Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 19/11/2021 às 14h28.
Guerra na comunicação, crise civilizatória!
Estamos em estado de guerra, bombardeados por informações desconexas
Liliana Peixinho

A humanidade está demasiada desumana, desatenta, descuidada! Tenta se camuflar em risos fáceis, imagens estéticas de autoestima, gestos automatizados, onde o estado da vida revela-se sombrio. Mais que opinião, são fatos. Como poderíamos estar bem, felizes, alheios à realidade?
Crianças Yanomamis com barrigas inchadas, ossos às vistas, rostos desfigurados, em ambientes inóspitos. Milhões de pessoas sem moradia, ao desalento, com fome, sede, frio, sem terra, sem pátria!
A Natureza em furiosas reações, com sua força – em vento, água, fogo, terra – a destruir ambientes frágeis, construídos com sobras descartadas sem o cuidado que “as coisas” necessitam para trabalhos que proporcionem segurança, conforto, harmonia, no ambiente onde a vida merece, e tem direito, para ser digna.
O maior evento mundial sobre o balanço das atividades humanas na Terra, a COP 26, finalizada este fim de semana de novembro, em Glasgow- Escócia, com representantes de quem decide os rumos da vida nesse planeta, revelou o estado de agonia civilizatória. Crise provocada pelo estímulo agressivo, e inconsequente, ao consumo a qualquer preço.
Estamos em estado de guerra, bombardeados por informações desconexas. E não há tempo suficiente, nas 24 horas do dia, para filtrar, apurar, checar e escolher o que possa ser bom, ou não, para o equilíbrio nas relações humanas.
Poderíamos, apenas, perguntar: “O que o cidadão, a Sociedade, você aí, eu, podemos fazer, em princípios de proteção, para garantir, no mínimo, a saúde integral e coletiva?
Observamos mães sofrerem com suas crianças doentes, em via crucis de atendimento médico, onde mais que a observação sobre as causas e origens do problema, os médicos, em minutos, baseados apenas no relato simples destas mães, desinformadas e alheias às formas preventivas, se satisfazem com uma receita médica, e em sacrifícios financeiros domésticos, se vêm acuadas entre comprar alimentos ou remédios.
Num país com elevados índices de desigualdade, desemprego, injustiça, que promove a impunidade, que Brasil podemos desenhar para o amanhã? São imagens de pessoas dormindo nas calçadas, ao relento, no frio, com fome, enquanto imóveis estão fechados, desabitados. Famílias correndo atrás de caminhão de “lixo ” para pegar comida, enquanto outras mostram, nas redes sociais, fotos de mesas fartas, em ostentação. É a fome e o desperdício, lado a lado. Um país onde a fartura e a falta ocupam o mesmo espaço.
De acordo com dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar – Rede Pessam, são 19,1 milhões de pessoas com fome, no Brasil. Problema humano acirrado pela pandemia e os entornos sociais como preço dos alimentos, desequílibrio no clima, desemprego e a falta de Políticas preventivas.
O descaso político, sem planejamento em ações contextualizadas nas necessidades como a pandemia Covid-19 elevou a extrema pobreza. Cerca de 20 milhões de brasileiros estão sem ter o que comer por longos períodos, mais que 24 horas sem acesso a alimentos dignos.
Os estudos mostram que 116,8 milhões de pessoas sofrem por algum tipo de insegurança alimentar.
“O Brasil continua dividido entre os poucos que comem à vontade e os muitos que só têm vontade de comer”, declaram os pesquisadores entidade.
Pelas pesquisas constata- se que nos últimos dois anos a insegurança alimentar grave quase dobrou, passando de 10,3 milhões para 19,1 milhões. O que levou quase 9 milhões de brasileiros à fome diária. Dos 116,8 milhões de pessoas atualmente em situação de insegurança alimentar, 43,4 milhões (20,5% da população) não contam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estão passando fome (insegurança alimentar grave).
A pesquisa revela que a situação da fome atinge todo o país, em todas as regiões. O Norte e o Nordeste são as mais atingidas.
De forma geral, 9% da população do país passa fome; 18,1% no Norte e 13,8% no Nordeste. A situação na zona rural é pior que em áreas urbanas.
Quanto menor a escolaridade, maior a fome.
Com o aumento do desemprego e da inflação, a insegurança alimentar não entrou só nas casas em condição de extrema pobreza. “Cerca de metade dos entrevistados relatou redução da renda familiar durante a pandemia, provocando inclusive cortes nas despesas essenciais.
A fome não é Isolada, ela é resultado da ausência, do descaso, com a garantia de direitos básicos como Educação, Saúde, Segurança, Moradia .E vem como consequência da ineficiência política em macrocontextos sociais.Presídios superlotados, desumanizados, com presos sem julgamentos, apinhados, doentes, enquanto grandes criminosos continuam agindo em liberdade, sob proteção, alimentam essa desconexão entre direito e dever. UM país onde o trabalho duro é explorado e o emprego burocratizado ineficiente, como alimentar esperança de que mudanças virão para as próximas gerações?
As grandes pautas mundiais continuam sem solução.
Fome, pobreza, saneamento, doença, insegurança alimentar, violência, desperdício, destruição, desigualdade, desumanidade, são desafios históricos, atualmente, agigantados.
No filme “Inferno”, dirigido por Ron Howard, o professor Robert Langdon (Tom Hanks) é vítima de alucinações, com imagens “dantescas”, provocadas por interferências humanas do mal, esteticamente distorcidas, que nos levam ao terror. É um filme, é ficção, é arte!
Mas, ao observarmos a realidade onde o Ser humano promove a sua autodestruição coletiva, aquelas cenas horríveis, com pessoas em rostos distorcidos e amedrontadores, fazem-nos tremer e provocam indignações. Nos levam a imaginar, por exemplo, o que se passa na mente de alguém que está a morrer sem parentes ao seu lado, a lhe segurar a mão, sem o conforto da palavra, do olhar, do carinho, do afago, naqueles últimos tempos de sofrimento físico, em despedida da vida!
Pensar sobre a morte indigna é dolorido, revoltante e não devemos achar normal, que é “porque Deus quis”. Fatos horrendos dessa pandemia causam indignação, revolta, devem e precisam ser responsabilizados. Fatos que poderiam ser evitados tivéssemos todos, Estado, Sociedade, Cidadão um a um, cientes dos devidos compromissos em cuidados coletivos, para garantir toda e qualquer vida digna, como merece e tem direito!
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