Violência: a fraqueza da ação sem argumentos
O maior cúmplice é o silêncio, que mata ou causa incapacidade permanente, doenças ou acidentes

A recente denúncia da agressão sofrida pela atriz e modelo Luiza Brunet, além de contribuir para desmistificar a ideia preconcebida de que esses fatos só acontecem na periferia e no seio das classes sociais menos economicamente favorecidas, mais uma vez, coloca em foco a questão da agressividade e da violência masculina contra as mulheres.
Com base nesta e em outras centenas de ocorrências menos glamorosas, mas não menos dramáticas, devemos perguntar: o que está acontecendo com o macho brasileiro da espécie humana? Por que tantos episódios de violência praticados por homens contra suas esposas, companheiras, namoradas, mães, filhas e, até mesmo, outras mulheres com as quais não possuem vínculos afetivos ou de parentesco?
Em busca de respostas para essas e outras questões, os esforços, necessariamente, perpassam por uma mudança de nossa visão a respeito de comportamentos masculinos em relação à violência de gênero, ingenuamente, atribuídos à agressividade inerente à condição humana e à natureza dos animais, portanto, inata, abstraindo-se os aspectos culturais geradores de uma concepção autoritária de gênero e cidadania, construída ao longo da história de uma sociedade onde os conceitos de força, decisão e determinação sempre foram características atribuídas, exclusivamente, ao sexo considerado forte e que vivia a ilusão de que o mundo masculino lhe bastaria.
Nessa lógica, entre nós, a cultura patriarcal desenvolveu entre as mulheres uma educação de submissão e renúncia, de vontade própria sempre a serviço dos outros. Assim, historicamente, homens e mulheres têm introjetado e projetado essas posições tanto no nível individual como no nível social, reforçando essa desigualdade que se reflete em questões socioeconômicas e políticas que têm tudo a ver com a violência que vivemos nos nossos lares.
A força bruta é a fraqueza de quem não aceita a mulher como ser humano completo
No entanto, transformações significativas ocorridas nas relações de gênero, a partir da metade do século passado, na esteira da promoção de grandes mudanças nos papéis sociais que mantinham as relações de dominação do masculino sobre o feminino, estão explicitando conflitos, convenhamos, de difícil assimilação tanto para homens, quanto para mulheres criadas em um universo machista, não propenso à viabilização de consensos negociados, em lugar da tradicional imposição.
Como nos lembra Marta Góes: “O machismo não costuma ser gentil com quem ousa desafiá-lo.” Assim, depreende-se que nesse processo de agudização das agressões e violências perpetradas contra as Luízas e, principalmente, contra as Marias que se recusam a ser Amélias, o maior cúmplice é o silêncio, um silêncio que a cada ano mata ou causa incapacidade permanente, doenças ou acidentes.
A violência doméstica é um mal que não conhece fronteiras econômicas ou sociais e que pode afetar qualquer um, pessoas comuns ou celebridades. Para vencê-lo é preciso muito mais do que um projeto de transformação social que não seja apenas um slogan, constituindo-se em um verdadeiro antídoto cultural, através da educação e sensibilização para o respeito e a igualdade entre homens e mulheres.
Nessa luta, cada um de nós deve fazer a sua parte no sentido de aumentar a consciência e mudar um paradigma social persistente e perpetuado por novos discursos e métodos. Afinal, mesmo que uns não queiram, amanhã será outro dia e com o avanço feminino, mais cedo ou mais tarde, o domínio masculino irá diminuir cada vez mais e pode, mesmo, chegar ao fim, colocando homens e mulheres lado a lado, sem submissão ou dominação.
Assim, devemos tratar esse tipo de violência como um tabu, como algo que deve ser proibido, pois não é um fenômeno natural, e sim cultural. Devemos mostrar que a violência, que a força bruta, são apenas demonstrações de fraqueza e insegurança da ação de quem não tem mais argumentos para não aceitar as mulheres como seres humanos completos, apenas por querê-las sempre fracas e submissas.
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro UniversitárioEstácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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