Publicado em 18/11/2015 às 18h08.

Por quem chora a tropa?

Ataque a posto de saúde que resultou na morte da soldado Dulcineide enseja reflexões sobre a vulnerabilidade nossa de cada dia

Jaciara Santos

 

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Para além do luto corporativo, a morte da soldado Dulcineide Bernadete de Souza enseja algumas reflexões que remetem à vulnerabilidade nossa de cada dia. Antes de tudo, vamos combinar, Dulcineide não morreu num confronto com bandidos. Estava a trabalho, sim, mas num posto de saúde, um espaço teoricamente resguardado de ações dessa natureza. E – também hipoteticamente – deveria estar a salvo de ataques, porque, até mesmo em zona de guerra, unidades de saúde devem ser preservadas, segundo a Convenção de Genebra, de agosto de 1949.

Não que a morte da soldado fosse menos trágica se houvesse decorrido de uma troca de tiros em praça pública ou em outro ambiente. Morte é sempre uma perda irremediável se analisada sob a ótica dos laços de afeto deixados pela vítima.   O ponto aqui é o cenário da tragédia: um posto de saúde.

E por que bandidos teriam escolhido um posto de saúde para assaltar? Segundo a versão oficial, queriam apenas e tão somente as armas dos policiais em serviço para reforçar seu próprio arsenal. E teria sido aleatória a escolha do posto de saúde de Pituaçu para aquela ação ou os criminosos estudaram o local e apostaram na sua vulnerabilidade?

Bom que se diga, não é a primeira vez que um posto de saúde é invadido por bandidos em Salvador. Há pouco mais de um ano, em julho de 2014, um grupo armado atacou a unidade de saúde Professor Humberto Castro Lima, no bairro de Pernambués. Saldo do ataque: pânico generalizado e um celular roubado. Felizmente, não houve feridos.

Soube-se, à época, que outros postos em bairros da periferia já haviam passado por trauma semelhante, tais como Lobato, Bate Coração, Alto do Cruzeiro e Alto da Teresinha, no subúrbio ferroviário, e Arenoso, na região de Tancredo Neves. Assaltos e arrombamentos também tinham sido registrados nas unidades de saúde Virgílio de Carvalho (Dendezeiros), Ministro Alkimin (Massaranduba) e nos CAPS do Rio Vermelho, Cajazeiras e Alto de Coutos. De lá pra cá, o que foi feito para reduzir a insegurança nesses espaços?

Pode-se argumentar que a violência é para todos e está posta em todos os lugares, mas, não dá para fechar os olhos. Muita coisa está fora da ordem quando um cidadão sai de casa para buscar atendimento médico e descobre que facilmente poderá ser achado por uma bala perdida. No caso da soldado Dulcineide, até que o risco de tombar ferida por um projétil de arma de fogo não era uma possibilidade assim tão remota, em virtude da profissão de risco que havia abraçado, dezesseis anos atrás. Mas, convenhamos, ela não estava propriamente no front. Vai ver até (quem sabe?) se sentia segura por trabalhar num posto de saúde e não numa patrulha ostensiva das ruas. Ocorre que estamos numa guerra sem leis nem fronteiras.

Já são 17 os policiais militares assassinados este ano na Bahia, três deles em serviço. Do outro lado as baixas são maiores? Sim, desmesuradamente maiores, o que não justifica a nossa miopia ante as condições de vulnerabilidade em que os agentes de segurança atuam. Sem proteção, como eles podem proteger a quem está do lado de cá?

Por quem chora a tropa? Hoje, pela soldado Dulcineide. E amanhã?…