O amor na dor
São nos dias mais doloridos que as oportunidades de amar se manifestam da forma mais bonita

Ao longo de toda nossa vida, todos os dias, vivenciamos perdas. Perdemos objetos, somos reprovados em avaliações, sofremos com desilusões amorosas, separações, demissões, diagnósticos de enfermidades graves ou incuráveis, vivenciamos a menopausa, encerrando o nosso ciclo reprodutivo, a aposentadoria, pondo um ponto final no nosso ciclo produtivo ou a morte de amigos ou familiares muito queridos, além de outras experiências cotidianas que nos ajudam a entender que tudo é passageiro, inclusive nós, na nossa condição de mortais.
Pequenas ou grandes, não raro, as perdas nos fazem sentir as dores mais doloridas que achamos que poderíamos sentir e o mais próximo que poderíamos chegar daquilo que chamamos de “tristeza”. Mas, de todas as experiências humanas, nenhuma traz mais implicações e inquietude do que a ideia da morte e o medo que ela inspira.
Infelizmente, uns mais, outros menos, inevitavelmente passaremos por isso, pois ao longo de nossa existência, as perdas sempre serão maiores do que as aquisições.
Nesse sentido, sei, por experiência própria, que o adoecer pode gerar crises e momentos de desestruturação. Afinal, apesar dos avanços científicos, o diagnóstico de algumas doenças graves amedronta e traz sofrimento para os portadores da morbidade e seus familiares, impondo a todos uma difícil adaptação.
A começar pela tomada de decisões sobre o tratamento adequado, o enfretamento de uma enfermidade grave em um ente querido acarreta implicações físicas, emocionais, afetivas, profissionais e financeiras para o enfermo, além de, não raro, comprometer as relações familiares, gerando estresse, tensão e conflitos.
Queiramos ou não, a doença altera o papel social do enfermo e a dinâmica familiar. Assim, salvo os casos de ausência completa de empatia, o processo do adoecer envolve não somente o paciente que se encontra internado, mas também toda a família, que vivencia a hospitalização diariamente.
Quando uma lágrima cai, quem melhor
a enxuga é o amor familiar
Sinceramente, por mais que eu tente, a sensação é a de que nem as doutrinas filosóficas ou as religiões e nem mesmo a ciência são capazes de aplacar totalmente a angústia que a consciência da finitude promove, naqueles momentos em que a esperança não se mostra como algo possível de se alcançar, dando lugar a sentimentos e a condições objetivas de desamparo e impotência.
Ninguém vivencia a enfermidade de um ente querido sem dor, mas a maturidade nos permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade. Afinal resiliência é algo que se aprende com o tempo e com a sabedoria adquirida através do sofrimento, pois, na maioria das vezes, é mais pela vereda da dor do que pelos caminhos do amor que compreenderemos que aceitar o inevitável é o melhor que se tem a fazer.
Já que, nem sempre, a fé remove montanhas, embora nos ajude a contorná-las, o impacto da doença para o enfermo e o grupo familiar precisa ser compreendido por todos que o integram, pois, abaixo de Deus, independentemente da forma como o vejamos, é a família que nos lega o necessário otimismo e a segurança para superarmos ou convivermos com as adversidades.
A hospitalização é um desafio não só para o paciente, como também para a família. Mas, por mais paradoxal que isso possa parecer, são nos dias mais doloridos que as oportunidades de amar se manifestam da forma mais bonita, pois quando uma lágrima cai, quem melhor a enxuga é o amor, principalmente o amor familiar.
Não é fácil amar na dor! Mas, mesmo diante das adversidades, o cuidado e a presença da família trazem segurança afetiva para o enfermo, tranquilizando-o e fazendo com que a tensão emocional seja minimizada. Afinal, como nos ensina Lya Luft, é nesse pequeno território, campo de nossos treinamentos como seres humanos, misto de amor e conflito, onde estão os verdadeiros amigos e os melhores amores.
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