Publicado em 22/05/2026 às 11h30.

Giovani Cidreira celebra 10 anos de carreira com o afetivo ‘Coração Disparado’

Em disco ao vivo, artista revisita memórias, referências musicais e relação com a Bahia e o São João

João Lucas Dantas
Foto: Bruno Prado/ Divulgação

 

O cantor, compositor e instrumentista Giovani Cidreira, soteropolitano natural do bairro de Valéria, celebra os primeiros 10 anos de carreira de uma forma especial, lançando o seu primeiro disco ao vivo, Coração Disparado, que já está disponível nas plataformas digitais.

Uma gravação ao vivo é um passo importante na carreira de muitos músicos. Discos icônicos nasceram desse encontro com o público. Vide alguns exemplos como Gal a Todo Vapor (1971), Jorge Ben Jor – Ao Vivo no Rio (1991) ou a série Acústicos MTV, que tomou conta do mercado em meados da década de 1990 e começo dos anos 2000.

Para celebrar o momento, o bahia.ba bateu um papo com o músico, que vem consolidando seu nome como um dos nomes essenciais para compreender a cena da Música Popular Brasileira contemporânea.

Foto: Bruno Prado/ Divulgação

Participação no Tiny Desk BR

Entre um dos seus destaques recentes, para além do lançamento do seu novo projeto, está a participação no Tiny Desk Brasil, que foi ao ar no dia 10 de março deste ano e já soma quase 2 milhões de visualizações até o momento. Para Giovani, foi um momento muito especial de reconhecimento do seu trabalho.

“Foi emocionante, não só pra mim, mas pra todo mundo que estava envolvido. Minha equipe, banda e até a equipe brasileira que faz o Tiny Desk. Eles têm um interesse muito genuíno por música e estavam muito envolvidos comigo enquanto artista”, expressou o músico.

“É um lugar muito especial pra quem gosta de música. A gente acompanha esse programa há anos, desde 2011. Quem consome música sabe da importância daquele espaço, porque a curadoria é muito específica. Eles sempre trazem coisas de muita qualidade, artistas antigos, artistas novos. Então, todo mundo que estava ali queria muito estar presente”, acrescentou.

Para o baiano, foi também um momento de confirmação. “Tem coisas que acontecem na vida da gente que não mudam necessariamente a nossa realidade. Mas, mesmo não mudando minha realidade diretamente, uma experiência como essa reforça que o meu trabalho tem consistência, mesmo que ele não esteja sendo colocado como principal em certas plataformas, em certas rodas ou premiações”, pontuou.

Alcançar grandes plataformas, como é o caso do Tiny Desk, apontou um momento de autorreflexão a respeito do tipo de arte que produz.

“Acho que sou um artista que precisa mais do tempo. Das coisas que vão sendo construídas ao redor do trabalho e que, com o tempo, dão respostas artísticas mesmo”, disse.

Veja a apresentação completa:

A importância do coletivo na música

Para quem acompanha a cena do rap ou da MPB atual, certamente já deve ter percebido o nome Giovani Cidreira em alguns feats importantes. O músico já marcou presença em trabalhos de Don L e Urias, além de colaborar com nomes como os também baianos Russo Passapusso e Melly.

“É interessante porque esses encontros se deram, além da afinidade musical, por uma identificação muito forte. Quando a gente se encontrou, se descobriu ali também. Don L, por exemplo, é uma grande influência pra mim, sempre foi, e Russo também”, relembra.

“Lá em Salvador, a gente se juntou muito por identificação, podemos dizer assim, ideológica. São pessoas que têm uma visão de mundo parecida com a minha e pensam em maneiras diferentes da gente continuar vivendo — ou sobrevivendo — de música, de arte. E também fazem seus próprios caminhos dentro de todos os modelos”, destaca o artista.

Segundo Giovani, pessoas como Don L e Urias vieram de lugares muito semelhantes, ao carregar histórias de origem muito parecidas com a sua própria.

“Existe uma vontade minha de estar perto das pessoas com quem eu realmente quero estar na foto. Tem foto que eu não quero tirar, mas essas pessoas são aquelas com quem você faz questão. E acho que elas sentem o mesmo. Porque a gente precisa reconhecer quem é quem na multidão. A gente circula por várias rodas, várias panelas, conhece muita gente, mas poucas pessoas viram amigas de verdade. Poucas se tornam pessoas com quem você pode contar. E as pessoas que você citou são exatamente assim pra mim”, declarou.

Foto: Bruno Prado/ Divulgação

A primeira década de carreira eternizada

Nascido em 1990, Giovani cresceu na efervescência dos lançamentos dos discos ao vivo, como a supracitada série de Acústicos MTV, que eternizou momentos de bandas como Charlie Brown Jr., Capital Inicial, Titãs e Cássia Eller. Nada mais natural do que surgisse a vontade de marcar o seu próprio momento de encontro com o público.

“No Brasil sempre existiu essa tradição, Caetano, Chico, Gilberto Gil, João Gilberto… tem disco ao vivo pra caramba. Mas lembro que, nos anos 90, parecia que a música estava mais perto das pessoas, mais dentro da casa delas. E também teve a chegada dos acústicos. Aquilo marcou muito”, expressou.

“Quando tive a ideia desse disco, ela veio justamente da observação desses formatos. Especialmente do disco da Marisa Monte, Barulhinho Bom. Acho aquele disco muito interessante porque ele mistura uma parte ao vivo com músicas de estúdio. O Vamo Batê Lata, dos Paralamas do Sucesso, também é uma referência importante”, aponta Giovani.

Para os que ainda não estão atualizados, o lançamento do disco ao vivo precede também a chegada de uma nova gravação de estúdio, prevista para 2027, após sugestão do diretor artístico Rodrigo Gorky, que trabalhou com Cidreira nesta nova fase.

“Quem observou esses formatos e me deu essa ideia foi o Gorky, que trabalha com Urias e Pablo Vittar, e também estava comigo na direção artística desse projeto. Ele falou: ‘Velho, esse é um formato interessante que ninguém mais está olhando’. Esses discos da Marisa e dos Paralamas permitiam colocar singles, construir uma história maior, um projeto mais amplo”, referenciou.

Segundo o músico, este é um projeto maior do que apenas o ao vivo. “Nós iremos continuar no ano que vem, com músicas em estúdio que mantêm a mesma característica do ao vivo. A instrumentação é parecida, o violão continua sendo central. Então partimos dessa ideia de um projeto grande”, explicou.

A emoção da gravação ao vivo é justamente a crueza e a honestidade registradas junto à interação com o público, sempre essencial a um artista de palco.

“Uma gravação ao vivo é isso. Tudo pode acontecer, como em qualquer show. E você precisa estar disposto a lidar com os erros. E nem tudo são erros, porque quando certas coisas se repetem, elas deixam de ser erro e passam a fazer parte da linguagem. Fui com essa cabeça também de mostrar uma parte do meu trabalho que talvez algumas pessoas ainda não conhecessem”, confirma Giovani.

Foto: Bruno Padro/ Divulgação

As memórias afetivas por ‘Timidez’

Dentro de um repertório amplamente autoral, há uma faixa específica que chama a atenção de um ouvinte que possa estar disperso ao fim do álbum.

Timidez, clássico brega junino de Ferreira Filho e Rômulo César, eternizado pela banda Cavalo de Pau, ganha um tom completamente diferente ao cair na voz potente de Cidreira, que demonstra o carinho pela sua origem baiana.

“Desde pequenininho eu sou apaixonado pelo São João. Agora junho está chegando e isso me emociona muito. Cresci no interior da Bahia. Sou de Santo Amaro, mas com um ano de idade fui para Castro Alves, e cresci mergulhado nessa cultura. As músicas juninas são muito marcantes pra mim”, lembra com carinho.

“Acho que comecei a querer fazer música depois de assistir um daqueles São Joões da minha cidade, vendo as pessoas tocarem zabumba, triângulo, acordeon… E comecei a colocar na cabeça que era aquilo que eu queria fazer da vida”, refletiu.

Timidez, então, toca em um lugar muito afetivo para o músico, que diz ser uma das músicas que mais escutou ao longo da vida.

“Amo essa música desde os meus oito, nove anos de idade. Foi justamente naquela época em que começaram a surgir os grupos de forró eletrônico, como Cavalo de Pau, Mastruz com Leite, Calcinha Preta e Mulheres Perdidas. Essa música faz parte do meu imaginário, da minha vida. E foi muito bonito reencontrá-la”, celebrou.

“Eu não queria escolher uma música tão óbvia, mas queria algo muito forte para o povo nordestino especificamente. E ‘Timidez’ parecia perfeita, porque tem um dos refrões mais bonitos que existem”, afirmou.

A Bahia como inspiração

Para além do São João, a Bahia é um lugar de muita inspiração musical e artística para o músico, que a chama de casa com muito carinho. Na própria apresentação do Tiny Desk Brasil, citou vários bairros de Salvador que pertencem à sua memória afetiva.

“É preciso muita força pra atravessar tudo o que a gente atravessa. Eu vejo isso desde a minha avó, que era rezadeira, uma mulher guerreira, que criou 15 ou 16 filhos em Santo Amaro, no meio do mato. Existe um poder, uma coisa, um elemento que não é material. O jeito que você aprende a lidar com as coisas, com a comunicação com o céu, com a terra, com o sobrenatural, com a imaginação. Eu fui criado num ambiente assim”, contou Giovani.

“Ninguém ali sabia tocar acordes ou fazer música tecnicamente, mas a gente sabia criar teatro, inventar mundos, criar universos mesmo sem ter nada. Essa vontade de viver, de sonhar e essa força pra continuar fazendo as coisas todos os dias atravessam muito a minha música. Essa é, talvez, a principal contribuição da Bahia e do Nordeste pra mim. E claro: nós somos os melhores em música”, celebrou.

Questionado sobre um futuro show em Salvador e se o público daqui pode esperar alguma novidade, revelou que em setembro estará marcando presença na região.

“Setembro é o mês do meu aniversário, então estou tentando organizar um show especial de aniversário e reencontrar Salvador com esse disco. E isso provavelmente deve virar uma pequena turnê pelo Nordeste também. Algumas coisas que eu já venho fazendo com o Bankz e outras que estamos pensando agora”, concluiu Giovani Cidreira.

 

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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