O segundo estupro de Lady Gaga e Maria Schneider
Da "cena da manteiga" de Maria Schneider, em filme de 1972, ao estresse pós-traumático de Lady Gaga dos dias atuais, estupro ainda é um assunto minimizado por uma parcela da sociedade

O episódio envolvendo o jornalista Piers Morgan e a cantora Lady Gaga ilustra a postura desrespeitosa com que parte da sociedade ainda contempla a violência sexual. Situação semelhante ocorreu, dia atrás, quando da divulgação de entrevista do cineasta italiano Bernardo Bertolucci, de 76 anos, sobre a célebre “cena da manteiga” do filme Último Tango em Paris (1972). O veterano diretor italiano classificou como “um mal entendido ridículo” a polêmica em torno do estupro que a atriz Maria Schneider (1952-2011) alegava ter sofrido em pleno set de filmagens.
No primeiro take, Morgan ironiza Gaga, que revela sofrer de estresse pós-traumático como efeito colateral do estupro de que foi vítima quando ainda bem jovem. No segundo flash, Bertolucci admite – e depois nega – o realismo da afamada cena em que Schneider teria sido sodomizada por Marlon Brando (1924-2004) durante as gravações do filme sob sua direção. A cantora novaiorquina saiu-se com a maior elegância do bate-boca com o jornalista. A atriz parisiense morreu sem conseguir provar que falava a verdade. Ambas tinham 19 anos à época da alegada violência sexual.
Situações como essas talvez expliquem o silêncio que parece ser uma regra autoimposta a vítimas de crimes de natureza sexual. Algo como, “é melhor calar do que ser violentada repetidamente mais uma, duas, dez, cem mil vezes pela sociedade..”. E é dessa norma não escrita que se aproveitam os criminosos. Sim, porque estupro é crime enquadrado no Código Penal Brasileiro e tipificado no Artigo 213: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. E prevê pena de reclusão de seis a dez anos, que pode ser aumentada com base em circunstâncias agravantes.
Então, fica combinado: autores de violência sexual, famosos ou anônimos, são criminosos passíveis de sanções penais. Mas – e aí entra o aspecto emocional da questão – até que o criminoso seja indiciado, denunciado e levado ao banco dos réus, há um longo caminho a ser percorrido pelas vítimas. Muitas se perdem pela estrada. Ante o linchamento moral (que, por vezes, começa na instância policial), boa parte prefere abdicar do direito de buscar justiça e mergulha no silêncio. E não é para menos. É preciso muita coragem para suportar o massacre de um processo judicial em que a vítima precisa provar a todo momento que é…vítima! Por que usava tal roupa? Por que estava bebendo? Por que aceitou sair com o criminoso? Por que estava naquele lugar e naquela hora? Por que não reagiu?… Esses e outros questionamentos fazem parte da rotina de quem tem a ousadia de denunciar um estupro. No Brasil e no mundo.
Voltando a Morgan e Bertolucci – porque, ao que parece, o desrespeito à condição feminina desconhece fronteiras e barreiras linguísticas – só resta lamentar que as posturas assumidas por ambos, embora em contexto distintos, sejam tão semelhantes entre si. E torcer para que, um dia, temas relacionados ao estupro possam ser encarados com a devida seriedade: sem contemporização para com o autor e com julgamento da vítima, independentemente da notoriedade dos envolvidos.
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