Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 31/07/2016 às 07h00.
Descaso com os rios, fonte da vida
Mesmo que houvesse muitas alternativas, o que ainda nos restou deveria ser totalmente preservado como reserva para a crise hídrica de que todo o planeta se ressente
Liliana Peixinho

O Brasil já ocupou o topo dos países mais biodiversos da Terra, com destaque para as reservas e riquezas de água doce. O que tínhamos em fartura, nos faltou, em cuidado, preservação. É inacreditável que ainda haja alguma iniciativa que comprometa, mais ainda, os rios como fonte de vida. O descaso é crescente, mesmo diante de tantos problemas decorrentes da falta de saneamento, crises de abastecimento de água, secas ou enchentes. A Bahia, o Nordeste, o Brasil, revelam altos índices de poluição nos poucos mananciais que ainda abastecem cidades como Salvador – que tem 80% dos seus rios poluídos – e outros municípios, que abrigam os rios mais poluídos do Brasil, o Itapicuru Mirim (Jacobina) e o Verruga (Vitória da Conquista).
Circula na internet uma petição pública para impedir a construção de um hospital em área da APA Rio Ipitanga 1. Segundo informações da petição, a área escolhida pela prefeitura de Salvador, para o que podemos considerar um crime ambiental, é de proteção rigorosa e permanente e fica numa barragem da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) responsável pelo abastecimento de 40% da cidade de Salvador.
Mesmo se houvesse muitas alternativas de rios para abastecimento das populações – o que sabemos não há – o que ainda nos restou deveria ser totalmente preservado, cuidado, pensado como fonte de vida, reserva para problemas que só se agravam na crise hídrica de que todo o planeta se ressente.
É inacreditável ver iniciativas que
comprometem, mais ainda, os rios
O rio Itapicuru é o segundo mais poluído da Bahia e os rios Catu e Itapicuru Mirim são dois rios baianos dos dez mais poluidos do Brasil. E está também na Bahia o rio mais poluído do Brasil, o Verruga, que nasce na reserva ambiental do Poço Escuro, na Serra do Periperi, em Vitória da Conquista.
Lembro que em 2001, quando entreguei o dossiê sobre o Velho Chico, na Unesco, em Paris, França, ao então embaixador José Israel Vargas, numa audiência de 40 minutos, conversamos sobre os pedidos pendentes de diversos países, como o Brasil, para o tombamento de rios, como o Velho Chico, como patrimônio natural da humanidade. Isso não seria possível, como o movimento desejava, porque o São Francisco já estava doente. Nessa época, já começavam a surgir manifestações contra ideias para o projeto de transposição.
Uma das condições do organismo internacional para a concessão do título de patrimônio mundial natural, era que o Velho Chico deveria estar preservado, cuidado, protegido, como fonte de vida. Não adiantou tanta mobilização, clamor dos ribeirinhos, de ambientalistas, povos tradicionais, imprensa e coletivos diversos Brasil afora. O Velho Chico, como outros rios, está muito comprometido, com o risco de morrer de vez.
Como existem diversas outras alternativas para a construção do hospital, a petição informa que não há a necessidade de invadir a APA estadual Joanes Ipitanga, instituída em 1999 e colocar em risco a salubridade do último rio de água potável da cidade. E que haja bom-senso, enquanto ainda é tempo, porque a vida depende da água. E água poluída é fonte de doenças, para a morte.
Liliana Peixinho é jornalista, ativista, autora de “Por um Brasil Limpo”. Fundadora da Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente (Reaja), do Movimento Amigos do Meio Ambiente (AMA) Mídia Orgânica e outras mídias alternativas. Especializada em Jornalismo Científico e Tecnológico. Vencedora do Prêmio Shift – Agentes Transformadores – 2015.
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