Publicado em 31/05/2016 às 06h00.

Ainda somos as culpadas?

Assusta muito uma sociedade, mesmo a parcela de uma sociedade, que aceita e banaliza, normaliza todo tipo de violência contra as mulheres

Jaciara Santos
self defense
Imagem ilustrativa (Foto: Sociedade Pública)

 

Naturalmente, recebi com espanto a notícia de um ser humano ter sido brutalmente agredido por outros 30. Trinta, vinte e nove, vinte e oito, vinte e sete, vinte e seis, vinte e cinco, vinte e quatro, vinte e três, vinte e dois, vinte e um, vinte, dezenove… Escrito assim já é angustiante, o que pensar então de um fluxo constante de agressão, no corpo e na mente, perpetrado por trinta algozes? O horror.

Mais espantoso ainda, no entanto, é ter outras pessoas tentando justificar a barbárie, tentando defender o indefensável, jogando ainda mais pedras em um corpo já mutilado.

A comoção é geral quando uma criança é estrangulada e jogada da janela do terceiro andar. A comoção é geral quando um casal é assassinado enquanto dorme, a mando da própria filha. A comoção é geral quando uma criança é arrastada até a morte por ladrões em fuga, presa do lado de fora do carro pelo cinto de segurança.

Mas a comoção não é a mesma quando uma mulher tem a vagina colada com “Super Bond” por um companheiro. A comoção não é a mesma quando uma mulher tem suas mãos arrancadas enquanto tentava se defender do companheiro, que tentava matá-la a golpes de fação. A comoção não é a mesma quando uma mulher é assassinada e tem seu corpo jogado aos cães.

 

Quando mulheres são agredidas, a comoção não é geral

 

A comoção não é a mesma quando duas adolescentes são trancadas dentro de um ônibus e estupradas por nove homens. A comoção não é a mesma quando uma mulher entra num transporte público e é estuprada pelos outros passageiros. A comoção não é a mesma quando uma adolescente é brutalmente estuprada por 30 homens, sem a menor chance de defesa.

Não, quando mulheres são agredidas, a comoção não é geral. Restringe-se às outras mulheres, que, tendo ou não passado por sofrimento semelhante, compartilham o mesmo medo. Estende-se a alguns poucos homens, que conseguem desenvolver o mínimo de empatia. Mas passa ao largo da consciência social, do sentimento de humanidade de muita gente.

Que humanidade?

Ainda nos vale a força e a coragem das mulheres de luta, a consciência dos homens que nos ouvem. Mas assusta muito uma sociedade, mesmo a parcela de uma sociedade, que aceita e banaliza, normaliza todo tipo de violência contra as mulheres. Apenas por serem mulheres. Culpadas e condenadas por serem “elas”.

 

francis amaralFrancis Amaral é jornalista. Em mais de dez anos de carreira, já passou por TV, Web, impresso, revista e assessoria institucional. Atualmente trabalha em assessoria parlamentar. Também é poeta, mãe e forte questionadora dos dogmas sociais.

 

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