Uma chama ética
Revezamento da tocha olímpica país afora é uma metáfora à peregrinação do sábio Diógenes que, lanterna à mão, procurava a virtude pelas ruas de Atenas

Após ser acesa, no dia 21 de abril, em cerimônia realizada na cidade grega de Olímpia, berço dos Jogos Olímpicos, passar pela sede das Organizações das Nações Unidas (ONU) e ficar exposta no Museu de Lausanne, na Suíça, a Tocha Olímpica, finalmente chegou a Brasília, na última terça-feira (3), dando início ao revezamento cerimonial, no qual pessoas de todas as esferas da sociedade a carregam pelo país anfitrião até o momento da cerimônia de abertura dos Jogos de 2016.
Em meio à grande crise que se abateu sobre o país, é natural que os preparativos finais do evento sejam permeados por diversas preocupações e, ao ver a chama olímpica iniciar o trajeto que a levará a passar por 329 cidades brasileiras, entre elas todas as capitais, lembrei-me da figura lendária de Diógenes que, conforme relatos históricos, lanterna a azeite nas mãos, ficava para lá e para cá em vão, pelas ruas de Atenas, procurando um homem honesto, em plena luz do dia, em forma de protesto contra a desonestidade humana.
Mesmo sabendo que muitas diferenças distanciam a lendária Grécia e o Brasil da atualidade, ao debruçarmos o nosso olhar por nossa época, nosso país, nossas instituições, nossos homens públicos, constatamos que a realidade vivenciada pelo velho e sábio Diógenes, em Atenas, não destoa muito do cenário vivenciado neste país tropical, particularmente, na nossa capital federal.
Nessa lógica, não foi sem sentido que, inspirado pela peregrinação da tocha olímpica, em meio ao momento político que estamos vivenciando no Brasil, em função da crise ética e da descrença dos eleitores em suas lideranças institucionais, tenha me vindo à mente o exemplo do filósofo grego fundador da escola cínica.
A realidade vivenciada pelo sábio Diógenes, em Atenas,
não destoa muito do cenário vivenciado em nosso país
Sei que a tênue chama da lanterna do filósofo, comparada com a tecnologia e o glamour da tocha olímpica conduzida pelas mãos dos doze mil cidadãos por todo o território nacional, nada ilumina, mas em parte consola e dá esperança, pois, há mais de dois mil anos, ele vem nos dando o exemplo do que devemos fazer.
Nesse sentido, acredito que se Diógenes viesse ao nosso país e repetisse o gesto na Praça dos Três Poderes, em plena capital federal, com certeza, não pararia ao pé de Suas Excelências nem terminaria ali a procura. Aliás, em muitas outras praças das cidades brasileiras, o gesto poderia ser hoje repetido e, certamente, as dificuldades também seriam muitas para encontrar os homens de que o nosso tempo precisa.
Já que estamos a procurar, desesperadamente, por um homem ou uma mulher de virtude, a fim de que venha a nos liderar no longo e penoso caminho que deverá nos retirar deste poço profundo de desesperança em que atualmente nos encontramos, talvez seja, realmente, necessário aparecer um Diógenes no século XXI, com lanterna à mão, procurando identificar quem enxergue essa realidade.
Sinceramente, não sei que resultado o filósofo teve em Atenas, mas, se os candidatos a políticos e a futuros mandatários desta nação fossem procurados à luz da chama ética da candeia de Diógenes, com certeza, o Brasil sentir-se-ia mais confiante no seu futuro!
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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