguiu à frente do arquivo, que hoje também conta com a colaboração do historiador José Carlos Ferreira. Atualmente, sua sede fica no Pelourinho, em Salvador.
Lázaro Roberto comenta o início da sua atuação como fotógrafo, na década de 1980, a fundação do Zumví e seu compromisso político: “Foi nesse caldeirão de descobertas entre o teatro, a fotografia e o Movimento Negro, que eu me tornei fotógrafo e comecei a mergulhar no mundo das imagens e da cultura afro-baiana. Lembro que, depois de uma década, já possuía um pequeno acervo sobre a temática. Foi também nesse momento, após quase uma década de atuação, que eu percebi a ausência de fotógrafos negros. Então eu me juntei com outros amigos fotógrafos negros e começamos a nos reunir para saber por que éramos tão poucos. Vários questionamentos surgiam. Daí pensamos: já que estamos por trás das lentes, vamos criar um coletivo de fotógrafos negros para nos fortalecermos e fazermos uma fotografia que contribua para afirmação da cultura negra, evidenciando o protagonismo negro nas lutas raciais e nas imagens feitas por nós mesmos.”
O curador Hélio Menezes também ressalta a dimensão política do Zumví, presente desde o seu início: “Diferente da maioria dos arquivos históricos, brasilianas, bases de dados iconográficos ou acervos de fotografias com imagens de pessoas negras no Brasil, o Zumví não se constitui como um arquivo ‘sobre’ a população negra, mas como um arquivo produzido desde uma experiência negra vivida, compartilhada e historicamente situada. Uma espécie de antiarquivo, por assim dizer, cujo conteúdo contraria a natureza dos arquivos visuais no país, e que, ademais, desafia a oficialidade visual de certa baianidade (e de certa brasilidade, por derivação) sempre festiva, indolente, mestiça, disponível.”

Mostra
O primeiro núcleo da exposição destaca o vínculo do arquivo com os movimentos negros. Vários fotógrafos integrantes do Zumví atuaram em diversas frentes do movimento, tanto na arte e na produção cultural quanto na educação e nas ações políticas, no campo e na cidade. A mostra traz imagens realizadas por fotógrafos ligados ao arquivo de coberturas de momentos marcantes, como o protesto do Centenário da Abolição da escravidão, em 1988, a visita de Nelson e Winnie Mandela à Bahia, em 1991, e o tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares, em 1995, entre outros.
Outra temática central na mostra são os Blocos Afro e Afoxés, que, na Bahia, têm grande vínculo com os próprios movimentos negros. Muitas assembleias e reuniões políticas, por exemplo, aconteciam em sedes de blocos, assim como muitas letras e programas dos blocos traziam conteúdos da pauta antirracista. Desde o começo de suas trajetórias, no final dos anos 1970, Jônatas Conceição e Lázaro Roberto sempre fotografaram os blocos afro.
A exposição apresenta imagens do Ilê Aiyê, fundado em 1974, tiradas por Jônatas, que foi inclusive diretor do bloco. Também são exibidos registros de outros blocos, como o Malê de Balê, surgido em 1979, e o Olodum, criado em 1980, além de muitos pequenos blocos que, apesar de terem desfilado por poucos anos, foram representativos da participação da população negra da periferia da cidade no Carnaval.
A luta por território das comunidades quilombolas também está documentada na exposição. Importante referência nesse sentido, o Quilombo do Rio das Rãs, localizado em Bom Jesus da Lapa (BA), foi registrado diversas vezes por Lázaro Roberto, que captou a organização comunitária do território e as batalhas por regularização fundiária, na década de 1990. Nos retratos de Lázaro, a comunidade aparece em articulação constante, discutindo, celebrando, negociando, afirmando o território de múltiplas maneiras.
Outro destaque são as imagens da Feira de São Joaquim, uma das maiores feiras populares do Brasil, localizada na Cidade Baixa de Salvador. As fotografias mostram tanto a estrutura física da feira, seus boxes de vendas, as embarcações atracadas e os diversos produtos vendidos, quanto os trabalhadores do local, numa convivência de anos de Lázaro com os retratados. Esta seção faz referência também à exposição O negro e seu trabalho na Feira de São Joaquim, organizada por Lázaro Roberto e exibida em 1992, originalmente na Casa do Benin e, em seguida, dentro da própria Feira de São Joaquim.
Outras manifestações culturais bastante retratadas no arquivo são as festas populares, registradas ao longo de décadas por Lázaro, em suas dimensões lúdicas, políticas e religiosas. A mostra traz imagens da festa de Bom Jesus dos Navegantes, realizada sempre na virada do ano, e da Irmandade da Boa Morte, na cidade de Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, entre outras. Também no âmbito da cultura, o teatro negro é outro tema frequente no arquivo. Lázaro Roberto e Gerimias Mendes participaram, tanto como fotógrafos quanto como atores, do Grupo Experimental de Artes do bairro Fazenda Grande do Retiro (Geafragra), composto no início da década de 1980, com o intuito de democratizar o acesso ao teatro. A mostra traz imagens de peças, viagens e integrantes do grupo, além de registros do Bando de Teatro Olodum.
As lentes de Lázaro captaram ainda os universos do reggae e do hip-hop em Salvador. Estão presentes na mostra registros do evento de recepção ao músico Jimmy Cliff, em 1991, no aeroporto de Salvador, do Concurso de Dança e Música Reggae e de salões especializados em cuidados de cabelos dreadlocks. Já em relação ao hip-hop, um dos destaques é a série de imagens do II Encontro Baiano de Hip-Hop, realizado em 2003, no município de Itapetinga, Centro Sul baiano.

A afirmação da beleza negra é outro ponto central no arquivo. No começo dos anos 1990, Lázaro Roberto e Raimundo Monteiro começaram a fotografar salões de beleza populares das periferias de Salvador, onde mulheres e homens negros trabalhavam. Lázaro, em especial, fotografou as placas dos salões e os objetos de trabalho, como as tesouras que eram aquecidas para o processo de alisamento, sobretudo para a clientela feminina. Com o fortalecimento dos movimentos negros e a crescente presença de personalidades e artistas negros na cena pública, passou-se a criticar cada vez mais a imposição dos padrões de beleza ocidentais, valorizando os cabelos e traços negros. Esse movimento também está captado nas imagens do Zumví, com retratos que mostram uma variedade de penteados, cortes e arranjos dos cabelos negros, como os dreadlocks, as tranças, o black power e os grafismos riscados nas cabeças.
Os retratos, por sinal, compõem um dos principais núcleos da exposição, com fotos de autoria de Lázaro Roberto, Gerimias Mendes, Raimundo Monteiro e Rogério Santos, que, cada um à sua maneira, compartilhavam o interesse genuíno por pessoas e pela fotografia como forma de encontros, relações e trocas. As imagens reúnem tanto personalidades anônimas, como arrumadores da Feira de São Joaquim, foliões do Carnaval e cabeleireiros, quanto figuras centrais da vida intelectual e política da Bahia, como Luiza Bairros e Valdeci Nascimento.
Em cartaz até agosto, a exposição apresenta ao público a obra e a trajetória do Zumví, um arquivo que, desde seu início, funciona como espaço de articulação e militância, como afirma o historiador José Carlos Ferreira: “A fotografia não era um ambiente favorável ao protagonismo dos agentes sociais negros, enquanto a grande mídia e os saberes científicos representavam seus corpos e suas práticas culturais majoritariamente desconectados dos contextos socioeconômicos e de suas lutas. Por isso, coube aos fotógrafos do Zumví Arquivo Afro Fotográfico e a seus contemporâneos desconstruir essas imagens e elaborar outras possibilidades para a prática fotográfica. Assim, foram além e construíram um quilombo visual na Bahia, o Zumví Arquivo Afro Fotográfico.”
Catálogo
A exposição será acompanhada por uma publicação, que estará à venda nas livrarias e na Loja online do IMS. O livro trará as imagens do arquivo exibidas na mostra, textos sobre cada temática do Zumví representada na exposição, assinados por Ariana Nuala, Elson Rabelo e Vilma Neres, texto curatorial de Hélio Menezes, além de depoimentos de Lázaro Roberto e José Carlos Ferreira.
SERVIÇO
Zumví Arquivo Afro Fotográfico
Visitação: de 28 de março a 23 de agosto
Entrada gratuita
7° e 8° andar
Debate de abertura com Lázaro e José Carlos. Mediação: Hélio Menezes
28 de março, sábado, às 11h
Cinema | 3° andar do IMS Paulista
Entrada gratuita, com distribuição de senhas a partir das 10h. Limite de uma senha por pessoa.
Samba Garoa do Recôncavo da Casa Mestre Ananias
29 de março, domingo, às 15h
Térreo do IMS Paulista
Entrada gratuita
IMS Paulista
Avenida Paulista, 2424. São Paulo
Tel.: 11 2842-9120
Horário de funcionamento: Terça a domingo e feriados (exceto segundas), das 10h às 20h.
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