Reagir ou não reagir: eis a questão!
Não existe segurança 100% e, nem sempre, basta entregar os anéis para se preservar os dedos

Vez por outra, recebo convites de diversas emissoras de rádio e de televisão para falar sobre segurança pública, não raro, para comentar ou dar dicas e orientações em questões referentes à criminalidade que tanto preocupa a população do nosso estado e, particularmente, aos soteropolitanos.
Em algumas oportunidades, as entrevistas versam sobre como devemos nos comportar em caso de sermos vítimas de furtos ou roubos. Afinal, em tempos de violência urbana extrema, ao transitar nas vias públicas, nenhum de nós, na condição de pedestre ou conduzindo um veículo, está livre de ser assaltado.
Nesse sentido, ao ser questionado sobre o que fazer no caso de ser vítima de um roubo, indubitavelmente, mesmo que uns não queiram, a minha resposta sempre será: não reaja! Apesar de saber que a inação não representa uma garantia de preservação da vida e que o reagir não configura um ato suicida.
Frente a uma situação de perigo, por mais que estejamos imersos em um ambiente regido pela racionalidade, paradoxalmente, continuamos respondendo da mesma forma que nossos antepassados, com o nosso sistema nervoso nos preparando para luta ou fuga, mesmo nas situações de sequestro ou assalto, nas quais, diante do delinquente com uma arma nas mãos, não se deve tentar fugir ou, muito menos, lutar.
Assim, apesar de sabermos que a reação ao perigo é um ato instintivo e muitas vezes incontrolável, penso que a preservação das nossas vidas dependerá da atitude que tivermos na tentativa de controlar a situação adversa, salvo quando o reagir seja a única alternativa que a vítima tenha para preservar a sua vida ou a de terceiros ante a ação de um criminoso predisposto a matá-los.
Não existe segurança 100% e, nem sempre, basta entregar os anéis para se preservarem os dedos, como podem testemunhar a mídia e a dor daqueles que já perderam um familiar ou um amigo para a violência que ameaça a todos nós, mesmo após terem se despojado dos seus pertences, sem esboçar qualquer reação.
Ou haverá segurança para todos
ou ninguém estará seguro
É óbvio que a questão, no entanto, não se restringe a uma resposta tão simples como a passividade omissa ou conivente. Assim, ante o insano, a brutalidade, a selvageria, a recomendação de não reagir não pode ser entendida como um mandamento para que cada cidadão quede silente, impotente, apenas rezando para que não aconteça consigo ou com os seus entes queridos o que já ocorreu com outras vitimas de assaltos e sequestros relâmpagos, perante o silêncio da sociedade e a omissão dos governos.
Nesse sentido, dizer que a reação é uma atitude correta é muito fácil quando alguém reage a um assalto e não morre. Mas, o que se poderia dizer a quem tem chance de reagir, o faz e morre do mesmo jeito? Será que essa macabra loteria é, verdadeiramente, a única alternativa que nos resta?
Em busca de respostas para esses e outros questionamentos, cumpre-nos refletir sobre o que mais podemos fazer a não ser orar, lamentar ou partir para o confronto, num próximo assalto que poderá advir a qualquer momento, em qualquer lugar, mesmo correndo o risco de estar assinando a própria sentença de morte.
Tenho consciência de que segurança pública não é uma equação matemática, na qual determinados fatores fatalmente conduzem a um mesmo resultado. Mas, com certeza, a raiz de todos os problemas que enfrentamos hoje pode ser imputada a nossa passividade omissa, diante de décadas de omissões, descontroles e escassez de investimentos que levaram o país e, em especial, o nosso estado a crescentes índices de violência, com os governos patinando na falta de vontade política na adoção de medidas efetivas visando a modernizar a segurança pública e reduzir a criminalidade.
Nessa lógica, a reação que proponho não é aquela individual, consciente ou desesperada, que coloca em nossas mãos a decisão de fugir ou lutar, do reagir ou de se submeter para não morrer nas mãos dos delinquentes, pois o perigo nos espreita a cada esquina.
Acredito na reação não violenta da pressão política coletiva, corajosa, firme, forte e solidária que, se contrapondo à imagem simplista que vê o pacifismo como algo medroso, egoísta, fraco e perdedor, consiga tirar da inação os donos do poder, pois, mantidas as atuais condicionantes, continuaremos incapazes de construir um movimento nacional em prol da vida, fugindo ou lutando, apenas em função do processo filogenético de formação da espécie humana, confirmando o fracasso civilizatório de uma sociedade que, incapaz de compreender que ou haverá segurança para todos ou ninguém estará seguro, não se importa por quem os sinos dobram.
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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