Publicado em 15/07/2026 às 16h05.

‘A Odisseia’ transforma épico de Homero em um dos maiores filmes de Christopher Nolan

Após o sucesso de Oppenheimer, cineasta adapta o clássico com grandiosidade e elenco estelar

João Lucas Dantas
Pôster de A Odisseia

 

A Odisseia é a nova adaptação cinematográfica dos poemas épicos de Homero, um dos pilares fundamentais da literatura ocidental, adaptados por Christopher Nolan no que talvez seja seu melhor filme até o momento. Estreia nesta quinta-feira (16) nos cinemas brasileiros.

Após o estrondoso sucesso de Oppenheimer, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Diretor, Nolan imediatamente resolveu abraçar o desafio que parecia impossível: adaptar, à sua maneira, uma das maiores histórias já contadas.

Veja o trailer:

O pilar da literatura ocidental

Composta por volta do século VIII a.C., A Odisseia é uma das obras fundadoras da literatura ocidental. O poema narra a longa jornada de Odisseu de volta para casa após a Guerra de Troia, abordando temas universais como coragem, inteligência, identidade, família, saudade e perseverança. Sua influência atravessa mais de dois milênios, inspirando incontáveis escritores, artistas e cineastas.

O filme, através da visão do seu diretor, é uma adaptação relativamente fiel, mesmo que dialogue com os dias de hoje e faça escolhas narrativas importantes, como o uso do inglês moderno como idioma.

Matt Damon como Odisseu
Foto: Reprodução/ Universal Pictures

Constelação de astros

Uma das primeiras coisas que chamam atenção logo ao início da projeção é o elenco. Reunindo nomes gigantes do cinema, encabeçados por Matt Damon (Identidade Bourne) como Odisseu, Tom Holland (Homem-Aranha: De Volta ao Lar) como Telêmaco e Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada) como Penélope, que formam o principal núcleo familiar, o sucesso estrondoso de Nolan como diretor ainda conseguiu atrair incontáveis estrelas para ocupar até os menores papéis.

Para citar alguns memoráveis, Robert Pattinson (Batman) vive Antínoo, Lupita Nyong’o (Nós) é Helena de Troia e Clitemnestra, Zendaya (Euphoria) interpreta Atena, mas quem mais surpreende e ganha destaque são Himesh Patel (Tenet), como Euríloco, e John Leguizamo (Era do Gelo), como Eumeu.

Os nomes são tantos que daria para dissertar um texto inteiro sobre a impressionante reunião de estrelas do filme, uma verdadeira constelação de talentos.

Claro que todos cumprem seus papéis, sejam eles de grande ou pequeno destaque, à perfeição. Com exceção do limitado Jon Bernthal (Justiceiro), que interpreta um Menelau cheio de seus maneirismos, tirando os espectadores da imersão desse épico de espadas e sandálias.

Foto: Reprodução/ Universal Pictures

O escopo épico

Na situação atual que o cinema vive, só um nome de grife como o de Nolan conseguiria bancar e lidar com um grupo tão extenso de atores notáveis sem desequilibrar a balança do forte protagonismo de Matt Damon, que entrega uma das melhores performances de sua carreira.

O roteiro é do próprio cineasta que, como de costume, opta por uma narrativa não linear, através do uso de flashbacks, o que casa bem com o estilo da obra original, já que cada retorno ao passado serve para contar uma aventura fechada, um capítulo da vida de Odisseu, enquanto acompanhamos os dramas palacianos e a tentativa do protagonista de voltar para casa no presente da narrativa.

A construção dos diálogos de Nolan sempre foi alvo de críticas, principalmente em seus trabalhos mais voltados à ciência, em que tudo soa muito expositivo. Aqui, ele parece relaxar mais nesse sentido e confiar na beleza das imagens dos cenários montanhosos e marítimos, com a escolha de rodar o filme na Grécia, Itália, Marrocos, Islândia, Escócia e Estados Unidos. Um ponto importante para ampliar a imersão na experiência.

Ainda dialogando com a questão dos cenários, o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema retoma sua parceria com o cineasta após as empreitadas de Dunkirk, Interestelar e Tenet.

O filme tem cores vivas, explora muito bem os dias e as noites com um belíssimo trabalho de luz, somado aos efeitos práticos de toda a estrutura construída em termos de cenários e cidades, tornando tudo muito concreto e visualmente impressionante. Muito desse resultado é mérito do grande trabalho de design de produção de Ruth De Jong.

Anne Hathaway como Penélope
Foto: Reprodução/ Universal Pictures

Abraçando a fantasia

Após a tentativa de trazer uma versão hiper-realista do Batman para as telonas, vemos também Nolan abraçar a fantasia e a magia, sem recorrer a explicações científicas para desfazer os truques. Aqui, há a presença de deuses, criaturas mágicas, monstros gigantes e até um flerte com o gênero do terror para explorar alguns desses momentos.

Em termos de escala, o filme é realmente grandioso. Batalhas homéricas, cidades enormes, grandes navios, palácios e inúmeros personagens, tudo feito ao máximo à maneira antiga, captando aquilo que pode ser construído na vida real, inclusive com um ciclope animatrônico de metros e metros de altura.

É um tipo de esforço que já não parecia ter espaço no cinema moderno, remetendo ao escopo de filmes clássicos como Lawrence da Arábia, Ben-Hur e Cleópatra, verdadeiros feitos cinematográficos que só alguém com tamanha grife conseguiria bancar em 2026.

Aqui, há um pouco de tudo o que consagrou Nolan como um grande diretor ao longo dos anos: a narrativa não linear, as grandes cenas de ação, mesmo que o combate corpo a corpo não seja o seu forte como cineasta, o escopo épico e o interesse pela história da humanidade.

São três horas de duração que passam rapidamente, mesmo que a jornada possa parecer exaustiva, assim como é para Odisseu. O filme é dinâmico e surpreendentemente emotivo, uma característica que sempre foi um ponto fraco da filmografia de Nolan. Faltava mais alma e coração ao diretor, algo que ele parece finalmente encontrar aqui ao tratar de temas como família, fé, lealdade e determinação.

Christopher Nolan dirigindo A Odisseia
Foto: Reprodução/ Universal Pictures

Sucesso como adaptação

Ao adaptar uma das obras mais influentes da história da humanidade, Christopher Nolan não entrega apenas mais um blockbuster grandioso. Ele demonstra que os grandes mitos continuam vivos justamente porque tratam de questões que atravessam os séculos.

A busca de Odisseu por seu lar, por sua família e por sua própria identidade continua tão poderosa hoje quanto era na Grécia Antiga, e encontra nas mãos do diretor uma tradução cinematográfica à altura de sua importância. É um espetáculo visual, técnico e narrativo que respeita o material original sem abrir mão da personalidade de seu autor.

A Odisseia confirma Nolan como um dos cineastas mais ambiciosos de sua geração. Ao unir um elenco impecável, uma produção monumental e uma direção que finalmente encontra um equilíbrio entre grandiosidade e emoção, o diretor entrega não apenas um dos melhores filmes de sua carreira, mas uma adaptação que faz justiça ao legado de Homero. É cinema de grande escala em sua forma mais pura, daqueles que lembram por que algumas histórias permanecem eternas.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba.

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