A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter direitos
Não adianta reclamar, não adianta taxar de criminoso. O que se deve fazer é compreender o fenômeno Igor Kannário e estudar seus reflexos

Anderson Machado de Jesus, conhecido pelo nome artístico Igor Kannário, é um cantor de pagode baiano, conhecido como o “Príncipe do Gueto”, com o qual destaco não concordar, muito menos aprovar suas ações, por se identificar com a favela. Hoje é o vereador eleito na cidade de Salvador-Bahia, com mais de 11 mil votos.
Não podemos ignorar que os pobres negros favelados são completamente desassistidos e não têm direito a ter direitos como diz Hannah Arendt. Assim, encontraram em Igor Kannário uma maneira de externar suas emoções e frustrações, convertendo-se porta-voz da periferia por cantar músicas que dialogam com jovens humildes. É a voz da favela, a qual pode ser ouvida por toda a sociedade, quer queira, quer não, possibilitando que esse segmento se tornasse visível e presente, ou seja, “incluso” nessa sociedade, vez que a única presença que os favelados têm – diária e rotineiramente – são abordagens policiais que, por vezes, são impregnadas de discriminações e preconceitos.
Igor Kannário representa um povo que vive amargurado e subjugado, bem como contido para que não incomode aos que têm uma posição social superior. Nessa conjuntura, é evidente que precisa de lideranças, e o cantor tornou-se seu porta-voz e agora seu líder, não por seus atos criminosos, muito menos por ser herói, mas pela importância que dá a essas comunidades, por mostrar ao mundo, da sua forma, que elas existem e precisam ser assistidas, pois quem se preocupou com as reais necessidades desse “povo do gueto”? Quais os exemplos que eles têm? Quais as referências ditas como “positivas”, já que tanto o criticam de referência negativa? Qual o político ou autoridade que se preocupa com os moradores das favelas por quem tanto Igor Kannário clama? Você, por exemplo, se preocupa realmente, ou apenas enxerga seus interesses e repete discursos da sociedade dominante?
Vivemos em uma capital em que há inúmeras favelas, mas que são imperceptíveis em sua maioria, bem como desconhecidas ou ignoradas por muitos, e nestas, vivem milhares de pessoas. Você sabe quantas pessoas moram na favela? Sabe quantas favelas existem no bairro da Boca do Rio? Quantas existem na cidade de Camaçari?
Nestas comunidades moram milhares de pessoas desassistidas pelo poder público e ansiosas por reconhecimento. Sendo assim, é evidente e previsível que iria surgir alguém para representá-las, e esse alguém no momento é Igor Kannário. Não se pode negar que ele representa o “Gueto”, como autointitulado, e é um exemplo para o povo dele, justamente por dar o” grito” preso na garganta que gostariam de dar.
A revolta é contra Kannário ou
contra quem ele representa?
Kannário é traficante e usuário de drogas? Não sei. O que sei é que é uma voz que se levantou ao gritar para o mundo que existem favelas, inclusive, denominando cada uma delas, levando a multidão ao delírio no carnaval e por onde passa, dando atenção ao povo carente das mesmas fazendo com que se sinta representado na sociedade excludente e discriminadora.
Não adianta reclamar, não adianta taxar de criminoso. O que se deve fazer é compreender o fenômeno e estudar o seu reflexo para termos a possibilidade de dar outros exemplos às crianças das favelas.
Outro questionamento que me soa, no mínimo, como estranho, é a condição de criminoso atribuída com exclusividade a Igor Kannário, embora existam outros políticos com fama e destaque negativos na mídia. Ora, se a eleição de banqueiros de bicho e corruptos – pessoas em conflito com a lei, como alardeado pela imprensa – não enseja críticas, há que se concluir: o que os diferencia seria a classe social a que um e outros pertencem. Ou não?
Ou seja, outros podem , enquanto Igor Kannário é o cúmulo, este não poderia ser eleito? Alguém se preocupou com os outros eleitos? É ruim ter um representante das favelas, contudo, os outros 42 vereadores também não são passíveis de críticas? Eles têm caráter e conduta ilibadas?
Neste contexto, existem outros, apenas exemplos do que se fala, nada contra nenhum deles, até porque não tenho conhecimento aprofundado acerca da situação, comento apenas para provocar uma reflexão. É certo que o cantor não é exemplo – ou pelo menos não deveria ser tido como tal – e muito menos concordo com seus atos. Mas por que se revoltar apenas contra ele? Essa revolta realmente se dá pelo comportamento dele ou por quem ele representa?
Sejamos críticos, mas é imprescindível que sejamos também reflexivos. Hora de refletir!
Como diz Boaventura Santos, “Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem; lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize.”
Carlos Henrique Ferreira Melo é tenente-coronel da Polícia Militar da Bahia. Especializado lato sensu em Gestão Estratégica em Segurança Pública (Cegesp-Ufba), em Defesa Social e Cidadania – UFPA. Comandante do 12º Batalhão da PM (Camaçari).
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