Publicado em 06/05/2026 às 13h00.

‘Mortal Kombat 2’ aposta na nostalgia, mas sem impacto de um ‘fatality’

Sequência foca no retorno de personagens icônicos, mas esbarra em roteiro raso e direção sem personalidade

João Lucas Dantas
Ludi Lin como Liu Kang, Mehcad Brooks como Jax, Jessica McNamee como Sonya Blade e Karl Urban como Johnny Cage
Foto: Warner Bros. Pictures

 

As telas de cinema voltam a servir como arenas sangrentas com a estreia de Mortal Kombat II, sequência da adaptação da famosa franquia de videogames que ganhou um novo capítulo em 2021, reiniciando a trajetória nos cinemas após as versões da década de 1990.

Com estreia nesta quinta-feira (7), e novamente dirigido por Simon McQuoid, cujo único outro trabalho é o primeiro filme da franquia, a continuação abraça de vez a estética e o modelo de narrativa que imortalizaram Mortal Kombat, mas faz tudo parecer pasteurizado e sem cor, sustentando suas quase duas horas de duração no carisma de seus protagonistas.

Personagens icônicos

Aqui, personagens clássicos estão de volta e novos ganham espaço nos cinemas pela primeira vez. Liu Kang, Sonya Blade, Kano e, agora, com as adições de Shao Kahn, Johnny Cage, Baraka e Kitana. Menções honrosas para as participações de Scorpion e Sub-Zero.

Para quem está familiarizado com o universo criado por Ed Boon em 1992, que já soma mais de três décadas de jogos e diversas versões lançadas, pode ser um deleite ver seus personagens favoritos desferindo as frases de efeito que os consagraram e ganhando vida em lutas sangrentas — ainda que com pouca imaginação nas coreografias ou na construção de momentos realmente marcantes.

O elenco acaba sendo o ponto forte da experiência. Karl Urban, que já estrelou franquias como Senhor dos Anéis, Star Trek, produções da Marvel e a série The Boys, adiciona mais um grande título à carreira com seu carismático Johnny Cage. Uma pena que o roteiro e a direção não façam jus ao seu magnetismo.

Já os colegas de cena oscilam bastante. Para cada nome de peso, como o japonês Hiroyuki Sanada, conhecido por O Último Samurai, que retorna como Scorpion, há desempenhos mais fracos, como o de Jessica McNamee, vista em Megatubarão, que entrega uma Sonya Blade pouco expressiva.

Hiroyuki Sanada como Scorpion
Foto: Warner Bros. Pictures

Roteiro raso

Um filme de Mortal Kombat pode até funcionar como entretenimento, mas é necessário ajustar as expectativas. Convenhamos que não há como esperar muito de um roteiro de uma franquia de jogos que é conhecida, sobretudo, pelas inovações em suas mecânicas de combate.

A história aqui, elaborada pelos roteiros de Jeremy Slater (da série Cavaleiro da Lua), além de John Tobias e Ed Boon (criador dos jogos), é rasa e extremamente maniqueísta.

Os campeões do Reino da Terra (Earthrealm), agora acompanhados pelo ator decadente Johnny Cage, enfrentam-se em batalhas decisivas para impedir o domínio de Shao Kahn, que ameaça a própria existência do planeta.

Ainda que o filme simplifique essa dinâmica, na mitologia da franquia a dominação de reinos se dá por meio da vitória em torneios de Mortal Kombat.

Shao Kahn, interpretado por Martyn Ford, conhecido por Kingsman: O Círculo Dourado, é retratado como um vilão implacável, disposto a eliminar qualquer um que cruze seu caminho. Ao lado de seus aliados, ele se opõe aos guerreiros do Reino da Terra, que lutam para salvar o planeta a qualquer custo.

Adeline Rudolph como Kitana
Foto: Warner Bros. Pictures

Agradar aos fãs é suficiente?

Sem dúvidas, a produção leva em consideração aquilo que os fãs esperam ver nas telonas. As clássicas frases de efeito — muitas delas mantidas em inglês, como “finish him” e “get over here” — marcam presença, assim como o icônico tema “Techno Syndrome”, do grupo The Immortals.

Por um lado, é uma escolha segura. Sabe-se que parte do público sairá satisfeita apenas pelo fator nostálgico. Por outro, isso não é suficiente para sustentar um bom filme.

A direção de fotografia de Stephen F. Windon, que já trabalhou na franquia Velozes & Furiosos, é pouco inspirada, com cenas escuras e uso excessivo de fundo digital, reflexo também de efeitos visuais inconsistentes, que acabam reforçando a falta de criatividade na condução de McQuoid.

Há ainda diversas incoerências no roteiro, especialmente envolvendo Johnny Cage, que, apesar de humano, possui habilidades especiais na mitologia da franquia — algo pouco explorado aqui.

Nos primeiros 40 minutos, os acontecimentos se desenrolam de forma apressada, antecipando os combates enquanto o filme ainda tenta se levar a sério, mesmo com Cage funcionando como alívio cômico.

Baraka
Foto: Warner Bros. Pictures

Abraçando a loucura

Em determinado momento, especialmente após o encontro com Baraka, o filme parece abandonar a tentativa de ser levado a sério e abraça de vez o tom exagerado característico da franquia. É quando surgem lampejos de criatividade e uma ação mais estilizada, remetendo aos filmes de ação das décadas de 1980 e 1990.

No fim das contas, Mortal Kombat II até encontra algum fôlego quando aceita sua própria natureza exagerada, mas passa boa parte do tempo preso a uma tentativa pouco convincente de ser um blockbuster sério.

Entre acertos pontuais e muitas limitações criativas, o filme acaba funcionando mais como um agrado nostálgico para fãs do que como uma adaptação realmente marcante — reforçando que, assim como nos jogos, o espetáculo importa, mas aqui falta impacto para que o golpe final seja realmente memorável.

Em tempo: se você quer realmente assistir algo digno de Mortal Kombat, procure Os Aventureiros do Bairro Proibido, de 1986, dirigido pelo mestre John Carpenter, que é, inclusive, citado neste filme.

 

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Repórter no portal Bahia Econômica. Atualmente, repórter de Cultura no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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