Só se vê na Bahia… e você não sabia!
Muito além dos manjados acarajé, caruru e vatapá, listamos uma série de coisas e comportamentos que são exclusivos de Salvador, mas pouco se repara

“Só se vê na Bahia”, além de verso-título da conhecida música de Roberto Mendes e Jorge Portugal, é uma expressão que circula fartamente na primeira capital do Brasil e, volta e meia, é utilizada para louvar as nossas peculiaridades, bem como para criticar as nossas mazelas.
No mais das vezes, a lista do que “só se vê na Bahia” poderia servir de resposta àquela famosa pergunta de Dorival Caymmi, também título de uma canção, “o que é que a baiana tem?” – dado o caráter pitoresco da enumeração que incentiva. Em geral, o que se evoca com “só se vê na Bahia” é tudo aquilo que no tabuleiro da baiana tem: acarajé, caruru, vatapá etc.
Contudo, algumas coisas exclusivas da boa-terra costumam passar despercebidas, como tais: seja por seu caráter menos pitoresco, seja por muito naturalizadas, seja pelo nome enganoso, seja por qual motivo for. Decidimos então, justamente por isso, traçar a nossa lista do que só se vê na Bahia… e você ainda não sabia. Segue:
Torta Búlgara: Carlinhos Brown já disse que “o Egito é a Bahia”, mas poderia ter afirmado que a Bulgária também é. Isso porque a torta búlgara, na verdade, é tão búlgara quanto Binha de São Caetano. A autoria da receita é controversa, mas parece ser mesmo uma criação da doceira Sálua Chalhub, que no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 tinha um restaurante no bairro de Nazaré. Segundo essa versão, após o erro de uma assistente, ela transformou um bolo solado em uma espécie de rocambole, cobriu com creme de leite batido, açúcar… e serviu. Depois, a receita teria sido um tanto modificada por um chef do antigo Hotel Meridien, ganhando o formato atual.
Mas, por que búlgara? Ora, porque a doceira tinha acabado de voltar de uma viagem à Bulgária, e adorara aquele país! Mas dissemos controversa porque, antes de a torta búlgara conquistar as confeitarias da cidade, o restaurante de Dadá já vendia um doce bem parecido: o “Negão da Dadá”. Do “Negão”, sofrendo adaptações anônimas daqui e dali, teria surgido a iguaria que conhecemos. Bom, já por essa vertente, especula-se que a torta fora batizada de búlgara só para dar um chiquê mesmo. O que não deixa de fazer sentido, já que, embora seja uma base de nossa gastronomia, o legado africano é pouco significante na doçaria baiana – esta sendo basicamente europeia, como atesta o insuspeito Manuel Querino em seu “A Arte Culinária na Bahia”.
Para fazer uma deliciosa torta búlgara com autêntico sabor soteropolitano, a receita está aqui.

Anular a Rima em U: “Quem é que sobe a ladeira do Curuzíves?”, quem nunca cantou assim a música do Ilê, atire a primeira pedra. A solução pode ser também trocar a sílaba tônica: AracÁju, CurÚzu, BaiÁcu etc. E esse malabarismo todo é apenas para impedir que o interlocutor enfie alguma rima sacana no distraído terminal do aparelho digestivo.
Na Bahia, quem tem “U” tem medo. E isso é tão natural, que baianos em viagem tomam precauções desnecessárias e tornam, muitas vezes, suas falas indecifráveis: “Me dê um suco de umbíves”, pediu um baiano famoso, em pleno Espírito Santo, para desespero do garçom. A mania do “u” rimado provoca também brincadeiras que ninguém, senão baianos, entendem. Não que em outros lugares c* não rime com urubu, mas ninguém leva isso tão ao pé da letra quanto a gente.
Ó o Geeelo: Ainda no campo da linguagem (e poderíamos ficar aqui a vida inteira, glosando os mil melismas do baianês, mas a ideia não é essa e sim, falar apenas de baianismos camuflados), em que outro lugar do mundo gelo é sinônimo de licença? Ao que tudo indica, gritar “ó o geeelo” para pedir passagem no meio da multidão é um costume originado no carnaval e/ou nas festas de largo, onde, de fato, os carregadores de enormes pedras gelo (usado para resfriar as bebidas) tinham/têm preferência para passar. Serviço de utilidade pública. São como ambulâncias e viaturas. Já experimentou ficar muito tempo com um gelo gigante nos ombros?
Acontece que a expressão pegou e hoje em dia significa algo como “ó abre alas, que eu quero passar”, sendo utilizada também em feiras, mercados, shoppings, estádios de futebol e qualquer lugar onde se precise furar a multidão. Enquanto Exu Tranca-Rua, o gelo abre caminhos.
Pãozinho Delícia: Esta é outra iguaria típica daqui também não utilizada pelo marketing de originalidade local, talvez por não ter raiz afro, talvez por ser muito jovem. A autoria do pãozinho delícia tampouco é ponto pacífico entre os pesquisadores, mas isso pouco importa. Certo é que, sem reivindicar a invenção, a famosa cozinheira Elíbia Portela ajudou muito a divulgar e também a simplificar o preparo da receita. Alguns preferem com recheio. Outros sem. Mas o pessoal que vem de fora, não raro, se espanta e se encanta com o sabor do pãozinho. Tem artista que exige pão delícia, no camarim, como aqueles astros do rock pedem centenas de toalhas roxas ou jujubas sem açúcar dentro de um pote de cristal. Faça!
Cuscuz com Leite de Coco: Pode-se comer cuscuz com quase tudo. Alguns preferem com ovo, outros com carne de sol, outros ainda com galinha. Sobretudo no Nordeste, os acompanhamentos variam com fartura. Já no interior de São Paulo tem cuscuz de frango e de sardinha. Mas, cuscuz com leite de coco é só em Salvador. Se jogar azeite de dendê e uns camarões secos, vira uma moqueca.
Prato na Roda: E por falar em cuscuz, comida original do Magreb (norte da África), de lá herdamos também (através dos malês) um hábito que agora é muito daqui: comer todo mundo no mesmo prato, que vai passando de mão em mão, ligando a roda. É o velho tira-gosto baiano. Esse é um costume muçulmano, um jeito de fortalecer a cumplicidade e a irmandade entre eles, mas, desde que aqui chegou, ficou como um traço distintivo do estilo baiano de convivência.
Esperar Esfriar o Lugar no Buzu: Outro lance comportamental exclusivo de Salvador, e também muito revelador do jeito do povo do lugar, vai na contramão daquele. Enquanto no tira-gosto se compartilham intimidades como garfos, colheres e salivas, no ônibus o baiano age como se o outro fosse um leproso irremediável. Ao menos na hora de sentar no lugar recém vago. O sujeito olha, espera, dá aquela falsa sentada, apoiando-se no recosto do assento e mantendo a bunda no ar, até que a cadeira esfrie e ele possa acomodar-se em segurança. Ninguém sabe ao certo o que aconteceria se se sentasse no lugar quente, mas, por via das dúvidas, é melhor prevenir.
Já no metrô, que tem ar-condicionado, o banco esfria bem depressa. Isso quando chega a esquentar. Será que, quando todos os ônibus finalmente tiverem condicionadores de ar, assistiremos a evolução extinguir mais uma tradição?
O Nome da Pelada: Desgraça: s.f. “Perda das boas graças de que se desfruta junto a alguém; desfavor, desvalimento. Calamidade”. Mas, na Bahia a definição de desgraça está mais para algo do tipo: “a esposa do capeta”. Sim, é a “lá ela”, a “que diga”, a “assim, assim”. Vale qualquer subterfúgio para não pronunciar a tal palavra que atrai maldições. E, se alguém, por muita raiva por acaso falar o nome dela, todos ao redor esconjuram: “U-hum, deus é mais!”.
Desgraça não é sinônimo de tragédia. É palavrão, xingamento. “Vai, sua desgraça!”. Se alguém na Bahia disser “a desgraça da Chapecoense”, não estará se referindo à tragédia que abateu o time; estará ofendendo a equipe de Chapecó. Aliás, a palavra é pronunciada com uma leve variante fonética, que já pede, pelo desvio semântico que realiza, uma nova forma ortográfica, trocando o “e” por um “i”: disgraça, em lugar de desgraça. Da mesma forma como a “mestura” do famoso poema de Sá de Miranda tornou-se a mistura nossa de cada dia. Ou como se diz “viado” (homossexual) diferentemente de “veado” (cervo).
Réveillon de Uma Semana: Em todo lugar do mundo Réveillon tem a mesma duração: entre 31 de dezembro e 1° de janeiro: a virada do ano. Pronto. Mas, desde que ACM Neto tornou-se prefeito, Salvador tem um Réveillon que dura, no mínimo, cinco dias. A festa visa (e consegue) explorar o potencial turístico de nosso verão, mas incentiva também piadinhas maldosas, como aquela que diz que baiano é tão lento que até para virar o ano demora uma semana.
PS: Nem falaremos no carnaval que (só aqui) dura um mês.
Missa do Rosário dos Pretos: Sincretismo existe em todo lugar e parecer ser mesmo uma tônica da humanidade. Toda religião, no fundo, é sincrética. No entanto, uma missa como a da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos só se vê na Bahia. O culto combina canto gregoriano e atabaques, hóstia e dendê, naquela igreja no largo do Pelourinho que é um verdadeiro milagre em si mesma.
“Conta um historiador [General Abreu e Lima] que, no tempo do 32° governador-geral do Brasil, D. João de Lencastre, entre fins do século XVII e princípios do XVIII, os negros escravos, nas caladas da noite, derrubaram o pelourinho situado junto ao quartel do tenente-general da artilharia e, no seu lugar, erigiram uma capela de Nossa Senhora do Rosário, ‘feita de taipa e coberta de folhas de pindoba’, autêntica construção afro-ameríndia, portanto. Assim nasceu, ao que se sabe, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos, confirmada a doação pelo Rei de Portugal, depois de muitos castigos e perseguições aos autores dessa obra de misticismo e revolta”, o depoimento é de Aydano do Couto Ferraz, em “Volta à África”.
Recentemente, a página “Guia de Sobrevivência do Soteropobretano” publicou um vídeo com cenas da missa do Rosário dos Pretos, que recebeu diversos comentários preconceituosos, de católicos (ou supostos católicos) de todo o Brasil, com dificuldades para compreender isso que na Bahia é mais do que natural na corrente sanguínea.
PS: O Padre Pinto merecia um tópico. Mas, como ele já não exerce o sacerdócio, vamos nos resumir a esta menção honrosa.

Torcida Mista: Este último item entra aqui como um apelo, já que não existe mais. Se a igreja citada combina fés originalmente distintas, a Fonte Nova, templo máximo de nosso futebol (essa outra forma de religião), se destacou por muito tempo por comportar devoções distintas em um só espaço: a torcida mista. Na mista, torcedores do Bahia e do Vitória assistiam juntos às partidas, com muita gozação, mas sem brigas. Uma coisa típica do nosso jeito de torcer, que reflete também nosso jeito de ser e viver. Note-se: a mista não era a geral. A geral todo estádio tem (ou tinha) e era um subespaço destinado a quem não podia pagar nada melhor e, por isso, ficava misturado, como que jogado, despejado.
A mista, pelo contrário, tinha espaço privilegiado no estádio da Fonte Nova, mas já não há na arena. É uma pena. Em tempos de torcida única e outras medidas desesperadas pela paz nos estádios, o exemplo da torcida mista da dupla Ba-Vi reluz como o verdadeiro sentido do esporte. Já não se vê na Bahia, mas deveria.
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