Publicado em 07/01/2016 às 06h00.

Maracangalha: O inferno que veio do céu

O avião que caiu em março de 2007, com R$ 5,6 milhões, ainda hoje, oito anos de depois, causa medo na população

Levi Vasconcelos
(Foto: João Brandão / bahia.ba)
Local onde o avião caiu, em Sapucaia, próximo de Maracangalha (Foto: João Brandão / bahia.ba)

 

“Aqui ninguém sabe de nada não, amigo. Avião aqui é problema”. Aí está a resposta para o primeiro morador de Sapucaia, um lugarejo de não mais que 30 casas, onde o inferno caiu do céu pouco depois das 12h do dia 14 de março de 2007. Um avião da Bahia Táxi Aéreo com R$ 5,6 milhões espatifou-se no chão da fazenda Nossa Senhora das Candeias, matou os quatro ocupantes e espalhou cédulas e desgraça aos moradores das cercanias.

Muita gente pegou dinheiro. Em torno de 129 pessoas, segundo estimativas da polícia, que só conseguiu reaver pouco mais de R$ 500 mil. Cinco milhões de reais sumiram como que por encanto. A notícia se espalhou e começou o inferno. Desabaram lá também policiais e bandidos de todos os cantos. Invadiram casas, arrebentaram fogões e geladeiras, lascaram colchões com peixeiras, instalaram o terror à procura de dinheiro.

Um acampamento de sem-terras que havia na área conseguiu, via MST, com Jaques Wagner, então governador, que a polícia não entrasse lá. Mas os bandidos entraram. E o acampamento evaporou. Hoje, quase oito anos depois, o caso é tabu. É coisa que ninguém gostaria de viver, mas já que vivenciaram, todos preferem esquecer. Os dias de terror foram longos, duraram quase um ano. E alguns que moravam na área e fugiram, acabaram assassinados.

Poesia e dor – Beu, morador, foi obrigado a sentar e levou um tiro em cada coxa para dizer onde tinha dinheiro. Não disse porque não tinha. Hoje está vivo, mas foge do assunto como o diabo da cruz. Como todos lá, a exemplo de um ancião aposentado da Usina Cinco Rios que discursa para externar a sua revolta como se estivesse falando ao vento: “Não sei de nada. Ninguém sabe. A gente sofreu o diabo e não apareceu ninguém aqui. Só apareceu gente para bacunhar (ameaçá-los vasculhando as casas)”.

(Foto: João Brandão / bahia.ba)
No vilarejo de Sapucaia, nenhum morador quis falar sobre a queda do avião (Foto: João Brandão / bahia.ba)

 

Sapucaia fica a 3 km de Maracangalha, o povoado de São Sebastião do Passé, a 60 km de Salvador, que Dorival Caymmi imortalizou com a música de mesmo nome. Sempre teve na memória a lembrança poética da Anália dos versos do cancioneiro que, para os moradores, é a sambadeira Amália. Mas também lá o terror roubou o espaço da poesia nas lembranças de todos.

Poucos se arriscam a falar. Ou melhor, quando se chega em Sapucaia, o pessoal diz: “Vá em Maracangalha que lá é que tem gente letrada que sabe contar histórias”. E o povo de Maracangalha devolve na mesma moeda: “Não foi aqui (que o avião caiu). Foi em Sapucaia”.

Dinheiro e infelicidade – Jurandir Oliveira, o Juju, 82 anos, ex-subgerente da Usina Cinco Rios, é um dos poucos que falam. Admite ele que foi uma história de horror: “Eu estava aqui sentado na varanda quando vi o avião passar baixinho com uma zoada parecendo caçamba velha. Minutos depois foi aquele corre-corre, todo mundo gritando que o avião caiu. Falei com meu filho e ele ligou para a polícia de São Sebastião. Pouco depois ouvir dizer que tinha quatro mortos e um monte de dinheiro espalhado. Não pisamos lá, nem eu e nem meu filho”.

(Foto: João Brandão/bahia.ba)
Seu Juju (à direita) é um dos poucos que falam (Foto: João Brandão/bahia.ba)

 

Seu Juju, que é amigo de Emilton Rosa, o cônsul do Japão na Bahia que adotou Maracangalha e para lá levou o maestro Fred Dantas com o propósito de ensinar música ao povo, conta que a queda do avião abalou, de fato, a vida em Maracangalha, um lugar pacato, que tem episódios de violência esporádicos, normalmente brigas de bar, em tempos de festa. “Foi algo muito triste mesmo. Todo mundo quer esquecer, mas é difícil”, relatou. Outro morador, após muito hesitar em falar, atestou: “Todo mundo aqui já viu que dinheiro não traz mesmo felicidade”.

 (Foto: Reprodução I João Brandão/bahia.ba)
Antes e depois da Usina Cinco Rios (Foto: Reprodução I João Brandão/bahia.ba)

 

Marca da cidade – O povoado nasceu com a usina e sobrevive sem ela. Maracangalha brotou em 1912 sob a batuta de Álvaro Martins Catharino, com máquinas de Bom Jardim de Santo Amaro, a primeira usina de açúcar mecânica do Brasil.

Em 1938, Clementi Mariani e Horácio Pinto tomaram o comando. Ela fechou e reabriu várias vezes, até encerrar de vez as operações em 1987, desempregando mil pessoas. Mas o povoado sobreviveu. Já teve mais de cinco mil habitantes e hoje tem em torno de dois mil.

Conta Juju Oliveira que, na realidade, Dorival Caymmi só foi lá uma vez, na inauguração da praça que leva o nome dele, construída pelo ex-prefeito Ernani Rocha. “Dorival fez a música porque tinha um amigo que todo fim de semana sumia. Lá um dia quis saber qual era o caso e o amigo contou que ia para Maracangalha, onde morava Amália, e não Anália, como na música, uma sambadeira famosa na época”, revelou.

Em suma, Maracangalha tinha a história da usina e a da música. Agora tem a do avião também.

Levi Vasconcelos

Levi Vasconcelos é jornalista político, diretor de jornalismo do Bahia.ba e colunista de A Tarde.

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