O legado olímpico
Vamos demorar a saber qual o verdadeiro custo do evento e os reais ganhos para a sociedade brasileira

Embora a palavra legado tenha se destacado no nosso vocabulário desde a época da Copa do Mundo, inegavelmente, durante a Olimpíada Rio-2016 parece que foi definitivamente incorporada ao discurso cotidiano e, agora, com a chama olímpica em repouso, aguardando Tokio-2020, e o clima das eleições municipais esquentando, com certeza, vai suscitar muitas discussões sobre o que o evento representou para o Brasil.
Historicamente, os jogos olímpicos têm produzido ganhos e perdas para os países que os sediaram, legando muitos elefantes brancos, mas, também, grandes revitalizações. Assim, impossível não avaliar pragmaticamente a Olimpíada Rio-2016, segundo a lógica do custo/beneficio e simplesmente comparando a lista de obras de infraestrutura, mobilidade e sustentabilidade relacionadas aos jogos com o que poderíamos ter realizado em nosso país, em termos de investimentos em saúde, educação, segurança etc..
Mesmo com o nosso histórico de orçamentos irreais e superfaturados, é impressionante que ninguém se importe muito com o que poderia ter sido feito com os R$ 38,2 bilhões gastos com a realização do megaevento que nos valeu quinze dias de visibilidade internacional, principalmente, diante da nossa realidade socioeconômica,
Ainda na lógica de quem ganhou e perdeu em termos dos investimentos realizados, levando em consideração edifícios, arenas, quadras e ginásios esportivos, meios de transporte, obras de revitalização urbana etc., não restam dúvidas de que o estado e a cidade do Rio de Janeiro foram os principais beneficiários dos chamados legados olímpicos, embora outras unidades da federação que tiveram suas capitais sediando algumas das competições programadas e/ou que receberam estruturas esportivas integrantes de um projeto de formação de futuros atletas, também, tenham sido contempladas.
Como não adianta muito chorar sobre o leite derramado e os reflexos e impactos dos Jogos Olímpicos, na vida das sociedades, cidades e pessoas comportar muitas discussões, resta-nos lançar um olhar sobre os seus resultados, a partir de diferentes pontos de vista e crítica, inclusive os imateriais, a exemplo dos valores, torcendo para que os legados relacionados ao bem comum não sejam esquecidos ou postergados.
Apesar da crise, a Olimpíada aconteceu e, do ponto de vista da sua realização, o evento foi um sucesso, pois com os olhos do mundo sobre o Brasil, com certeza, nos sentimos bem, ainda que temporariamente, pois conseguimos a ratificação do reconhecimento mundial da nossa capacidade de organizar e realizar megaeventos, obtida pela primeira vez na Copa do Mundo.
‘Nas favelas, algumas crianças estão sonhando
de um jeito diferente. E isso, sim, é uma história’
(Rafaela Silva, judoca campeã)
Apesar de a meta estabelecida para a Olimpíada não ter sido cumprida – colocar-se entre os dez primeiros países no quadro de medalhas –, pelo total de conquistas, ficará para a história a melhor participação brasileira até aqui no evento e, de quebra, o fim do tempo em que brasileiro só conseguia sentir o gosto amargo da prata e do bronze no futebol, com direito a revanche, com a vitória sobre a Alemanha no Maracanã.
Nesse sentido, mesmo em meio a muitas polêmicas, nós, brasileiros e, principalmente, baianos, temos muito a comemorar em termos da entrega e desempenho de nossos atletas. Afinal, Robson Conceição, o garoto pobre que chegou ao boxe apenas para se defender das pancadas da vida, pensando em ganhar brigas de rua no carnaval de Salvador, conquistou o inédito ouro no pugilismo, e Isaquias Queiroz, o menino de Ubaitaba que, depois de muito remar contra a maré na terra das canoas, escreveu seu nome nos anais da história do esporte brasileiro, ao se tornar o primeiro atleta a conquistar três medalhas em uma única olimpíada, duas de prata e uma de bronze, além de se tornar o pioneiro nos pódios da canoagem nacional.
Com a trigésima primeira edição das Olimpíadas chegando ao fim é impossível não reconhecer que se tivemos problemas, também vivemos momentos incríveis, pois, mais uma vez, a história dos jogos olímpicos e as histórias de superação dos atletas, em especial aquelas de brasileiros, em particular, a dos dois baianos que enfrentaram inúmeras dificuldades para chegar ao nível em que se encontram, trazendo títulos inéditos para o Brasil, são bons exemplos para a formação de nossas crianças e jovens que anseiam satisfazer ao natural desejo humano de se mostrar mais forte, mais rápido, melhor.
Tenho consciência de que vamos demorar a saber qual o verdadeiro custo do evento e os reais ganhos que este trouxe para a sociedade brasileira, mas rogo aos deuses olímpicos que nos ajudem a realizar o sonho de que o legado da Rio-2016 seja benéfico para o Brasil, “um Brasil que canta, sofre, mas é feliz. E não se entrega, não.”
Sem a menor pretensão de querer repetir o exemplo do Reino Unido, ao se tornar o primeiro país sede de uma Olimpíada a conquistar mais medalhas na edição seguinte do que conquistou em casa, preocupa-me a falta de projetos para efetivar o “legado”, já que levaremos décadas para pagar as contas do megaevento.
Sinceramente, agora que os olhos do mundo não estão mais voltados para o Brasil, torço pela continuidade e a ampliação dos projetos de apoio aos nossos atletas e pelo desenvolvimento de programas voltados para as futuras gerações,. Pois, como externou a nossa medalhista de ouro, a judoca Rafaela Silva, neste momento, em função dos jogos, felizmente, na Boa Vista de São Caetano, em Salvador, em Ubaitaba ou em qualquer outro rincão deste país: “Nas favelas, algumas crianças estão sonhando de um jeito diferente. E isso sim é uma história.”
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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