A coisa coisamente
Aos poucos, não sabemos mais o significado real das coisas e passamos a valorizar mais o que eu pareço ou o que a mim se apresenta, em rótulos

Em sua irônica e bem humorada crítica à sociedade contemporânea, Carlos Drummond de Andrade, no poema “Eu, Etiqueta” [Obra poética, Volumes 4-6. Lisboa: Publicações Europa-América, 1989] notava uma cilada difícil de ser superada e que nos tornara ser-anúncio itinerante.
O rótulo apresentado não teria maiores consequências não fosse tomado, em regra, como abdicação de meu gosto, de minha capacidade de escolher e de minhas idiossincrasias tão pessoais. E com essa inocente demissão de nós mesmos, acabamos nos tornando, simultaneamente, quatro pessoas: quem as pessoas pensam que eu sou; quem eu penso que as pessoas pensam que eu sou; quem eu penso que sou; e, finalmente, quem eu realmente sou.
Nesse quadrante confuso, quiçá místico e mítico, passamos a valorizar mais o que as pessoas aparentam ser e o que apresentam de si mesmas nas redes sociais, no palco das vaidades do Facebook, do Instagram e de tantas outras plataformas que servem, não para estabelecer relações de confiança entre as pessoas, não para conhecer alguém, mas simplesmente para que os usuários se coloquem na vitrine. Nada mais.
Talvez por isso, nunca foi tão dramática a solidão. Embora num mundo com tantas estradas, jamais nos visitamos tão pouco. A superficialidade passou a protagonizar as relações sociais, valendo apenas os rótulos e etiquetas exibidos. Curiosamente, insistimos em aparentar alguém que não somos e acabamos nos confundindo em torno de nós mesmos.
Num mundo com tantas estradas,
jamais nos visitamos tão pouco
A consequência experimentada é a do vazio dolorido. Nessa escuridão, o resultado somente pode ser a indiferença maquiada pela tecnologia e, com ela, a arte do desdém. Perdemo-nos na compreensão própria e na alheia. Aos poucos, não sabemos mais o significado real das coisas e passamos a valorizar mais o que eu pareço ou o que a mim se apresenta, em rótulos.
Às vésperas dos Jogos do Rio de Janeiro, bem que merecemos travar uma olimpíada da alma. Nela, não há mérito algum em ser melhor que o outro, mas na nobreza de se buscar ser melhor do que seu eu anterior. O grande desafio não está em vencer o outro, mas em vencer a si mesmo.
Na prova de afastamento de etiquetas, além de conhecermos melhor quem se situa ao nosso lado, ainda poderemos ofertar algum conforto ao maior poeta brasileiro do Século XX, em seu desabafo:
“Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.”
Mais notícias
-
Artigos14h31 de 10/12/2025
PEC que põe fim à escala 6×1 avança na CCJ do Senado
Érika Hilton (PSOL) cobrou que Hugo Motta despache a proposta na Câmara dos Deputados
-
Artigos10h51 de 05/12/2025
OPINIÃO: A Bahia tem crédito e recursos próprios para investir
Endividamento da Bahia caiu de 182% para 37% da receita em 22 anos
-
Artigos10h14 de 04/12/2025
Engaje compradores virtualmente com um gerador de avatares falantes com IA
O gerador de avatares falantes em IA criado pelo Pippit tornou-se uma ferramenta poderosa
-
Artigos16h50 de 02/12/2025
Como fazer um portfólio profissional PDF: instruções detalhadas e dicas úteis
Aprenda a criar um portfólio profissional em PDF com imagens, dicas de design e estrutura para destacar seus projetos e atrair clientes ou empregadores
-
Artigos11h13 de 19/11/2025
PL do Streaming em discussão: o Brasil entre a regulação e o futuro
O erro seria regular olhando para o passado
-
Artigos20h04 de 05/11/2025
Uma vitória da justiça tributária: o Brasil está do lado de quem mais precisa
Artigo de opinião de Lucas Reis, advogado, chefe de gabinete do senador Jaques Wagner e pré-candidato a deputado federal
-
Artigos10h31 de 28/10/2025
Minerais críticos e estratégicos: análise jurídica e de política regulatória
Lei será um marco, representando um divisor de águas para o futuro econômico e industrial do Brasil
-
Artigos08h00 de 06/09/2025
O sexo que o capacitismo insiste em negar
Assexybilidade, longa-metragem de Daniel Gonçalves, desafia os tabus sobre sexo e deficiência
-
Artigos20h04 de 27/08/2025
OPINIÃO: Encontro de Bruno e Jerônimo é sinal de maturidade, mesmo tardia
Demorou, mas chegou; e a população de Salvador espera que, assim, sua vida melhore
-
Artigos13h47 de 26/08/2025
Extradição não é deportação
Entenda o pedido que foi realizado ontem pelo Itamaraty à Itália.











