Publicado em 18/10/2016 às 18h33.

Dia dos Professores: o que comemorar?

Mais que comemorações, talvez o momento peça reflexão e renovação de forças em prol da carreira dos mestres

Jorge Melo

 

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Imagem ilustrativa (Foto: Famesp)

 

No último sábado, 15, como ocorre tradicionalmente aqui no Brasil desde 1947, na data consagrado pela igreja católica à educadora Tereza D’Ávila, canonizada em 1622 como Santa Tereza de Jesus ou Santa Tereza D’Ávila e considerada padroeira dos docentes, comemoramos o Dia dos Professores e, mais uma vez, ficou no ar uma grande indagação: há o que comemorar?

Embora neste ano, tenha tido uma sensação de que, pela primeira vez em muitos anos, a data, tradicionalmente eclipsada pela proximidade com o Dia das Crianças, ganhou maior destaque nos meios de comunicação, não mudei a minha percepção de que, mais que comemorações, talvez o momento peça reflexão e renovação de forças em prol da carreira dos mestres.

Não se trata de pessimismo a respeito da escola do futuro ou do futuro da escola, mas, inegavelmente, em um cenário de incertezas que ronda a cabeça de todos os brasileiros e onde centenas de perguntas permanecem sem respostas, para mim, o agravamento dos desafios impostos aos docentes é um sentimento natural, sobretudo diante do espectro da PEC 241 a nos rondar, como única alternativa de saída para a grave crise econômica que se abateu sobre o país.

Não se discute o fato de que a educação pública brasileira há muito necessita de profundas transformações em prol de um ensino com mais qualidade, todavia, tenho dúvidas se estas ocorrerão, simplesmente, com base no projeto do governo federal que pretende estabelecer novas diretrizes para o currículo do ensino médio em nosso país.

Que fique claro que o meu ceticismo, para além do pensamento maniqueísta que reduz a vida (ou alguns de seus aspectos) a pares antagônicos irreconciliáveis, se fundamenta nos históricos problemas educacionais ainda não superados pelas políticas públicas já implementadas neste país, independentemente de suas matrizes político partidárias e/ou ideológicas, geradoras dentre outras consequências, inexoravelmente, na maior ou menor desvalorização da carreira docente, de acordo com a partitura e o maestro.

 

Ser educador é ter a alma grande e

quem educa sempre tem o que comemorar

Como consequência da histórica falta de atenção do poder púbico para com os professores neste país, não é raro esses profissionais, na sua rotina de trabalho, notadamente na rede pública de ensino, terem de conviver com baixos salários, precárias condições de trabalho, jornadas exaustivas, superlotação de turmas, carência de políticas de formação inicial e continuada adequadas às necessidades docentes, além da indisciplina endêmica e os crescentes casos de agressões, ameaças e abusos perpetrados por discentes.

Nesse cenário, em uma realidade muito distinta das peças publicitárias e propagandas oficiais alusivas ao seu dia, não tem sido nada fácil ser professor no Brasil, não sendo sem sentido que o magistério seja hoje uma profissão pouco atrativa entre nós, com apenas 2% dos jovens universitários almejando seguir a carreira docente.

Na realidade, “ser professor” sempre foi e será um grande desafio, mas, independentemente do controle dos gastos públicos e das mudanças a serem implementadas com base nas novas diretrizes para o currículo do ensino médio, queiramos ou não, a educação é o caminho para a evolução do ser humano e da sociedade. Assim, não é possível se pensar em melhores condições para a educação no Brasil, sem uma política séria de valorização dos professores, do ensino básico à pós-graduação.

Como disse no início deste artigo, o Dia do Professor é uma data para comemoração e para reflexão. Em termos de reflexão, nada mais adequado e contemporâneo do que uma das lições deixadas pelo educador Paulo Freire: “Se a Educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda”.

Não sou professor por formação, mas há muito me encantei com o magistério, com a educação, e quando me perguntam se tem valido a pena, faço minhas as palavras de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”. Assim, apesar do descaso com que os governos e a sociedade têm tratado a educação em geral e o professor, em particular, ser educador é ter a alma grande e quem educa sempre tem o que comemorar.

Jorge Melo

Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.

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