Donald Trump: hói ou hoí?
Para índios pirahãs, tribo seminômade da Amazônia, o sistema numérico é expresso em apenas duas grandezas: "hói", que significa "um", e "hoí", usado para dois ou "um punhado"

Num estudo profundo sobre linguística, o professor Peter Gordon, da Universidade de Columbia (EUA), analisou e registrou a comunicação dos índios pirahãs. Segundo anota o pesquisador, os nativos levam a vida de forma seminômade na Amazônia e se valem de um sistema numérico expresso em apenas duas grandezas: “hói”, que significa “um”; “hoí”, usado para dois ou “um punhado”. Estas são as únicas medidas naquela comunidade. Nada mais.
Mesmo inseridos num sistemas numérico impreciso, expressos em poucas palavras, os índios conseguem realizar tarefas proporcionalmente complexas, valendo-se de aproximações e firmes no jeito simples de relativizar as coisas vida. Mas o mais instigante do estudo é notar que a linguagem pode ser incomensurável, ou seja, pode conter conceitos impossíveis de ser traduzidos de uma língua para outra.
Assim como o idioma, a compreensão do pensamento alheio, ou do modo de vida de sociedades distintas da nossa, apresenta-se como tarefa extremamente difícil de ser superada. Somente partindo dessa premissa que comecei a entender a eleição de Donald Trump, neste novembro de 16, para o cargo mais importante do planeta. Donald – como preferia a candidata derrotada – enfrentou como pior adversário alguém à sua altura e modo: ele mesmo.
Personagem fluido, que no campo político já enamorara os democratas, foi eleito por um partido – o Republicano – que não o aceitou bem e, muitas vezes, até o rejeitava. Falastrão, mais que portador de um discurso preconceituoso e desrespeitoso com muitos, um homem que acumula episódios moralmente lamentáveis em sua vida privada. Mas um empresário de sucesso, bilionário, e que soube, como ninguém, ouvir o que a maioria dos americanos queria falar.
Com a eleição de Trump, um novo
american way of life se revela ao mundo
Mesmo diante do estigma de encrenqueiro, inseguro, rebelde, narcisista e inconsequente, seus instintos lhe permitiram explorar as angústias econômicas do americano médio, jogar para escanteio a direção de seu partido e vencer.
Esse é ponto: embora inicialmente Trump se mostrasse como “hói”, a história acaba por revelar a verdadeira quantidade de pessoas que secundaram o projeto conservador do futuro presidente dos EUA: hoí.
Trump ficava sozinho, era um só, quando sua personalidade estava sendo analisada. Tornava-se muitos quando se apresentava como um nacionalista obcecado pela conquista e pela proteção do americano médio contra o resto do mundo.
E assim, mais evidente que a vitória de um só, a maioria apoiou o projeto de um novo mundo, menos global, menos solidário, mais protecionista, e que, ao invés de construir pontes, levanta muros.
Esse “novo” american way of life que ao mundo se revela não representa como um fato isolado ou um homem sozinho; também está longe de ser o discurso de uma só pessoa, mas a fala de muitos, num mundo desintegrado que não sabe ao certo como construir um futuro para todos.
Para o bem e para o mal, não apenas nos EUA, Trump não é hói mas hoí.
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