Zika x microcefalia no Brasil – da ficção à realidade
Video apócrifo associa surto de microcefalia a vacina aplicada em grávidas. Acusação não procede, mas o Estado contribuiu para o surto: por imprevidência ou negligência

Circula nas redes sociais um vídeo em que um cidadão apresenta o que poderia ser uma grave denúncia. Apoiada, sabe-se lá em que saberes, a criatura afirma que o recente e atípico crescimento dos casos de microcefalia em bebês brasileiros teria sido causado pela aplicação, em grávidas, de vacina antirrubéola com data de validade vencida. O lote condenado teria sido disseminado em postos de saúde da rede pública Nordeste afora.
Como seria de se esperar, o vídeo viralizou na internet. Sem qualquer evidência que lhe confira credibilidade, a mensagem roda de mão em mão, causando espanto, indignação e, sobretudo, dúvidas. Afinal, microcefalia em bebês é assunto que está na ordem do dia, dividindo espaço com as nossas outras tragédias cotidianas – inflação, estagnação econômica, incertezas políticas, crise de moralidade e ética, só para enumerar algumas e não necessariamente nessa ordem.
Mas ignoremos o vídeo apócrifo. Pode ser apenas mais uma arma de grosso calibre na guerra político-partidária que se estabeleceu no país, hoje dividido entre o lulopetismo decadente e o tucanato revanchista. Ainda assim, o surto de microcefalia continua sendo um problema de Estado.
Em maio deste ano, o então ministro da Saúde, Arthur Chioro, admitia que o zika vírus seria um dos legados da malfadada “Copa dos sete-a-um”. À época, eram 16 os casos confirmados em todo o país – oito na Bahia e igual número no Rio Grande do Norte. Ou seja, tomamos uma goleada não apenas da Alemanha, naquele 8 de julho de 2014, mas de um sistema falho, que se esqueceu de erguer barreiras sanitárias capazes de deter a invasão de agentes patogênicos nunca dantes vistos na história deste país.
Mais uma vez, deixemos de lado o vídeo alarmista. Nesta quarta-feira (9), a uma plateia atônita de jornalistas o ministro da Saúde, Marcelo Castro (PMDB), fez um mea culpa. Admitiu que os governos foram “condescendentes” com o mosquito Aedes aegypti, agente transmissor da dengue, da febre chikungunya e do zika vírus. Condescendente, ministro? Condescendente está sendo o senhor, ao minimizar o que se poderia caracterizar até mesmo – guardadas as devidas proporções – como um crime de lesa-pátria. Exagero? Talvez. Mas vamos aos fatos.
A detecção de casos de microcefalia em recém-nascidos cresce em projeção geométrica: em 2014, o país inteiro registrou 147 casos da malformação (ou má-formação como preferem alguns). Agora, em 2015, até a terça-feira (8), somente em Pernambuco, as notificações já somavam 804. No Brasil os números são assustadores: 1.761 registros, distribuídos por 422 municípios, espalhados por 13 estados e Distrito Federal. Já foram contabilizadas 19 mortes. Detalhe: estamos mencionando dados oficiais, todos disponíveis no portal do Ministério da Saúde .
O cenário é preocupante, mas inclui surpresas. Ocorre que, em agosto deste ano, quando o país já sucumbia aos ataques do mosquito, Pernambuco não recebeu do Ministério da Saúde o repasse de larvicida referente aos meses de setembro e outubro. O envio só foi normalizado em novembro. Rio Grande do Norte, Sergipe e Paraíba ficaram quatro meses sem o produto. Aqui mesmo, na Bahia, chegou a se falar em racionamento, como foi noticiado pela mídia. Larvicida é uma espécie de veneno aplicado por agentes sanitários, de casa em casa, para eliminar potenciais criadouros do Aedes aegypti, o mosquito que vem sendo associado ao assustador crescimento dos casos de microcefalia em bebês.
Um bebê com microcefalia é, na maioria dos casos, uma imagem pungente. Alguns apresentam deformações que os distanciam daquela fantasia dos anúncios de fraldas descartáveis. Mas, para além da aparência física, os danos maiores são mesmo é no desenvolvimento. Crianças nascidas com essa malformação tendem a apresentar problemas de fala e de compreensão, além de severas limitações no sistema locomotor. Podem vir a falar, sentar, engatinhar e andar, mas terão muito mais dificuldades e demandarão mais tempo que as não afetadas pela anomalia.
Então, não me venham falar de fatalidade. O surto de microcefalia é, sim, responsabilidade do governo. Por imprevidência, quando não adotou medidas capazes de evitar a entrada do vírus, durante a Copa. Por negligência, ao permitir a proliferação do mosquito transmissor. E a situação é grave. São milhares de crianças com um futuro incerto e um sem número de famílias atordoadas, sem saber como juntar os pedacinhos de sonhos e expectativas destroçados.
Ministro Marcelo Castro, não basta fazer um mea culpa, tampouco orientar as mulheres a adiar seus planos de engravidar. Secretário Fábio Villas-Boas, soa como deboche sua recomendação às grávidas para trocarem as minissaias por calças compridas. Ninguém deveria ter que pagar pela incúria de um Estado que não consegue, sequer, fazer o dever de casa.
Então, esqueçam o vídeo viral que associa o surto de microcefalia à suposta aplicação de vacinas com validade vencida. A situação é tão grave que dispensa mensagens alarmistas.
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